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O verdadeiro interesse dos Bolsonaro e os Estados Unidos não é combater o crime organizado no Brasil

Soberania nacional, interesses geopolíticos e os impactos da decisão dos EUA sobre facções criminosas brasileiras.

Trump e Flávio Bolsonaro
Eduardo e Flávio Bolsonaro durante visita a Trump na Casa Branca. Foto: Divulgação

A recente decisão dos Estados Unidos de classificar as facções PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas provocou reações diversas no Brasil. Para alguns, trata-se apenas de mais uma medida de combate ao crime organizado. Para outros, porém, o episódio revela algo maior: uma possível ampliação da influência norte-americana sobre assuntos internos brasileiros.

Não se trata de defender facções criminosas. O PCC e o Comando Vermelho representam ameaças reais à segurança pública e devem ser combatidos com rigor pelas instituições brasileiras. A questão central é outra: até que ponto uma potência estrangeira pode utilizar seus próprios instrumentos jurídicos para justificar maior intervenção em temas que dizem respeito à soberania de outro país?

A história da América Latina recomenda cautela. Ao longo do século XX e início do século XXI, os Estados Unidos exerceram forte influência política, econômica e estratégica em diversos países da região. Em muitos momentos, essa atuação foi justificada por discursos relacionados ao combate ao comunismo, ao narcotráfico ou ao terrorismo. O resultado, nem sempre, significou mais democracia ou mais desenvolvimento para os povos latino-americanos.

O Brasil de hoje ocupa uma posição estratégica no cenário mundial. Somos uma potência agrícola, energética e ambiental. Possuímos enormes reservas de petróleo, especialmente no pré-sal. Temos uma das maiores biodiversidades do planeta. Além disso, dispomos de minerais considerados fundamentais para a indústria de alta tecnologia, para a transição energética e para setores ligados à defesa e à produção de equipamentos avançados.

Não é exagero afirmar que os recursos brasileiros despertam interesse internacional. A disputa global por minerais estratégicos cresce a cada ano, impulsionada pela corrida tecnológica entre grandes potências. Nesse contexto, é natural que muitos brasileiros observem com preocupação qualquer movimento que possa ampliar a influência externa sobre decisões nacionais.

Outro elemento que merece reflexão é o sucesso do PIX. O sistema brasileiro revolucionou os meios de pagamento e tornou-se referência mundial. Milhões de brasileiros passaram a realizar transferências instantâneas sem custos elevados e sem depender dos modelos tradicionais de pagamento eletrônico.

Embora não existam provas de uma articulação para enfraquecer o PIX, é inegável que o sistema alterou significativamente a dinâmica do mercado financeiro e reduziu a dependência de mecanismos historicamente dominados por grandes empresas americanas do setor de pagamentos como Visa, e Master. O sucesso brasileiro nesse campo demonstra que inovação tecnológica também pode nascer fora dos grandes centros econômicos globais.

Há ainda uma preocupação legítima com o processo democrático brasileiro. Em um mundo cada vez mais conectado, influências externas podem ocorrer por diversos meios: redes sociais, plataformas digitais, pressões econômicas, campanhas de comunicação e articulações políticas internacionais. Independentemente da posição ideológica de cada cidadão, a defesa da soberania exige que o destino do Brasil seja decidido pelos brasileiros e dentro das instituições nacionais.

Histórico de interferências dos EUA no Mundo e seus resultados

A preocupação com a soberania nacional não surge do nada. Ela é alimentada pela própria história. Ao longo das últimas décadas, os Estados Unidos realizaram ou apoiaram intervenções diretas e indiretas em diferentes partes do mundo, muitas delas justificadas em nome da segurança nacional, da democracia, do combate ao terrorismo ou da guerra às drogas.

No Iraque, a invasão de 2003 foi baseada na alegação de que o país possuía armas de destruição em massa. Posteriormente, tais armas nunca foram encontradas. O conflito deixou centenas de milhares de mortos, milhões de deslocados e contribuiu para anos de instabilidade política e social na região.

No Afeganistão, após duas décadas de presença militar norte-americana, a retirada das tropas em 2021 foi seguida pelo retorno do Talibã ao poder, levantando questionamentos sobre os resultados concretos da intervenção mais longa da história dos Estados Unidos.

Na Líbia, a intervenção militar liderada pela OTAN em 2011 contribuiu para a queda do regime de Muammar Gaddafi. Entretanto, o país mergulhou em um cenário de fragmentação política, conflitos internos e crises humanitárias que persistem até hoje.

Na América Latina, há registros históricos de apoio norte-americano a golpes de Estado e intervenções políticas em países como Chile, Guatemala e Nicarágua durante a Guerra Fria. Esses episódios continuam sendo debatidos por historiadores e especialistas como exemplos de interferência externa em processos políticos soberanos.

Mais recentemente, críticas também surgiram em relação às ações norte-americanas no Oriente Médio e em países produtores de petróleo, onde muitos analistas apontam que interesses geopolíticos e econômicos frequentemente caminham lado a lado com os argumentos de segurança nacional.

É justamente por esse histórico que qualquer ampliação do poder de atuação internacional dos Estados Unidos desperta preocupações legítimas em diversos países. O Brasil, por sua dimensão territorial, importância econômica e riqueza em recursos estratégicos, tem o dever de acompanhar esses movimentos com atenção, prudência e compromisso com sua soberania.

Nesse debate, também chama atenção a atuação de lideranças políticas brasileiras que buscam apoio ou respaldo em governos estrangeiros para disputas internas. Quando atores políticos como Eduardo e Flávio Bolsonaro, recorrem a potências internacionais para fortalecer suas posições domésticas, abre-se espaço para questionamentos sobre os limites entre cooperação internacional e interferência em assuntos nacionais. Se esse fosse o objetivo, o pai deles, o ex-presidente Jair Bolsonaro teria feito em seus quatro anos de mandato, e não fez.

O combate ao crime organizado é uma necessidade urgente. A cooperação entre países é importante e desejável. Contudo, essa cooperação deve ocorrer com respeito à Constituição brasileira, às instituições nacionais e à autonomia do Estado brasileiro.

O Brasil não precisa escolher entre combater o crime e defender sua soberania. É possível fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Fortalecer a Polícia Federal, os Ministérios Públicos, o Poder Judiciário, os órgãos de inteligência e as forças de segurança é o caminho mais seguro para enfrentar organizações criminosas sem abrir mão da independência nacional.

Mais do que nunca, o país precisa acompanhar atentamente os movimentos do cenário internacional. Em um mundo marcado por disputas geopolíticas, interesses econômicos e competição por recursos estratégicos, a soberania não pode ser tratada como um detalhe.

Defender a soberania nacional não é um ato de esquerda nem de direita. É um compromisso com o Brasil.

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