Morte de Indio Solari: a despedida histórica e o impacto político do ícone do rock argentino

Argentina chora a perda de seu grande ícone  do Rock.
Indio Solari grande ícone do Rock argentino. Foto: Instagram oficial (@indiosolarioficial)

​A Argentina vive dias de profunda comoção popular. A morte de Indio Solari, um dos maiores e mais influentes nomes da história do rock sul-americano, paralisou o país e reabriu debates profundos que misturam arte, fervor popular e disputas partidárias. Carlos Alberto Solari, carinhosamente conhecido por multidões como "El Indio", faleceu aos 77 anos em sua residência em Parque Leloir. O músico, que convivia com o diagnóstico de Parkinson há anos, sofreu um acidente cerebrovascular (ACV) enquanto estava em sua piscina interior climatizada, conforme apontaram os laudos da autopsia.

​O falecimento do ex-líder da lendária banda Patricio Rey y sus Redonditos de Ricota transformou as ruas da província de Buenos Aires em um cenário de peregrinação em massa. No entanto, o luto nacional rapidamente esbarrou na complexa e polarizada política local.

​O fenômeno das filas quilométricas e a "última missa ricotera"

​O anúncio do falecimento desencadeou manifestações espontâneas imediatas. Milhares de fãs tomaram a mítica Plaza de Mayo com bandeiras, bumbos e sinalizadores, entoando clássicos do repertório do cantor. Em um momento de catarse coletiva, o centro de Buenos Aires estremeceu com o tradicional pogo (a famosa roda de dança do rock) ao som do clássico "Ji ji ji".

​A pedido da família, o velório público foi agendado para o domingo, permitindo que admiradores das províncias mais distantes pudessem viajar para a despedida. O local escolhido foi o Microestádio José María Gatica, localizado no Parque Los Derechos del Trabalhador, em Villa Domínico, no município de Avellaneda.

​Desde as primeiras horas da madrugada, uma fila monumental se formou ao longo da Avenida Bartolomé Mitre. De acordo com estimativas do Ministério de Segurança da Província de Buenos Aires, a fila de pedestres superou os 6 quilômetros de extensão, alcançando as imediações da Ponte Pueyrredón. Mais de 200 mil pessoas já haviam passado pela capela ardente até o início da noite. A organização estima 15 mil pessoas por hora passando em fila, um milhão de pessoas nas ruas para a despedida. O clima geral foi marcado por uma mistura de desespero e forte gratidão, com fãs arremessando flores, camisas e cartas sobre o caixão do ídolo.

​O enterro do cantor está programado para ocorrer no Cemitério Municipal de Avellaneda. O local carrega um simbolismo especial para o rock argentino, pois fica muito próximo de onde descansam os restos de Luca Prodan, o lendário ex-líder da banda Sumo.

​A recusa da Casa Rosada e o embate político 

​A dimensão do funeral acabou provocando uma intensa queda de braço nos bastidores institucionais. Logo após a confirmação da morte de Solari, congressistas da oposição, ligados ao bloco Unión por la Patria, solicitaram formalmente que o velório fosse realizado nas dependências do Congresso Nacional ou na Casa Rosada, sede do governo federal argentino. Locais históricos que, no passado, abrigaram as despedidas de figuras como Eva Perón, Juan Domingo Perón e a cantora Mercedes Sosa.

​Contudo, o governo nacional, sob a gestão do presidente Javier Milei, descartou a possibilidade. O presidente da Câmara dos Deputados, Martín Menem, manifestou-se publicamente explicando que o Palácio Legislativo não reunia as condições de infraestrutura, logística e segurança necessárias para conter um evento daquela magnitude. Como alternativa, o governo federal declarou ter oferecido o complexo de Tecnópolis, em Villa Martelli, proposta que não avançou com os familiares.

​A decisão oficial gerou críticas severas de setores da oposição e de movimentos sociais. Organizações históricas, como as Madres e Abuelas de Plaza de Mayo, compareceram ao velório em Avellaneda e couberam o caixão do músico com seus tradicionais lenços brancos, transformando o ato em um protesto silencioso contra a postura da Casa Rosada. Por outro lado, alas mais conservadoras e biógrafos ligados ao atual mandatário criticaram a "devoção cega" ao redor do artista, rotulando-o como um empresário que capitalizava em cima das massas.

​O posicionamento ideológico e o alinhamento com o kirchnerismo

                                Canção Ji Ji Ji

​A resistência em torno de uma homenagem oficial de Estado ganha nexo ao analisar o histórico político do cantor. Indio Solari nunca escondeu suas convicções ideológicas e era assumidamente um "artista peronista". Durante os anos de governo de Néstor Kirchner e Cristina Fernández de Kirchner, Solari tornou-se uma voz influente de apoio ao projeto kirchnerista, defendendo publicamente políticas de redistribuição de renda e inclusão social.

​Além do alinhamento partidário, o músico engajou-se ativamente em causas de direitos humanos. Ele participou de iniciativas para a preservação da memória das vítimas da última ditadura militar argentina e apoiou causas ambientais, como as manifestações contra as alterações na Lei de Glaciares. Para seus apoiadores, sua postura representava a defense da dignidade dos setores mais vulneráveis; para seus detratores, sua visão política dividia o país.

​O resgate histórico: o início underground dos Redonditos de Ricota

        Canção "Encuentro con un Ángel Amateur"

​Para compreender a comoção causada pela morte de Indio Solari, é fundamental resgatar as raízes de sua trajetória artística. Nascido em Paraná, Entre Ríos, e criado em La Plata, Solari fundou em 1976, ao lado do guitarrista Skay Beilinson e do baixista Semilla Bucciarelli, o grupo Patricio Rey y sus Redonditos de Ricota.

​A banda nasceu no circuito estritamente underground, desafiando a censura e o clima de opressão do regime militar. Suas primeiras apresentações misturavam música, teatro alternativo e distribuição de buñuelos de ricota para o público, o que originou o nome peculiar do grupo. Com uma postura totalmente independente, os Redondos rejeitavam contratos com grandes gravadoras e não faziam publicidade tradicional em canais de televisão. Toda a divulgação funcionava na base do "boca a boca".

​A poética enigmática de Solari, carregada de metáforas sobre o controle social, as drogas e a alienação urbana, transformou-se no evangelho de uma juventude que buscava liberdade. Frases emblemáticas em espanhol, como "Violencia es mentir" (da canção Nuestro amo juega al esclavo) ou "Vivir solo cuesta vida" (de Ropa sucia), viraram pichações nos muros das cidades e lemas de vida para milhões de argentinos.

​Após o término da banda em 2001, em meio a divergências internas, Solari seguiu uma carreira solo estrondosa com o grupo Los Fundamentalistas del Aire Acondicionado. Seus shows individuais viraram verdadeiras romarias, batizadas de "missas ricoteras", onde ele quebrava recordes sucessivos de público, reunindo mais de 300 mil pessoas em pequenas cidades do interior argentino, como Olavarría e Tandil.

​Um legado imensurável na cultura popular

​Pouco antes de sua partida, a Universidade de Buenos Aires (UBA) concedeu a Solari o título de Doutor Honoris Causa. Em sua última mensagem pública, gravada em áudio para a instituição, o artista afirmou: "Habla Indio. Quería agradecerles tanto al rectorado como a todos aqueles que han tenido que ver e impulsar esta distinción, que a mí me pone muy feliz. Les mando un gran abrazo y muchas gracias".

​Indio Solari deixa um vazio imensurável na identidade cultural da Argentina. Ele conseguiu a proeza rara de se transformar em um mito vivo e, agora, sua voz e sua poesia cifrada entram em definitivo para o panteão dos imortais da música latino-americana. Nos solidarizamos com los hermanos argentinos pela perda deste grande artista e ser humano! ¡Hasta Siempre Indio! Indio Solari presente! ¡Gracias por tanto!