Maricarmen morre aos 87 anos após despejo em Madrid. Seu caso virou símbolo dos protestos contra a crise da moradia e os aluguéis na Espanha.
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| Morte de Maricarmen coloca moradia no centro do debate. Foto: Fernando Sánchez - EUROPA PRESS |
Maricarmen Abascal, de 87 anos, morreu nesta quarta-feira (7), em Madrid, após permanecer internada desde o despejo do imóvel onde havia vivido durante aproximadamente 70 anos. O caso provocou manifestações em diferentes cidades da Espanha e transformou a idosa em símbolo da luta pelo direito à moradia.
O despejo aconteceu em 23 de setembro. Depois de deixar a residência, Maricarmen foi levada de ambulância para um hospital, onde permaneceu internada durante cerca de duas semanas.
As informações disponíveis não permitem afirmar que o despejo tenha sido a causa da morte. A causa médica da morte não havia sido divulgada pelas fontes consultadas.
A confirmação da morte provocou uma nova onda de mobilizações. Na antiga residência, pessoas deixaram flores e velas. Na Puerta del Sol, manifestantes fizeram uma vigília em homenagem à idosa.
O caso de Maricarmen expôs a crise da moradia na Espanha
Maricarmen vivia em um imóvel localizado no distrito de Retiro, em Madrid. O apartamento havia sido adquirido em 2018 pela empresa Urbagestión.
Segundo reportagens sobre o caso, Maricarmen pagava aproximadamente 500 euros por mês pelo imóvel. Depois da mudança de proprietário, foi apresentado um novo valor de aluguel próximo de 2.600 euros mensais.
A diferença colocou a idosa no centro de uma disputa judicial que se prolongou por anos e acabou resultando no despejo.
O caso ganhou repercussão nacional porque envolvia uma mulher idosa, que havia passado grande parte da vida no mesmo endereço, diante de um mercado imobiliário marcado pela alta dos preços e pela dificuldade de acesso a imóveis com aluguel considerado acessível.
O que são os chamados fundos abutres
Durante as manifestações, movimentos sociais passaram a utilizar a expressão “fundos abutres” para se referir a investidores e empresas que compram imóveis e buscam obter retorno financeiro com essas propriedades.
A expressão, porém, exige cuidado jornalístico. No caso específico de Maricarmen, a empresa Urbagestión foi apontada pelos movimentos como parte desse modelo de atuação, mas autoridades espanholas fizeram ressalvas quanto à classificação da empresa como um fundo de investimento tradicional.
A ministra da Habitação da Espanha, Isabel Rodríguez, chegou a afirmar que a empresa não seria, em sentido estrito, um fundo tradicional, embora tenha criticado práticas que considera especulativas.
A discussão, portanto, não se limita ao caso individual de Maricarmen. Ela envolve uma disputa maior sobre o papel de investidores, proprietários, empresas imobiliárias e do próprio Estado no mercado de habitação.
Despejo provocou protestos em várias cidades
A retirada de Maricarmen da residência provocou manifestações em diversas cidades espanholas.
Organizações de inquilinos convocaram protestos em pelo menos 12 municípios, entre eles Madrid, Barcelona, Sevilla, Valencia, Málaga, Palma, Cádiz e Toledo.
Em Madrid, uma das manifestações reuniu milhares de pessoas. Os protestos passaram a incorporar reivindicações relacionadas ao preço dos aluguéis, aos despejos e à ampliação da oferta de moradia acessível.
Em Sevilla, uma mobilização posterior também reuniu mais de mil pessoas, enquanto em Barcelona milhares participaram de atos relacionados à crise habitacional.
O caso de Maricarmen passou, assim, a representar uma discussão muito maior do que o conflito envolvendo apenas um imóvel.
Puerta del Sol virou centro da mobilização
Em Madrid, a Puerta del Sol se transformou em um dos principais pontos da mobilização.
Manifestantes montaram uma acampada para pressionar as autoridades por medidas relacionadas à moradia. Entre as reivindicações estão maior proteção aos inquilinos, redução da pressão dos aluguéis e ampliação da oferta pública.
Depois da morte de Maricarmen, a acampada se transformou em local de homenagem.
Velas foram acesas e manifestantes fizeram um minuto de silêncio. Em seguida, houve uma marcha em direção ao Congresso espanhol.
O movimento afirma que a morte da idosa reforça a necessidade de manter a mobilização.
Maricarmen chegou a ter possibilidade de voltar para casa
Após o despejo, houve uma tentativa de encontrar uma solução para permitir que Maricarmen retornasse ao imóvel.
A Urbagestión apresentou uma proposta para que ela pudesse voltar à residência mediante um aluguel considerado acessível.
Posteriormente, foi firmado um acordo que previa uma renda limitada a 30% dos rendimentos líquidos da idosa durante oito anos.
Maricarmen, porém, morreu antes de conseguir retornar à casa onde havia vivido durante aproximadamente sete décadas.
Preços dos imóveis pressionam famílias espanholas
O caso acontece em meio a uma forte valorização do mercado imobiliário espanhol.
Dados do Instituto Nacional de Estatística da Espanha mostram que os preços das residências subiram 12,2% em um ano no segundo trimestre de 2026.
Entre os imóveis usados, a alta chegou a 12,9%. Já os imóveis novos tiveram aumento de 7,4%.
Os números ajudam a explicar por que o acesso à moradia se tornou uma das principais questões sociais e políticas do país.
O problema não envolve apenas quem enfrenta processos de despejo. Famílias que procuram comprar ou alugar uma residência também enfrentam custos crescentes e oferta limitada em determinadas regiões.
Governo espanhol anuncia medidas para enfrentar a crise
A crise habitacional também entrou na agenda do governo de Pedro Sánchez.
Entre as medidas adotadas estão mecanismos de proteção para determinadas famílias vulneráveis, regras relacionadas aos contratos de aluguel e iniciativas para aumentar a oferta de habitação pública.
O Plano Estatal de Habitação 2026-2030 prevê investimentos de 7 bilhões de euros ao longo de cinco anos.
Os recursos devem financiar iniciativas como construção e aquisição de imóveis, reabilitação de edifícios e proteção de pessoas em situação de vulnerabilidade.
O governo também apresentou medidas direcionadas a determinadas operações imobiliárias envolvendo grandes proprietários e investidores.
A disputa sobre os fundos de investimento
Os chamados fundos “abutres” estão no centro da discussão porque movimentos sociais acusam grandes investidores de contribuir para a pressão sobre os preços dos imóveis.
O governo espanhol também passou a defender restrições a determinadas operações consideradas especulativas.
A oposição, por outro lado, questiona parte das medidas adotadas pelo Executivo e apresenta propostas diferentes para enfrentar o problema.
O debate envolve uma questão central: como ampliar a oferta de moradias sem impedir o funcionamento do mercado imobiliário e, ao mesmo tempo, proteger famílias que não conseguem acompanhar o aumento dos preços.
Crise habitacional vai além de Maricarmen
O caso de Maricarmen se tornou um símbolo, mas a crise da moradia na Espanha é anterior ao episódio.
A combinação entre aumento dos preços dos imóveis, aluguéis elevados, baixa disponibilidade de moradia pública e dificuldades econômicas de parte da população colocou a habitação entre os principais temas da agenda nacional.
Por isso, a morte de Maricarmen provocou uma reação que ultrapassou Madrid.
Para os movimentos de inquilinos, a história representa os riscos enfrentados por pessoas que podem perder suas casas mesmo depois de décadas vivendo no mesmo endereço.
Para o governo, a resposta passa pela ampliação da oferta pública, pela regulação do mercado e por medidas de proteção aos grupos vulneráveis.
Mobilização deve continuar
A morte de Maricarmen não encerrou os protestos.
Movimentos de inquilinos defendem a continuidade das mobilizações e discutem novas ações nacionais contra o aumento dos custos da habitação.
Uma das propostas é uma greve relacionada à crise da moradia em novembro. A realização da mobilização, contudo, depende da confirmação e adesão das centrais sindicais espanholas.
Enquanto isso, a Puerta del Sol permanece como um dos principais símbolos dos protestos.
A morte de Maricarmen transformou uma disputa por um imóvel em uma discussão nacional sobre quem consegue morar nas grandes cidades espanholas e quais limites devem existir para o mercado imobiliário.
O governo espanhol deverá continuar discutindo medidas para ampliar a oferta de moradias e proteger determinados grupos de inquilinos.
Os movimentos sociais, por sua vez, prometem manter a pressão nas ruas.
O caso Maricarmen também deverá continuar sendo utilizado como referência no debate sobre despejos, aluguel e atuação de investidores no mercado imobiliário.
A crise da moradia na Espanha, portanto, permanece aberta e sem uma solução única. A morte da idosa acrescentou uma dimensão humana a uma discussão que envolve milhões de pessoas e coloca em confronto interesses de inquilinos, proprietários, empresas, investidores e autoridades públicas.

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