Como a blindagem dos aliados e a condenação dos adversários sepultam a justiça, a piedade e a dignidade humana na vida pública.
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| Deputada Federal Heloísa Helena da Rede/RJ. Foto: Câmara dos Deputados |
A política contemporânea frequentemente se transforma em um teatro de máscaras, onde a virtude é encenada e a integridade é sacrificada no altar do poder. Entre as reflexões mais contundentes sobre essa hipocrisia, destaca-se a expressão da ex-senadora e deputada Heloísa Helena: o "moralismo farisaico" seus discursos tem sido um farol ao povo brasileiro. Essa postura define-se pelo ato de condenar de forma implacável no adversário exatamente aquilo que se absolve, tolera e defende com unhas e dentes no aliado. É a moral de conveniência, a ética elástica que destrói a credibilidade das instituições.
Essa incoerência evoca diretamente a clássica denúncia de Jesus no Evangelho de Mateus (23:27):
"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia."
Na arena pública, o político farisaico apresenta-se com uma fachada impecável, um discurso polido e uma postura de paladino da justiça. No entanto, por trás da pintura fresca desse sepulcro, esconde-se a morte da piedade e o sepultamento da verdadeira justiça. Não há como lutar autenticamente pela vida coletiva quando se carrega a morte interna, ou seja, o apodrecimento dos próprios valores e a falência da honestidade intelectual.
A Subjetividade: O Bom Político Começa na Boa Pessoa
A primeira condição para ser um bom político não reside no domínio da oratória, na estratégia partidária ou na capacidade de articulação; reside, fundamentalmente, na subjetividade de ser uma boa pessoa.
A esfera pública é um reflexo direto do indivíduo. Se a estrutura interna de um líder é corrompida pelo egoísmo, pela vaidade e pela disposição de instrumentalizar o outro, sua atuação política será inevitavelmente nociva. A autêntica liderança exige uma revolução interior prévia. Quem não governa a si mesmo, suas paixões e suas tendências ao autoengano, jamais terá condições de governar ou legislar para o bem comum. A política sem base moral humanista torna-se apenas uma técnica de dominação.
A Amizade e a Dignidade na Política: O Paralelo Clássico
Para compreender a degeneração das relações no poder, é preciso resgatar a filosofia clássica e a própria história dos homens que a construíram. No diálogo Fédon, escrito por Platão, discutem-se a imortalidade da alma e a purificação das virtudes. O que muitos esquecem é a trajetória real do homem que dá nome à obra: Fédon de Élis.
Nascido nobre, Fédon foi capturado como prisioneiro de guerra, trazido a Atenas e vendido como escravo para um bordel. Apesar da profunda degradação física e social imposta a ele, sua subjetividade permaneceu voltada para o bem e para o conhecimento. Ao encontrá-lo, o filósofo Sócrates enxergou sua grandeza interior e mobilizou seus amigos para pagarem o resgate de Fédon, libertando-o da escravidão. Fédon tornou-se um dos discípulos mais brilhantes de Sócrates e testemunha ocular de seus últimos momentos, ocorridos na cela onde o mestre foi sacrificado pela verdade.
A história de Fédon cria um paralelo perfeito que esmaga o moralismo farisaico:
A Verdadeira Liberdade vs. A Aparência: O fariseu da política é livre por fora, pois ostenta cargos, palanques e poder, mas é um escravo acorrentado às suas próprias mentiras e conveniências partidárias. Fédon, mesmo sendo escravo por fora, possuía uma alma e uma essência inteiramente livres e dedicadas à justiça.
A Incoerência dos Juízes: Quem condenou Sócrates à morte e manteve jovens como Fédon na servidão foram os orgulhosos governantes de Atenas. Eram os sepulcros caiados da época: cidadãos que discursavam sobre democracia e moralidade nas praças, mas sustentavam a podridão da opressão nos bastidores.
Essa aliança nobre para salvar Fédon exemplifica o que o filósofo romano Cícero defenderia séculos mais tarde em sua obra De Amicitia (Sobre a Amizade). Cícero estabelece um decreto categórico: a verdadeira amizade só existe entre os bons, e seu primeiro mandamento é nunca pedir nada de vergonhoso aos amigos, nem fazê-lo se for pedido.
Na política moderna, o conceito de amizade foi corrompido e transformado em cumplicidade. O aliado passou a ser aquele que esconde o erro do outro, que silencia diante da corrupção e relativiza o desvio ético. Cícero e a história de Fédon nos ensinam que a lealdade a um aliado nunca pode superar a fidelidade à verdade. Blindar o erro de um aliado não é um ato de amizade; é cumplicidade na hipocrisia farisaica.
O Preço da Verdade e o Custo da Mentira
Diante desse cenário, resta uma provocação central sobre a nossa própria responsabilidade e a dos agentes públicos: qual é o preço que estamos dispostos a pagar na política?
Sustentar mentiras e blindar aliados de forma farisaica exige um custo altíssimo e contínuo. Exige a manutenção de narrativas falsas, o assassinato de reputações alheias, o malabarismo retórico e, em última instância, o sacrifício da própria paz de espírito. A mentira política consome os recursos morais de uma nação e apodrece a estrutura interna do governante.
Por outro lado, defender verdades também cobra o seu preço, que muitas vezes é o mesmo preço pago por Sócrates. O custo da verdade na política costuma ser o isolamento, a incompreensão, os ataques dos antigos aliados e a perda de privilégios ou de cargos. No entanto, o preço pago pela verdade confere ao indivíduo a única coisa que o moralismo farisaico jamais poderá comprar: a dignidade de não ser um sepulcro caiado, mantendo-se vivo por fora e, acima de tudo, limpo, justo e íntegro por dentro.

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