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Checagem do debate da Band revela erros e distorções nas falas de Lula e Flávio Bolsonaro

Afirmações sobre viagens presidenciais, inflação, crescimento econômico, Bolsa Família e investigações de corrupção foram questionadas por checadores; veja o que é verdadeiro, falso ou precisa de contexto.

Lula e Flávio
Lula e Flávio Bolsonaro no debate da Band. Foto: Nelson Almeida / AFP

O primeiro debate do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, realizado pela TV Band no domingo (18), foi marcado por acusações de corrupção, confrontos pessoais e disputas sobre a economia e a segurança pública. Na manhã desta segunda-feira (19), verificações publicadas pela Folha de S.Paulo e pelo UOL Confere apontaram informações falsas, exageradas e imprecisas nas declarações dos dois candidatos.

Entre os principais casos estão a acusação de que Lula teria gastado R$ 7 bilhões em viagens com a primeira-dama, Janja, a afirmação de que a economia brasileira só voltou a crescer acima de 3% no atual governo e as divergências sobre a inflação dos alimentos.

A checagem também identificou distorções nas falas de Flávio Bolsonaro sobre o Bolsa Família, as negociações com os Estados Unidos e as investigações envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

A seguir, o Fala News apresenta cinco declarações de cada candidato e explica o que os dados disponíveis permitem concluir.

Flávio Bolsonaro: cinco falas checadas

1. “R$ 7 bilhões” gastos por Lula e Janja em viagens

Veredito: FALSO.

Durante o debate, Flávio Bolsonaro afirmou que Lula teria gasto R$ 7 bilhões em viagens com Janja. A cifra, porém, não corresponde às despesas pessoais do presidente e da primeira-dama.

Segundo a checagem da Folha e do UOL Confere, o valor divulgado em publicações críticas ao governo se refere a gastos com viagens de diferentes órgãos da administração federal ao longo do mandato. As despesas incluem deslocamentos de servidores e outras atividades institucionais.

Somente os gastos da Presidência incluem passagens e diárias de seguranças, assessores e outros funcionários. Portanto, atribuir todo esse montante às viagens de Lula e Janja distorce a informação original.

A crítica aos custos das viagens presidenciais pode ser debatida com base em despesas documentadas, mas o número apresentado por Flávio não comprova o que ele afirmou.

2. O governo Lula não enviou representantes para negociar o tarifaço dos Estados Unidos

Veredito: FALSO.

Flávio afirmou que viajou aos Estados Unidos para defender empresas brasileiras das tarifas comerciais e que o governo federal não enviou ninguém para fazer o mesmo.

A declaração contradiz informações levantadas pelo Itamaraty. Segundo o UOL Confere, o governo brasileiro realizou pelo menos 30 reuniões para negociar as tarifas impostas pelos Estados Unidos. O levantamento inclui encontros presenciais, videoconferências e contatos telefônicos.

Lula também se reuniu com Donald Trump na Casa Branca para tratar do assunto, antes da viagem de Flávio ao território norte-americano.

É legítimo discutir se a estratégia diplomática brasileira foi suficiente ou eficaz. Entretanto, afirmar que o governo não enviou representantes ou não negociou o tema é incompatível com os registros citados na checagem.

3. Bolsonaro triplicou o valor do Bolsa Família e garantiu o pagamento de R$ 600

Veredito: ENGANOSO.

Flávio atribuiu ao governo Jair Bolsonaro a elevação do benefício para R$ 600, contrapondo o valor ao que as famílias recebiam em governos anteriores de Lula.

Durante a gestão Bolsonaro, o Bolsa Família foi substituído pelo Auxílio Brasil. O piso mensal passou de R$ 189 para R$ 400 e, em agosto de 2022, foi elevado para R$ 600 por meio de uma emenda constitucional aprovada pelo Congresso.

O problema está na apresentação desse aumento como se fosse uma garantia permanente. O adicional de R$ 200 tinha validade até dezembro de 2022, e a proposta orçamentária enviada pelo governo Bolsonaro para 2023 previa a redução do benefício para R$ 405.

Assim, é correto afirmar que o benefício chegou a R$ 600 durante a gestão Bolsonaro. É enganoso, porém, omitir que o valor maior tinha prazo determinado e que o programa foi reformulado.

4. O Brasil registra recorde de empresas falindo e deixando o país

Veredito: FALSO.

Flávio usou a situação das empresas como argumento para criticar a política econômica do governo Lula, afirmando haver um recorde de empresas deixando o Brasil.

A checagem identificou uma diferença importante: os indicadores citados no debate não sustentam a afirmação de recorde de falências. O país apresenta números elevados de empresas inadimplentes e em recuperação judicial, mas essas situações não são equivalentes a falência.

A recuperação judicial é um procedimento para tentar renegociar dívidas e manter a empresa em funcionamento. A falência, por sua vez, é um processo distinto.

Além disso, o UOL Confere apontou que o número de falências vinha apresentando queda nos últimos anos.

O quadro econômico das empresas pode ser preocupante, mas inadimplência, recuperação judicial, falência e saída do país são indicadores diferentes. Misturá-los produz uma conclusão que os dados citados não confirmam.

5. Flávio afirmou que o governo Lula coloca criminosos perigosos nas ruas por falta de vagas nos presídios

Veredito: ENGANOSO.

O candidato do PL criticou a política de execução penal do governo federal e afirmou que a falta de vagas no sistema penitenciário estaria sendo usada para colocar criminosos perigosos em liberdade.

A declaração simplifica o funcionamento da Justiça. Conforme a checagem do UOL Confere, a falta de vagas não determina a soltura automática de condenados. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal prevê medidas específicas para lidar com o déficit prisional, considerando as condições legais e a situação individual de cada preso.

Isso não significa que o sistema penitenciário brasileiro não enfrente problemas graves. O próprio UOL cita um déficit de vagas expressivo.

A distinção fundamental é que a existência de medidas judiciais relacionadas à superlotação não comprova que o governo esteja liberando indiscriminadamente criminosos perigosos.

Lula: cinco falas checadas

1. A economia só voltou a crescer acima de 3% depois que Lula retornou à Presidência

Veredito: FALSO.

Lula afirmou que o Brasil cresceu 7,5% em 2010 e que, depois de sua saída da Presidência, a economia só voltou a crescer acima de 3% quando ele retornou ao cargo, em 2023.

A primeira parte está correta: o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 7,5% em 2010. A segunda, porém, é falsa.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) citados pelo UOL Confere, o PIB cresceu aproximadamente 4,6% em 2021, durante o governo Bolsonaro. Portanto, houve crescimento superior a 3% antes do atual mandato de Lula.

O governo Lula registrou altas de 3,2% em 2023 e 3,4% em 2024, conforme os dados mencionados na checagem. Esses resultados podem ser utilizados para defender o desempenho econômico do atual governo, mas não sustentam a afirmação de que nenhum crescimento superior a 3% ocorreu anteriormente.

2. A inflação dos alimentos foi de 56,17% no governo Bolsonaro e de 13% no governo Lula

Veredito: IMPRECISO. A comparação favorece a gestão Lula, mas os números citados não correspondem integralmente à série usada na checagem.

Lula argumentou que os alimentos ficaram mais caros durante o governo Bolsonaro do que no atual mandato. A comparação tem fundamento, mas exige cuidado com os índices e os períodos utilizados.

Segundo o UOL Confere, dados da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) apontaram inflação de alimentos de 56,6% entre janeiro de 2019 e dezembro de 2022, durante o governo Bolsonaro. No terceiro mandato de Lula, entre janeiro de 2023 e setembro de 2026, o índice acumulado foi de 16,7%.

Já os dados do IPCA, indicador oficial de inflação calculado pelo IBGE, mostram outra comparação: alta de 44,2% nos 44 primeiros meses do governo Bolsonaro, contra 15,9% nos 44 primeiros meses do atual mandato de Lula.

Os números variam conforme o índice e o intervalo analisado. Por isso, não é correto apresentar 56,17% e 13% como se fossem valores definitivos e diretamente comparáveis sem especificar a metodologia.

O ponto central, entretanto, permanece: nas séries citadas pela checagem, a inflação acumulada dos alimentos foi menor no período analisado do governo Lula.

3. Flávio mentiu 43 vezes sobre sua relação com Daniel Vorcaro

Veredito: PARCIALMENTE CORRETO, COM RESSALVA SOBRE O ALCANCE DA AFIRMAÇÃO.

Durante o debate, Lula afirmou que Flávio Bolsonaro havia mentido 43 vezes sobre sua relação com Daniel Vorcaro, ex-banqueiro ligado ao Banco Master.

O UOL Confere informou que um levantamento do Aos Fatos identificou 43 declarações falsas do senador sobre sua relação com Vorcaro. A checagem também registrou que Flávio negou inicialmente ter pedido dinheiro para financiar o filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro, e depois admitiu ter solicitado recursos.

É necessário, contudo, explicar o alcance desse resultado: trata-se de uma contagem de declarações classificadas pelo levantamento como falsas, e não de 43 condenações judiciais ou de uma decisão definitiva da Justiça sobre todas as questões relacionadas ao caso.

A existência de pedidos de recursos e de apurações sobre sua destinação deve ser examinada a partir dos documentos e das investigações disponíveis. Uma contagem de checagem não substitui a análise individual das acusações.

4. Flávio comprou uma casa de R$ 10 milhões com salário de senador

Veredito: EXAGERADO.

Lula questionou como Flávio Bolsonaro teria comprado um imóvel de R$ 10 milhões com seu salário de senador.

Segundo a checagem do UOL Confere, a mansão adquirida por Flávio em 2021, no Lago Sul, em Brasília, tinha cerca de 1.100 metros quadrados de área construída e custou aproximadamente R$ 6 milhões, valor inferior ao mencionado pelo presidente.

Na ocasião, Flávio afirmou que a venda de um imóvel no Rio de Janeiro havia contribuído para financiar a compra.

O UOL também observou que o valor de R$ 10 milhões pode estar relacionado a outro caso envolvendo um imóvel em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, cuja aquisição foi questionada pelo jogador Richarlison.

Portanto, a crítica sobre o patrimônio do senador precisa distinguir os imóveis e os valores envolvidos. O montante de R$ 10 milhões não corresponde ao preço documentado da mansão de Brasília citada na checagem.

5. O salário mínimo passou a comprar 2,2 cestas básicas no governo Lula

Veredito: IMPRECISO.

Lula comparou o poder de compra do salário mínimo durante os governos Bolsonaro e Lula. A ideia é relevante para avaliar a renda dos trabalhadores, mas o número apresentado no debate não foi confirmado pela checagem da Folha.

Segundo o jornal, em agosto de 2026, o salário mínimo de R$ 1.621 comprava o equivalente a aproximadamente 1,8 cesta básica na cidade de São Paulo, onde o conjunto de alimentos custava R$ 900,59.

A Folha também apontou que, em agosto de 2022, o salário mínimo comprava cerca de 1,62 cesta básica na mesma cidade. Isso indica uma melhora do poder de compra nesse recorte.

É importante observar que esse cálculo utiliza os preços da cesta básica paulistana, e não uma média nacional. O custo dos alimentos varia entre cidades e regiões.

Assim, há fundamento para afirmar que o poder de compra do salário mínimo melhorou na comparação apresentada, mas o número de 2,2 cestas básicas não corresponde ao cálculo citado pela Folha.

O que a checagem revela sobre o debate

As verificações mostram que nenhum candidato deve ser tratado como fonte automaticamente confiável. Flávio Bolsonaro usou números incorretos sobre gastos com viagens presidenciais e fez afirmações falsas sobre a atuação diplomática do governo brasileiro diante das tarifas dos Estados Unidos. Também apresentou de forma incompleta a trajetória do benefício social de R$ 600.

Lula, por sua vez, errou ao afirmar que a economia brasileira só voltou a crescer acima de 3% em seu atual mandato. Também utilizou números imprecisos para comparar a inflação dos alimentos e o poder de compra do salário mínimo.

Nas acusações relacionadas a Vorcaro, é necessário distinguir declarações desmentidas por checagens, fatos documentados e suspeitas ainda investigadas. A mesma regra vale para acusações contra integrantes do governo e da oposição.

O eleitor precisa observar não apenas se um número é verdadeiro, mas também se ele foi apresentado com o período correto, a fonte adequada e o contexto necessário.

O debate eleitoral é um espaço para confrontar propostas e cobrar explicações. Quando os candidatos distorcem dados ou omitem informações relevantes, a checagem independente se torna essencial para que a população possa avaliar o que foi dito antes de decidir seu voto.

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