Eleição no Peru: Roberto Sánchez assume liderança guiado pelo voto rural e acirra disputa com o fujimorismo
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LIMA — O cenário político peruano repete um roteiro de extrema polarização e suspense que se tornou frequente na história recente do país. Com 94,55% das atas processadas pelo Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), o candidato de esquerda Roberto Sánchez, de 57 anos, assumiu a liderança na contagem oficial da eleição no Peru. O psicólogo e atual congressista acumula 50,06% dos votos válidos, o que representa uma vantagem estreita de aproximadamente 21 mil votos sobre a candidata de direita Keiko Fujimori, líder do partido Força Popular, que registra 49,94%.
Anteriormente, os primeiros relatórios parciais baseados nos dados da capital, Lima, indicavam uma liderança confortável para o fujimorismo. Contudo, o avanço da apuração modificou a balança política à medida que as cédulas das províncias mais distantes e das áreas agrícolas começaram a ingressar no sistema centralizado. Este fenômeno expõe, mais uma vez, a profunda fratura geográfica e social que caracteriza o eleitorado peruano.
O peso do campo e a representação camponesa
Historicamente marginalizadas pelas decisões macroeconômicas concentradas na capital, as populações do interior andino e das zonas rurais desempenharam um papel decisivo no reposicionamento de Roberto Sánchez. Líder da coalizão Juntos por el Perú, Sánchez baseou grande parte de sua estratégia de campanha na promessa de descentralização e no fortalecimento das economias agrícolas locais através de cooperativas.
Muitos analistas de Lima apontam que o crescimento de Sánchez se assemelha à ascensão de Pedro Castillo em 2021. Durante o processo eleitoral, Sánchez utilizou o chapéu de abas largas típico do norte do país, um símbolo diretamente associado a Castillo, e defendeu abertamente a libertação do ex-mandatário, alegando que sua destituição pelo Congresso em 2022 configurou uma injustiça institutional promovida pelas elites tradicionais.
Por outro lado, setores conservadores interpretam esse alinhamento como um risco à estabilidade democrática, lembrando que Castillo foi destituído após tentar dissolver o parlamento de forma inconstitucional. Todavia, para o eleitorado camponês e indígena, o voto em Sánchez representa um protesto contra o que consideram uma obstrução sistemática perpetrada pelo Congresso controlado pelas forças tradicionais da direita.
Respeito às regras e o voto no exterior
Diante da margem estreita e do clima de incerteza, Keiko Fujimori veio a público pedir "paciência e muita serenidade" aos seus apoiadores. Disputando o segundo turno presidencial pela quarta vez em sua carreira, a candidata reafirmou o compromisso de respeitar o resultado oficial das urnas, sejam quais forem. Trata-se de uma postura distinta da adotada em 2021, quando a líder direitista contestou o resultado alegando irregularidades na contagem.
Até o momento, observadores internacionais e missões de monitoramento do governo informaram que não foram encontradas evidências de fraudes estruturais nas seções eleitorais. A grande expectativa dos comitês partidários agora se volta para o início da contagem dos votos emitidos por peruanos que residem no exterior. Essa fatia do eleitorado, concentrada em países da Europa e da América do Norte, tem demonstrado uma tendência histórica de voto favorável a propostas conservadoras e pode alterar o resultado final.
Desafios econômicos e a busca por estabilidade
Quem quer que vença o pleito assumirá o comando de uma nação exausta por sucessivas crises institucionais. O Peru teve nove presidentes no intervalo de apenas dez anos, um reflexo do mecanismo de "vacância presidencial" frequentemente acionado pelo parlamento.
Com o intuito de acalmar os mercados financeiros e os investidores internacionais, Roberto Sánchez escalou o economista moderado Pedro Francke como seu principal conselheiro econômico. Francke, que possui passagens pelo Banco Mundial, assegurou publicamente que um eventual governo de Sánchez não efetuará estatizações compulsórias e respeitará de forma integral a autonomia do Banco Central de Reserva do Peru. Essa garantia busca dissipar temores de uma guinada radical à esquerda, contrapondo-se ao plano original do partido.
Do lado oposto, a plataforma de Keiko Fujimori defende a manutenção da atual Constituição de 1993, promulgada durante o regime de seu pai, Alberto Fujimori. Sua campanha centrou-se no combate à criminalidade urbana e no incentivo ao livre mercado como as únicas vias capazes de reaquecer os índices de emprego e renda no país.
Próximos passos da contagem
Em suma, a eleição no Peru caminha para uma definição voto a voto que testará a resiliência das instituições democráticas do país. A vitória momentânea da esquerda nos números parciais reflete o descontentamento e o protagonismo das comunidades rurais contra o centralismo político. No entanto, o desfecho oficial ainda depende da validação de atas impugnadas e do cômputo internacional, processos que a ONPE estima concluir de forma definitiva apenas nas próximas semanas. O vencedor governará o país no período de 2026 a 2031.

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