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​Quem foi Amanda Xukuru guerreira indígena que se encantou

Amanda Xukuru do Ororubá encerra sua jornada física e se encanta em Pesqueira ​"Ela se encantou rindo": a lição de vida de Amanda Xukuru

Amanda Xukuru no lugar onde ela mais gostava de estar na mata.
Amanda Leite, conhecida como Amanda Xukuru do Ororubá,  viveu uma vida de serviço as lutas de seu povo.

O território Xukuru do Ororubá, localizado nas serras de Pesqueira, no Agreste de Pernambuco, está em silêncio. Na última terça-feira, dia 30 de junho, por volta das 15h40, o povo indígena e os movimentos sociais do estado se despediram de uma de suas vozes mais vibrantes e promissoras. A jovem ativista Amanda Xukuru, reconhecida nacionalmente por sua atuação na defesa dos direitos dos povos originários, da agroecologia e das juventudes, encerrou sua jornada terrena aos 31 anos. Conforme a cosmovisão de seu povo, Amanda não faleceu: ela se encantou, transformando-se em força espiritual para proteger a mata e os seus.

​Sua partida ocorre após uma batalha de sete anos contra o câncer. Mesmo diante de internações prolongadas e do tratamento severo, a jovem nunca se distanciou da causa que abraçou desde a infância. Amanda cruzou fronteiras estaduais, participou de conferências nacionais, ecoou os cânticos sagrados de seu povo e levou o artesanato feito por suas próprias mãos como símbolo de resistência econômica e cultural.


​O olhar de quem dividiu o leito e testemunhou a força de Amanda


​Antes de trazer as vozes de sua família, peço licença ao leitor para registrar minhas próprias memórias sobre Amanda. Há pouco mais de um ano, em março de 2025, nossos caminhos se cruzaram de forma dolorosa, mas profundamente transformadora. Minha tia, Cemir, cuja partida completa exatamente um ano, estava internada no Hospital Oswaldo Cruz, no Recife, tratando um câncer. Dividimos o mesmo quarto com Amanda. Ali, durante uma semana intensiva de convivência, pude testemunhar o que a medicina não consegue explicar em prontuários.

​Tivemos muitas conversas profundas naquele quarto. Amanda me falava de seus sonhos mágicos e contava que neles conseguia ver a terra de fora, em uma perspectiva cósmica e tocante. Como uma boa pisciana, sua intuição e espiritualidade eram extremamente aguçadas. Ela possuía a capacidade de perceber exatamente o que as pessoas escondiam e decifrava com facilidade o estado de espírito de quem estava ao seu redor. Quando notava o meu próprio desânimo ou cansaço, ela me provocava de forma carinhosa, dizendo que eu também precisava cuidar de mim. Suas análises psicológicas eram profundas e ela sempre vinha ao meu encontro com palavras certeiras.

​O respeito e o carinho com que Amanda tratava a equipe médica e de enfermagem também eram tocantes. Muitas vezes, os profissionais de saúde entravam no quarto apreensivos pelos procedimentos complexos que precisavam realizar. No entanto, saíam da presença dela leves, arrancando risos diante das brincadeiras que a jovem fazia. Amanda gravava vídeos, criava apelidos carinhosos para cada um e demonstrava uma consciência profunda sobre a necessidade de valorização daquela classe profissional.

​A cumplicidade entre ela e sua irmã mais nova, Larissa Xukuru, marcou-me de forma definitiva. Amanda sabia o impacto emocional que sua condição causava na família e, por isso, protegia a todos com uma educação e gentileza extremas. Era comum vê-las fazendo vídeos, assistindo séries juntas. Contando piadas, conversando com as enfermeiras assuntos triviais. Sua irmã neste período estava concluindo sua graduação de Letras e Espanhol, realizava seus estudos ao lado de sua irmã conciliava os deveres da faculdade e os cuidados com Amanda.

Tudo isso me fazia refletir os desafios de quem presentia que estava vivendo uma despedida. E que deveria apesar de suas limitações esforçar-se para estar 100% presente dando o melhor de si.



Lembro-me, com precisão, de um dos momentos mais difíceis daquela semana. Amanda havia descido para exames. No quarto, um psicólogo do hospital, altamente preparado, conversou de forma franca com a mãe dela sobre a gravidade real do quadro. Quando o profissional saiu, aproximei-me de Dona Betinha e a abracei. Muito emocionada, ela me disse uma frase que ecoa até hoje: "Preciso deixar ela ir". Contudo, a espiritualidade presenteou a família com mais um ano de vida, período em que Amanda apresentou uma melhora surpreendente e pôde continuar sua missão.

​"Uma guerreira que doou a vida ao próximo": a voz da mãe, Betinha Xukuru

Santuário Nossa Senhora das Graças.
Amanda e seus pais subiram mais de 200 degraus no Santuário de Nossa Senhora das Graças ( reverenciada como Mãe Tamain na cultura Xukuru Ororubá) para agradecer a melhora. Foto: Larissa Xukuru 

​Para compreender a dimensão histórica da trajetória da jovem, conversamos com sua mãe, a professora Elisabeth Leite, amplamente conhecida na região como Betinha Xukuru. Com uma serenidade que impressiona, Betinha relata o orgulho da trajetória da filha e a firmeza de seus posicionamentos.

​"Amanda foi uma militante das causas sociais, uma guerreira Xukuru do Ororubá que doou toda sua vida em prol da luta. Mesmo sendo muito jovem, ela dedicou o seu tempo à valorização da identidade étnica. Amanda artesã, uma menina muito firme na sua postura em defesa do território, em defesa das causas das diferenças sociais, uma menina humilde, uma guerreira exemplar", declara a mãe.

​Betinha ressalta que o compromisso de Amanda ultrapassava as fronteiras da Aldeia. A jovem era peça atuante no Fórum de Juventudes de Pernambuco (Fojupe), espaço onde articulava políticas públicas para as novas gerações do estado.

​"Não porque eu sou a mãe, mas é uma pessoa que dedicou sua vida ao próximo, ao bem comum. Então, Amanda tem um legado de história, de lutas sociais. Ela também católica, uma mulher que acreditava muito na espiritualidade, artesã, fez curso de agroecologia em defesa da natureza. A vida de Amanda foi voltada à espiritualidade e à natureza", complementa.

​O acolhimento no hospital e a passagem com dignidade

O sorriso de Amanda diante de tudo que passava.
O último gesto de Amanda ao se despedir foi sorrir. Nos lembraremos deste sorriso que foi poesia e resistência. Foto: Elizabeth Leite ( Betinha Xukuru )


​A rotina de cuidados intensivos exigiu muito da família e das estruturas de apoio. Nos últimos dois anos, a enfermidade agravou-se consideravelmente. A jovem enfrentou um mês de internação na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e períodos que totalizaram quase quatro meses ininterruptos em ambiente hospitalar.

​Nesse processo, a atuação da saúde indígena foi fundamental. A família faz questão de registrar o suporte oferecido pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) e pela Secretaria de Saúde Indígena (SESAI). "A vida de Amanda foi mais nos hospitais, no Hospital Oswaldo Cruz do que em casa, mas ela teve toda assistência necessária da saúde indígena da SESAI, do nosso povo. Foi muito bem acolhida por onde passou", destaca Betinha.

​O desfecho de sua jornada terrena ocorreu na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Pesqueira, cercada por quem mais a amava.

​"Amanda se encanta na UPA de Pesqueira ao lado da família, com cantos e orações feitas pela mãe. E Amanda se despede, se encanta com um sorriso. É isso que eu mãe, o pai, as irmãs que estavam presentes e a tia sabemos: que Amanda fez uma passagem com dignidade e suavidade. É isso que eu te digo no dia de hoje", relata emocionada.

​"Mesmo na dor, ela sorria": a cumplicidade de uma irmã

A amizade entre elas era profunda.
Larissa Xucuru irmã de Amanda Xukuru,  amizade, devoção e cumplicidade, entre lágrimas e sorrisos. Foto: Instagram de Amanda Leite

​A rotina de acompanhamento hospitalar foi dividida em um sistema de revezamento contínuo entre a mãe e as irmãs de Amanda. Larissa Xukuru, a irmã mais nova que esteve ao lado da guerreira durante os meses mais severos do tratamento, recorda a postura resiliente da ativista.

​"Amanda descansa, Amanda está feliz. Amanda foi sempre feliz, mesmo na dor. Amanda sorria!", afirma Larissa, sintetizando a atmosfera de leveza que a jovem conseguia manter mesmo sob forte desgaste físico.

​O ritual do plantio na Aldeia Pedra d'Água

Amanda foi plantada na floresta, em meio a celebração e cânticos de seu povo. Vídeo cedido por sua mãe Betinha Xukuru.

​Uma das particularidades da cultura Xukuru do Ororubá diz respeito ao ritual de despedida de seus membros. Em vez de utilizar o termo tradicional "enterrar", o povo refere-se ao ato como "plantar". Questionada sobre o critério para esse ritual, a professora Betinha Xukuru explicou a tradição que envolve a Aldeia Pedra d'Água, uma área de floresta sagrada em Pesqueira.

​"Qualquer pessoa que tenha doado a vida à luta e que, em vida, pede para ser plantada ou plantado lá... Ou a família decide de acordo com sua dedicação à luta. São todos aqueles que desejam ser plantados lá", esclarece.

​Ao ser plantada na Aldeia Pedra d'Água, Amanda cumpre o ciclo da tradição de seu povo. Ela deixa de habitar o plano físico para se transformar em semente nativa, fortalecendo a ancestralidade e a terra pela qual tanto lutou.

​ Legado de uma guerreira que nos ensinou a lutar sorrindo. Até sempre!

Vídeo da Articulação Nacional de Agroecologia- ANA

​A história de Amanda Xukuru do Ororubá permanece viva nas ações do Fórum de Juventudes de Pernambuco, no artesanato que distribuiu pelo país e na memória dos profissionais de saúde que humanizou com seus sorrisos. Sua trajetória demonstra a força da juventude indígena do Nordeste e a capacidade de aliar a militância política à preservação da espiritualidade e da natureza. O Portal Fala News manifesta profundo respeito e solidariedade aos familiares, amigos e a todo o povo Xukuru neste momento de encantamento.



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