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O ranking das pesquisas no 1º turno: os institutos que cravaram o resultado e os que ficaram distantes

Vox Brasil apontou empate técnico entre Flávio e Lula no 1º turno, mas resultado foi 47% a 45%. Veja o ranking completo dos institutos: Palver e Gerp acertaram, Datafolha errou.

Pesquisa
Pesquisas eleitorais 2026: quem acertou e quem errou no primeiro turno. Foto: Reprodução/ Sistemas de Pesquisa

O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 no Brasil foi divulgado, e Flávio Bolsonaro (PL) venceu Lula (PT) por uma margem apertada: 47,06% a 45,12%. Esse resultado pegou a maioria dos principais institutos de pesquisa de surpresa. Dos 11 principais institutos, apenas 4 previram a vantagem de Flávio, enquanto os tradicionais, incluindo o Datafolha, erraram para além da margem de erro. Mais do que um problema técnico, o episódio escancarou falhas estruturais na indústria de pesquisas eleitorais brasileira.

Quem chegou mais perto da verdade?

Palver e Gerp foram os únicos "alunos exemplares" desta eleição, com previsões que praticamente acertaram o resultado real.

  • Palver projetou Flávio 47% vs Lula 43% na sua última rodada, um desvio de apenas 0,06 ponto percentual para Flávio, precisão cirúrgica.

  • Gerp apresentou Flávio 46% vs Lula 44%, com desvios de pouco mais de 1 ponto percentual para ambos os candidatos, sendo o único instituto a prever corretamente a vantagem de Flávio dentro da margem de erro.

O desempenho da Veritá também merece destaque. O instituto projetou Flávio com 47% e Lula com 45%, um desvio de apenas 0,03 ponto percentual para Flávio. Em alguns relatos, a Veritá foi citada como a única que "acertou o resultado", mas pelos dados públicos, Palver e Gerp tiveram precisão igual ou superior.

Duas pesquisas-chave: de "Lula à frente" para "Flávio na liderança"

O Vox Brasil divulgou duas rodadas principais antes do primeiro turno. A primeira, em 29 de setembro, mostrava Lula com 41,1% contra 37,8% de Flávio Bolsonaro, um empate técnico dentro da margem de erro de 2,15 pontos. A pesquisa ouviu 2.100 eleitores em entrevistas presenciais.

Três dias depois, em 2 de outubro, a segunda rodada trouxe uma mudança significativa: Flávio Bolsonaro aparecia com 41,2% contra 40,4% de Lula. A diferença de 0,8 ponto percentual ainda configurava empate técnico, mas a direção havia se invertido. O levantamento foi realizado entre 29 de setembro e 1º de outubro, captando as oscilações finais do eleitorado.

Comparação com o resultado real

Segundo os dados finais do TSE, Flávio Bolsonaro obteve 47,06% dos votos válidos, contra 45,12% de Lula. Olhando apenas os números absolutos da última pesquisa, o desvio do Vox Brasil não foi pequeno: subestimou Flávio em cerca de 5,8 pontos percentuais e Lula em aproximadamente 4,7 pontos.

Mas há um contexto fundamental: o Vox Brasil foi um dos poucos institutos a prever corretamente a vantagem de Flávio no primeiro turno. Enquanto a maioria das pesquisas tradicionais, incluindo Datafolha, CNT/MDA e PoderData, ainda apontava Lula na liderança, a última rodada do Vox Brasil já sinalizava a virada. Essa direção correta diferencia o instituto daqueles que erraram completamente o cenário.

Quem ficou para trás?

Em contraste, vários institutos tradicionais apresentaram desvios sistemáticos no primeiro turno, todos na mesma direção: subestimaram Flávio coletivamente, enquanto capturaram razoavelmente bem os votos de Lula.

O Datafolha foi o erro mais gritante. Na véspera da votação, o instituto divulgou Lula 45% vs Flávio 42%, subestimando Flávio em 5,03 pontos percentuais, mais que o dobro da margem de erro de 2 pontos. Em outras palavras, os dados do Datafolha eram estatisticamente "incapazes" de cobrir o resultado real. Ainda assim, sua projeção para Lula (45%) ficou a apenas 0,16 ponto percentual do resultado real (45,12%), o que mostra que o problema não estava na representatividade geral da amostra, mas sim em grupos específicos cuja intenção de voto foi sistematicamente ignorada.

O CNT/MDA foi o instituto com o maior desvio geral. A pesquisa apontou Lula 47,8% vs Flávio 42,1%, subestimando Flávio em 4,93 pontos percentuais e superestimando Lula em 2,64 pontos. Considerando a margem de erro de 2,2 pontos, o CNT/MDA chegou a sugerir a possibilidade de vitória de Lula já no primeiro turno, um sinal que, em retrospecto, mostrou-se gravemente enganoso.

Veja abaixo o grau de desvio dos demais institutos:

InstitutoPrevisão FlávioPrevisão LulaDesvio FlávioDesvio Lula
Datafolha42%45%-5,03 pp+0,16 pp
CNT/MDA42,1%47,8%-4,93 pp+2,64 pp
PoderData43%45%-4,03 pp+0,16 pp
AtlasIntel44,1%47%-2,93 pp+1,84 pp
Quaest45%46%-2,03 pp+0,84 pp

A Quaest foi a que se saiu relativamente melhor entre os "derrotados", com desvio de 2,03 pontos percentuais para Flávio — ligeiramente acima da margem de erro, mas muito melhor que Datafolha ou CNT/MDA.

De onde vêm os erros?

Várias análises apontam para a mesma explicação: o efeito do "voto envergonhado" voltou a atacar. Parte do eleitorado de direita não se sentiu à vontade para declarar sua intenção de voto nas pesquisas, mas compareceu às urnas para apoiar Flávio. O fenômeno não é exclusivo do Brasil, nos Estados Unidos, Trump também superou a maioria das pesquisas em 2024; na Argentina, Milei e forças de direita na Europa apresentaram padrão semelhante.

Outro fator amplamente discutido foi o fluxo de votos dos candidatos menores. No primeiro turno, os votos de Caiado (2,18%) e Renan Santos (2,24%), ambos de direita, migraram para Flávio no dia da votação, formando uma "união da direita" não prevista pelas pesquisas. Institutos têm limitações naturais para captar esse tipo de "migração tática de última hora".

O problema mais profundo está na divergência metodológica. Palver, que chegou perto da verdade, usou amostragem por recrutamento direcionado em redes sociais; Gerp apostou em entrevistas telefônicas. Ambos, de alguma forma, contornaram a barreira da entrevista presencial, em que o eleitor pode não se sentir à vontade para dizer a verdade a um estranho. Já o Datafolha e outros institutos tradicionais ainda dependem majoritariamente de entrevistas face a face, justamente o cenário mais propenso a ativar o "voto envergonhado".

Lições e alertas

O desvio sistemático do primeiro turno nos lembra: pesquisa eleitoral não é ferramenta de previsão, é ferramenta de medição. Quando a própria disposição de um grupo social em se expressar está reprimida, nenhum modelo estatístico sofisticado consegue corrigir a distorção na origem dos dados. Em 2022, as pesquisas já haviam subestimado Jair Bolsonaro em cerca de 4,4 pontos percentuais no primeiro turno; quatro anos depois, o mesmo roteiro se repetiu com outro protagonista.

Para o segundo turno (25 de outubro), a Veritá já divulgou sua projeção: Flávio 51,56% vs Lula 48,44%. Mas, diante do aprendizado do primeiro turno, qualquer vantagem apontada por pesquisas deve ser encarada com cautela, especialmente quando o "lado subestimado" é exatamente o mesmo eleitorado de sempre.

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