Anúncio feito no Congresso da AMUPE contrasta com indicadores de saúde e histórico de ressalvas da gestão Mano Medeiros no Tribunal de Contas.
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| Mano Medeiro e o cheque recebido com o rateio da Compesa. Foto: Millena Reis / Portal Fala News |
A política de Jaboatão dos Guararapes é mestre na arte do simbolismo, e o palco da vez foi o 9º Congresso Pernambucano de Municípios (AMUPE). No dia 27 de Abril, em meio ao evento que reuniu a elite política do estado, o prefeito Mano Medeiros posou para fotos segurando um cheque simbólico da Compesa no valor de R$ 58.707.810,46. A imagem é vendida como a redenção das torneiras secas, mas para o cidadão que vive em Cavaleiro, Jaboatão Centro ou nas comunidades de Prazeres, o papelão do cheque pesa menos que o balde vazio carregado nas costas.
O Abismo entre o Repasse e a Realidade
Embora o cheque ostente a vultosa quantia de quase R$ 59 milhões, a realidade desenhada pelo Instituto Trata Brasil e pelos relatórios do TCE-PE é de uma negligência histórica. Jaboatão figura sistematicamente entre as cidades com piores índices de saneamento básico do país.
O anúncio feito nesta Segunda-feira no congresso da AMUPE levanta uma questão central: onde esse dinheiro será aplicado de fato? A fiscalização do Tribunal de Contas de Pernambuco já acendeu o alerta vermelho sobre a gestão de Mano Medeiros em outros setores — como no caso do sobrepreço de R$ 9,4 milhões em manutenção de ar-condicionados e as falhas graves na bilhetagem eletrônica de R$ 20 milhões. Se a prefeitura demonstra dificuldades técnicas para gerir contratos de manutenção básica, como o povo pode confiar que R$ 58 milhões em obras de infraestrutura invisível (embaixo da terra) não se perderão em aditivos e ineficiências?
Saneamento: O Parente Pobre da Gestão
Atualmente, o município sofre com um déficit de cobertura de esgoto que ultrapassa a marca dos 70% em diversas áreas. Enquanto o prefeito sorri para a foto no congresso, os dados de saúde pública mostram que as doenças de veiculação hídrica continuam superlotando as UPAs da cidade. Gastar milhões em "reparos" e "mutirões" pontuais, como os citados nas auditorias especiais do TCE, é enxugar gelo. Jaboatão não precisa apenas de recursos; precisa de um Plano Municipal de Saneamento que saia do papel e seja auditado rigorosamente, longe dos holofotes dos eventos políticos.
Combate à Ineficiência e Vigilância Necessária
O histórico de "Contas Regulares com Ressalvas" de 2022 e 2023 no TCE-PE prova que a gestão Mano Medeiros caminha no fio da navalha. As ressalvas dos auditores apontam fragilidade no planejamento orçamentário. Esse montante anunciado ontem corre o risco de ser pulverizado se não houver um acompanhamento implacável da sociedade civil.
A doação recebida no 9º Congresso da AMUPE é necessária, mas o entusiasmo deve ser contido e substituído por uma cobrança feroz. Em um ano onde a gestão municipal enfrenta o "pente fino" do Tribunal de Contas por indícios de desperdício e falta de competitividade em licitações, o cidadão jaboatonense deve atuar como auditor. Não podemos aceitar que o brilho do flash em Recife mascare o cheiro do esgoto a céu aberto em Jaboatão. Exigimos que cada centavo desses R$ 58.707.810,46 seja rastreado no Portal da Transparência. Afinal, na atual gestão, o dinheiro tem fluído com muito mais facilidade do que a água nas torneiras do povo.

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