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Lula admite falhas do governo, defende redução da maioridade penal e propõe reforma do Judiciário em sabatina na Globo

Presidente respondeu a Renata Lo Prete sobre segurança pública, economia, relação com Donald Trump, caso Banco Master, avaliação do governo e desafios para um eventual novo mandato; entrevista também levantou questionamentos sobre dados apresentados pelo candidato.

Lula
Lula na Globo admite falhas e muda posição sobre maioridade penal. Foto Manoella Mello / Globo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, participou na quinta-feira (15) de uma sabatina na TV Globo conduzida pela jornalista Renata Lo Prete. Durante aproximadamente 40 minutos, o petista respondeu a perguntas sobre os resultados de sua gestão, segurança pública, investigações envolvendo integrantes do Judiciário, economia e política externa, em uma entrevista marcada por declarações que podem repercutir na disputa pelo segundo turno das eleições presidenciais de 2026.

Entre os principais destaques, Lula assumiu a responsabilidade pela avaliação negativa de parte do eleitorado, defendeu a redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos e declarou que o Brasil precisa discutir mudanças no funcionamento do Poder Judiciário. O presidente também confirmou que recebeu Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, em dezembro de 2024, e afirmou que orientou o empresário a ser investigado, e não perseguido politicamente.

A entrevista ocorreu em um momento decisivo da campanha. Depois do primeiro turno, Lula tenta ampliar o apoio eleitoral e convencer os indecisos de que seu governo tem condições de continuar. O senador Flávio Bolsonaro (PL), adversário do petista no segundo turno, também participa da rodada de entrevistas da emissora, com sabatina prevista para sexta-feira (16).

O que Renata Lo Prete perguntou e como Lula respondeu

A seguir, o Fala News organiza os principais questionamentos da sabatina e resume as respostas do presidente. As perguntas e respostas estão apresentadas em linguagem jornalística, por assunto, e não como transcrição literal integral da entrevista.

1. Lula se arrepende dos resultados do governo?

A entrevista começou com uma pergunta sobre a avaliação de sua gestão, a rejeição de parte do eleitorado e a responsabilidade pelos resultados apresentados ao país.

Lula respondeu que a responsabilidade era dele, como presidente, e afirmou que não poderia transferir a culpa para ministros, aliados ou integrantes de sua campanha. Reconheceu dificuldades de comunicação e disse que o governo realizou ações que não conseguiu apresentar adequadamente à população.

O presidente também argumentou que recebeu um país com estruturas administrativas desmontadas, citando a necessidade de reconstruir políticas públicas e aprovar a PEC da Transição para garantir recursos no início do mandato.

O ponto central: Lula fez um reconhecimento público de falhas na comunicação de seu governo, mas procurou defender os resultados de sua administração.

2. Como governar com um Congresso de maioria conservadora?

Questionado sobre a possibilidade de enfrentar novamente um Congresso Nacional com forte presença de parlamentares de direita, Lula defendeu a construção de alianças políticas para garantir governabilidade.

Ele afirmou que partidos de diferentes orientações ideológicas participaram de seu governo e citou legendas como União Brasil e PSD. Na avaliação do presidente, a formação de uma base parlamentar ampla permitiu aprovar medidas importantes.

A resposta, porém, não eliminou a questão sobre como um eventual novo mandato lidaria com um Legislativo mais conservador e com o crescimento da influência do PL.

Uma checagem publicada pelo Aos Fatos observou que Lula exagerou ao afirmar que conseguiu aprovar todas as propostas encaminhadas ao Congresso, uma vez que sua administração também sofreu derrotas parlamentares.

3. Lula mudou de posição sobre a maioridade penal?

Um dos momentos de maior repercussão foi a pergunta sobre segurança pública e a possibilidade de reduzir a maioridade penal.

Lula declarou ser favorável à redução da idade de responsabilização penal para 16 anos nos casos de crimes hediondos. A posição representa uma mudança relevante em relação à resistência histórica de setores do PT e de parte da esquerda brasileira à redução da maioridade penal.

O presidente procurou delimitar sua posição aos crimes considerados hediondos, em vez de defender uma redução generalizada para todas as infrações.

A declaração aproxima Lula de uma pauta tradicionalmente defendida por setores da direita e do campo conservador, que têm colocado a segurança pública entre os temas centrais da campanha.

A mudança também abre uma discussão sobre os limites da punição de adolescentes, a legislação penal e a efetividade das políticas de prevenção à violência.

4. Como enfrentar o crime organizado?

Ao abordar a atuação de facções criminosas, a entrevista tratou da classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos.

Lula contestou a equiparação automática entre o crime organizado brasileiro e o conceito de terrorismo adotado pelo governo norte-americano. Segundo ele, as facções atuam principalmente em busca de dinheiro e poder econômico, enquanto a noção de terrorismo utilizada pelos Estados Unidos envolve outras características.

O presidente reconheceu, contudo, que PCC e Comando Vermelho aterrorizam a sociedade brasileira. Sua argumentação foi de que reconhecer a gravidade dos crimes cometidos por essas organizações não significa necessariamente adotar a mesma classificação jurídica e política defendida por Washington.

A resposta colocou em evidência uma questão importante: como combater organizações criminosas com atuação nacional e internacional sem confundir as ferramentas jurídicas de combate ao crime organizado com as de enfrentamento ao terrorismo.

5. O que Lula disse sobre o caso Master e as suspeitas envolvendo ministros do STF?

A jornalista questionou Lula sobre as denúncias e controvérsias relacionadas a integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente no contexto das discussões envolvendo o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro.

O presidente afirmou que não poderia interferir nas decisões individuais dos ministros. Ao comentar um pedido de vista feito pelo ministro Flávio Dino, que adiou a análise de uma questão relacionada ao tema, Lula argumentou que o magistrado exerceu uma prerrogativa prevista nas regras do tribunal.

Ao mesmo tempo, defendeu que as denúncias fossem apuradas e declarou que a sociedade não aceitaria que os fatos fossem simplesmente esquecidos.

Lula afirmou ainda que seria necessário discutir uma reforma do Judiciário, incluindo os critérios de escolha de ministros da Suprema Corte.

A declaração mais importante: o presidente defendeu que ninguém esteja acima da lei, nem mesmo os integrantes do STF. A posição procura responder às cobranças por transparência e responsabilização em meio à crise de confiança envolvendo o Judiciário.

6. Por que Lula recebeu Daniel Vorcaro em dezembro de 2024?

Renata Lo Prete perguntou sobre o encontro entre Lula e Daniel Vorcaro, realizado em dezembro de 2024. A jornalista destacou que o empresário foi apresentado ao presidente pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que, naquele período, trabalhava para o Banco Master.

A questão também envolveu o fato de Vorcaro já ser alvo de procedimentos no Banco Central e de uma investigação da Polícia Federal. A pergunta foi por que a polícia não teria alertado o presidente sobre a situação do empresário.

Lula respondeu que empresários e representantes de instituições financeiras procuram a Presidência quando enfrentam problemas. Para sustentar seu argumento, mencionou outros episódios envolvendo bancos que buscaram interlocução com o governo.

Segundo o presidente, Vorcaro alegou estar sofrendo perseguição política. Lula afirmou ter respondido que ele não seria perseguido, mas investigado, e disse que o banco acabou sendo fechado cerca de um mês depois.

A resposta foi uma das partes mais sensíveis da entrevista, pois envolveu o relacionamento entre o chefe do Executivo, um empresário que se tornou centro de controvérsias financeiras e as instituições responsáveis pela fiscalização e investigação.

É importante distinguir o relato do presidente sobre a conversa das conclusões sobre o caso: a declaração de Lula, isoladamente, não comprova a existência ou a inexistência de interferência política nas investigações.

7. Como Lula respondeu às críticas sobre a economia?

Na discussão econômica, o presidente recorreu a indicadores de seus governos anteriores e do mandato atual para defender sua gestão. Também falou sobre a posição do Brasil na economia internacional, o crescimento econômico, a geração de empregos e a situação das contas públicas.

Lula lembrou que o Brasil chegou à sétima posição entre as maiores economias do mundo em 2010 e citou o crescimento de 7,5% registrado naquele ano.

Entretanto, parte dos números apresentados exigiu correções. O Aos Fatos confirmou as referências à posição econômica brasileira e ao crescimento de 2010, mas apontou problemas na declaração de que os dois primeiros governos Lula teriam criado 22 milhões de empregos formais. Esse total depende de um recorte mais amplo, que inclui também os governos de Dilma Rousseff.

Na discussão sobre o comércio exterior, Lula argumentou que a relação comercial com os Estados Unidos havia perdido espaço, enquanto o intercâmbio com a China crescia. A checagem do UOL Confere considerou exagerados os percentuais mencionados pelo presidente: os números citados por ele não correspondiam às variações registradas nos dados oficiais para o período analisado.

8. O governo entregou os resultados prometidos?

Ao explicar os desafios do terceiro mandato, Lula voltou a mencionar a necessidade de recuperar políticas públicas, reorganizar estruturas administrativas e retomar obras paralisadas.

O presidente afirmou que encontrou milhares de obras interrompidas, incluindo construções nas áreas de educação e saúde. Nesse ponto, o UOL Confere registrou que a quantidade de obras paralisadas era superior a 6 mil nos levantamentos do Tribunal de Contas da União referentes ao período anterior à posse de Lula.

A resposta do presidente buscou sustentar a ideia de que parte dos problemas atuais decorre de dificuldades herdadas e do tempo necessário para reconstruir programas. A questão política, porém, permanece: o eleitor avalia tanto as condições encontradas no início do mandato quanto os resultados efetivamente entregues durante a gestão.

9. Como Lula pretende lidar com a relação com Donald Trump?

A relação com o presidente dos Estados Unidos e os efeitos da política comercial norte-americana sobre o Brasil também fizeram parte das discussões.

Lula defendeu a interlocução diplomática com Washington e procurou apresentar a diversificação das relações comerciais como uma forma de reduzir a dependência do mercado norte-americano.

O presidente citou a expansão das relações com outros parceiros, especialmente a China, para argumentar que o Brasil tem alternativas comerciais. Os dados percentuais apresentados nessa comparação, contudo, foram questionados pela checagem do UOL Confere.

O tema tem importância eleitoral porque reúne política externa, emprego, atividade industrial e a capacidade do governo brasileiro de proteger os interesses nacionais em negociações com uma das maiores economias do mundo.

10. Por que o Bolsa Família não foi reajustado antes?

Renata Lo Prete questionou Lula sobre o reajuste do Bolsa Família anunciado pelo governo a poucas semanas do primeiro turno.

O presidente afirmou que não sabia que o benefício havia permanecido sem reajuste anterior e disse ter ficado surpreso ao tomar conhecimento da situação. Segundo ele, não fazia sentido que seu governo deixasse de corrigir um benefício importante para as famílias de baixa renda.

Lula também defendeu o aumento anunciado, que elevou o valor mínimo de R$ 600 para R$ 691 por família, conforme os dados divulgados sobre a medida.

O episódio colocou em discussão a gestão dos programas sociais, a comunicação entre ministérios e a proximidade do anúncio com o calendário eleitoral.

11. Como o governo pretende reduzir o endividamento e melhorar as contas públicas?

A sabatina também abordou a situação fiscal do país, a dívida pública e o orçamento federal.

Lula defendeu a proposta orçamentária de 2027, que prevê superávit primário, e comparou o cenário atual com o resultado fiscal do início de seu terceiro mandato. O presidente argumentou que o governo precisou enfrentar dificuldades herdadas e reorganizar as contas públicas.

A checagem do UOL Confere, entretanto, apontou uma diferença importante na comparação apresentada: o Brasil registrou superávit primário em 2022, último ano do governo Jair Bolsonaro, enquanto o déficit de 2,8% mencionado por Lula se refere ao primeiro ano de sua terceira gestão. A comparação exige, portanto, distinguir o resultado fiscal de cada período e considerar as despesas e obrigações envolvidas.

12. Quem controla o setor elétrico e o que pode ser feito para aliviar as contas de energia?

A entrevista também incluiu questionamentos sobre o setor elétrico e o peso dos custos de energia para a população.

A discussão envolveu a estrutura do mercado brasileiro e a participação da iniciativa privada na gestão de parte significativa do setor. A checagem do Aos Fatos confirmou que uma parcela expressiva do mercado de energia está sob gestão privada.

Esse tema é relevante porque o preço da energia afeta diretamente o orçamento doméstico e os custos de produção das empresas. No entanto, não é adequado atribuir ao presidente uma promessa específica de redução das tarifas sem uma confirmação precisa do trecho correspondente da entrevista.

13. O que Lula respondeu sobre a fila de consultas e procedimentos médicos?

A saúde pública também entrou na sabatina, com questionamentos sobre a fila de atendimentos especializados no país.

O tema envolve um dos desafios históricos do Sistema Único de Saúde (SUS): garantir que pacientes consigam realizar consultas, exames e procedimentos dentro de um prazo adequado.

Na entrevista, a questão foi colocada no contexto da capacidade de entrega do governo e das dificuldades que ainda afetam a população. Para registrar com exatidão a resposta de Lula sobre medidas específicas, seria necessário conferir o trecho integral da gravação; as fontes consultadas não permitem reconstruir com segurança todas as palavras usadas nesse momento.

14. Lula falou sobre a escala 6x1?

O fim da escala 6x1 não recebeu um bloco específico de perguntas na entrevista, segundo a cobertura publicada após a sabatina.

O assunto foi mencionado pelo presidente em sua manifestação final, quando afirmou acreditar que a aprovação da mudança ajudaria a população a reconhecer as ações do governo.

A ausência de um questionamento aprofundado sobre o tema foi destacada por veículos de comunicação, sobretudo porque a redução da jornada de trabalho estava entre as discussões de maior impacto para os trabalhadores naquele momento.

O que a sabatina revela sobre a estratégia de Lula para o segundo turno?

A entrevista reuniu duas frentes da estratégia eleitoral do presidente. De um lado, Lula procurou defender os resultados econômicos e sociais de sua gestão, argumentando que o governo retomou políticas públicas e enfrentou problemas acumulados. De outro, reconheceu falhas de comunicação e assumiu a responsabilidade pela avaliação negativa de parte do eleitorado.

A declaração sobre a maioridade penal foi uma das mudanças políticas mais significativas da sabatina. Ao defender a redução para 16 anos nos casos de crimes hediondos, Lula buscou apresentar uma posição mais dura sobre segurança pública, tema que ganhou relevância na disputa eleitoral.

Na área institucional, a defesa de uma reforma do Judiciário e a afirmação de que todas as denúncias precisam ser apuradas indicam uma tentativa de responder à pressão por transparência. Já as explicações sobre Daniel Vorcaro colocaram o presidente diante de questionamentos sobre o relacionamento do governo com agentes do mercado financeiro.

Na economia, a entrevista também mostrou a importância de separar argumentos políticos de dados verificáveis. Embora algumas informações apresentadas por Lula tenham sido confirmadas por checagens independentes, outras foram consideradas exageradas, imprecisas ou enganosas.

Uma entrevista com impacto eleitoral

A sabatina de Lula na Globo expôs tanto as principais bandeiras que o presidente pretende defender quanto os pontos de maior vulnerabilidade de sua campanha. A tentativa de recuperar a confiança dos eleitores passa pela defesa dos resultados do governo, mas também exige respostas convincentes sobre segurança pública, saúde, custo de vida e integridade das instituições.

O reconhecimento de falhas pode ajudar Lula a demonstrar disposição para corrigir problemas. Por outro lado, as mudanças de posição e as controvérsias envolvendo integrantes do Judiciário e o caso Master podem alimentar novas cobranças durante a campanha.

O desafio do presidente agora é transformar as explicações apresentadas na televisão em confiança eleitoral. A repercussão da entrevista, as próximas sabatinas e os debates entre os candidatos serão importantes para avaliar se a estratégia conseguirá ampliar seu apoio no segundo turno.

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