Entrevista no Flow alcançou 10 milhões de visualizações, enquanto live de Flávio Bolsonaro chegou a 5 milhões; sequência de decisões judiciais terminou com cancelamento do debate da Globo.
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| Lula alcança 10 milhões de views no Flow após ausência no debate da Globo, enquanto Flávio Bolsonaro chega a 5 milhões em live. Foto: Flow PodCast |
A decisão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de não participar do último debate presidencial da TV Globo antes do primeiro turno acabou produzindo um resultado diferente daquele que normalmente se espera de uma ausência em um confronto eleitoral: o presidente transferiu sua exposição para a internet e terminou a noite com uma audiência significativamente maior que a de Flávio Bolsonaro (PL), que também deixou de participar do programa.
A entrevista de Lula ao Flow, realizada na noite de quinta-feira (1º), no mesmo horário em que ocorreria o debate, alcançou 10 milhões de visualizações no YouTube. A live de Flávio Bolsonaro chegou a 5 milhões, segundo dados da plataforma divulgados pela Folha de S.Paulo.
A diferença também apareceu durante as transmissões. Lula chegou a aproximadamente 1,8 milhão de espectadores simultâneos, enquanto a live de Flávio alcançou cerca de 941 mil, segundo levantamento do Poder360.
O episódio foi resultado de uma sequência de decisões políticas e judiciais que alterou completamente a programação eleitoral prevista para a noite. Lula já havia anunciado que não iria ao debate. Flávio Bolsonaro, que inicialmente participaria, desistiu posteriormente. A Globo, então, cancelou o confronto.
Lula escolheu o Flow antes do cancelamento
A estratégia de Lula foi definida antes de o debate ser oficialmente cancelado.
O presidente havia comunicado que não participaria do programa da Globo e optou por conceder uma entrevista ao Flow no mesmo horário. Com isso, em vez de dividir o palco com adversários e responder a perguntas de outros candidatos, Lula escolheu um ambiente no qual seria entrevistado pelos apresentadores do podcast.
A escolha também permitiu que sua campanha mantivesse uma agenda de comunicação própria, sem depender da dinâmica estabelecida pela emissora.
A audiência obtida posteriormente mostra o alcance dessa estratégia. O Flow chegou a registrar cerca de 1,7 milhão de espectadores simultâneos durante a entrevista, superando marcas anteriores do próprio programa com Lula.
O número de visualizações acumuladas também cresceu rapidamente. Na manhã desta sexta-feira (2), a entrevista já havia chegado a 10 milhões de visualizações, enquanto a transmissão de Flávio registrava metade disso.
A decisão do TSE mudou as regras sobre a ausência de Lula
A ausência do presidente ganhou uma nova dimensão quando a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou que a Globo não poderia exibir o púlpito vazio reservado a Lula durante o debate.
A decisão atendeu a um pedido da coligação do presidente. Além de impedir a exibição do espaço vazio, a ministra também restringiu a possibilidade de os candidatos presentes utilizarem a dinâmica do debate para formular perguntas direcionadas ao candidato ausente.
O argumento apresentado na decisão foi de que a participação em debates é facultativa e que a exibição do púlpito vazio poderia produzir uma consequência negativa adicional para o candidato que optasse por não comparecer.
Na prática, a medida retirou do debate um dos principais elementos que poderiam marcar visualmente a ausência de Lula.
A questão ganhou importância porque a própria regra do debate previa mecanismos para indicar a ausência de candidatos. Segundo reportagens, as campanhas haviam concordado previamente com o formato, incluindo a possibilidade de exibição do espaço vazio.
O debate acabou cancelado
A decisão do TSE, entretanto, foi apenas uma parte da sequência que levou ao cancelamento do programa.
Outra decisão judicial determinou a participação de Renan Santos (Missão) no debate. Antes disso, uma decisão do presidente do TSE havia determinado a inclusão de Romeu Zema (Novo) no encontro.
As alterações ocorreram às vésperas da transmissão e modificaram a configuração inicialmente planejada pela Globo.
Flávio Bolsonaro, que ainda estava previsto para participar do programa, anunciou sua desistência. Lula já estava fora. Diante desse cenário e das mudanças determinadas pelo Judiciário, a Globo decidiu cancelar o debate. A emissora alegou insegurança jurídica provocada pelas decisões tomadas próximo ao horário do programa.
O resultado foi uma situação incomum na história recente das eleições presidenciais: os dois candidatos que apareciam como principais polos da disputa não participaram do debate que deveria colocá-los frente a frente.
A Associated Press destacou que Lula e Flávio ficaram fora do último debate televisionado da Globo antes do primeiro turno e que as decisões judiciais contribuíram para o cancelamento do encontro.
Da ausência ao ganho de exposição
É nesse ponto que a sequência dos acontecimentos produz um efeito mensurável favorável à estratégia adotada por Lula.
Se o debate tivesse ocorrido conforme inicialmente planejado, Lula não estaria no palco, mas sua ausência poderia ser visualmente apresentada aos telespectadores por meio do púlpito vazio. Além disso, os demais candidatos teriam um ambiente específico para questionar sua decisão de não comparecer.
A decisão do TSE retirou esses elementos.
Horas depois, o debate foi cancelado e Lula apareceu no Flow justamente no horário em que o confronto seria transmitido pela televisão.
O resultado foi uma mudança completa de cenário: em vez de ser apresentado como o candidato ausente diante de milhões de telespectadores, Lula passou a ocupar sozinho uma transmissão digital que alcançou uma audiência expressiva.
Isso não permite concluir que a ministra tenha tomado a decisão com a intenção de beneficiar Lula. Permite, porém, afirmar que a sequência de acontecimentos acabou produzindo um resultado objetivamente favorável à estratégia escolhida pelo presidente, especialmente no que diz respeito à exposição digital.
Essa distinção é importante porque efeito e intenção não são a mesma coisa.
Flávio também migrou para a internet
Flávio Bolsonaro acabou adotando uma estratégia semelhante depois de desistir do debate.
O candidato do PL realizou uma transmissão própria pela internet e conseguiu reunir uma audiência relevante. O problema, em termos de alcance, é que os números registrados ficaram abaixo dos obtidos por Lula.
Segundo o Poder360, o pico de espectadores simultâneos da live de Flávio chegou a 941 mil, enquanto Lula atingiu 1,8 milhão no Flow.
Nas visualizações acumuladas, a diferença também foi significativa: 10 milhões para Lula contra 5 milhões para Flávio, de acordo com os dados divulgados pela Folha.
É necessário, entretanto, fazer uma ressalva: visualizações acumuladas e audiência simultânea são métricas diferentes. Os 10 milhões não representam 10 milhões de pessoas que acompanharam integralmente a entrevista. Trata-se do número de visualizações registrado pelo YouTube ao longo do período.
Uma eleição cada vez mais disputada também fora da televisão
O episódio evidencia uma mudança importante na comunicação eleitoral brasileira.
Durante décadas, os debates das grandes emissoras funcionaram como alguns dos principais momentos de exposição dos candidatos. Em 2026, porém, candidatos passaram a utilizar podcasts, redes sociais e transmissões próprias para disputar diretamente a atenção do eleitor.
A noite de 1º de outubro levou essa transformação ao extremo. O debate que deveria reunir os presidenciáveis na televisão foi cancelado, enquanto dois dos principais candidatos realizaram transmissões independentes pela internet.
O resultado mostrou que a audiência política já não depende exclusivamente da televisão aberta.
No caso de Lula, a escolha do Flow produziu uma audiência digital superior à que Flávio conseguiu em sua transmissão. A estratégia também permitiu que o presidente evitasse um confronto direto com adversários no momento de maior exposição eleitoral antes do primeiro turno.
O efeito político da sequência de decisões
A sequência pode ser resumida em quatro movimentos.
Primeiro, Lula decidiu não participar do debate e escolheu uma entrevista no Flow.
Segundo, o TSE proibiu a Globo de exibir o púlpito vazio destinado ao presidente e restringiu perguntas direcionadas ao candidato ausente, após pedido de sua coligação.
Terceiro, novas decisões judiciais alteraram a composição prevista para o debate e Flávio Bolsonaro também desistiu. A Globo, diante desse cenário, cancelou o programa.
Quarto, Lula terminou a noite com números de audiência superiores aos de Flávio nas transmissões pela internet, tanto no pico simultâneo quanto nas visualizações acumuladas divulgadas posteriormente.
O conjunto desses fatos permite uma leitura clara: a ausência que poderia representar uma perda de exposição para Lula acabou sendo convertida em uma oportunidade de comunicação direta com o eleitorado digital.
Não há, nas decisões consultadas, comprovação de que o TSE tenha atuado com o objetivo de favorecer o presidente. O que os dados demonstram é que, depois da decisão judicial e do posterior cancelamento do debate, a estratégia escolhida por Lula resultou em uma audiência digital superior à obtida por Flávio Bolsonaro.
Às vésperas do primeiro turno, o episódio representa mais do que uma disputa de audiência. Ele mostra como a combinação entre decisões judiciais, estratégias de campanha e plataformas digitais pode alterar completamente o impacto de um dos momentos mais tradicionais da campanha presidencial.

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