Reportagens apontam restrições a conteúdos ligados a Lula e anúncios políticos irregulares; Demétrio Magnoli questiona o poder das plataformas, enquanto órgãos cobram transparência.
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| CEO da Meta, Mark Zuckerberg e o presidente dos EUA Donald Trump. Foto - Jonathan Ernst - Reuters |
A atuação das grandes empresas de tecnologia nas eleições brasileiras voltou ao centro do debate político após denúncias de possíveis irregularidades nas plataformas da Meta, dona do Instagram, Facebook e WhatsApp. Reportagens recentes apontam restrições a conteúdos ligados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), recomendações de perfis associados ao senador Flávio Bolsonaro (PL) e a circulação de anúncios políticos pagos do exterior.
O caso ganhou novos contornos com a publicação da coluna A meta da Meta, do sociólogo Demétrio Magnoli, na Folha de S.Paulo, nesta sexta-feira (16). O colunista critica a possibilidade de interferência das plataformas no processo eleitoral, mas também questiona a ideia de que algoritmos sejam capazes de determinar o voto dos brasileiros.
A controvérsia envolve duas questões centrais para a democracia: a responsabilidade das empresas que controlam os principais canais de comunicação digital e a necessidade de garantir condições equilibradas para candidatos e partidos durante a campanha.
Mensagens internas levantam suspeitas sobre atuação da Meta
Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo e repercutida pela agência Reuters, comunicações internas de funcionários da Meta indicariam que contas de Lula no Instagram sofreram restrições durante o período eleitoral. As mensagens também apontariam recomendações da plataforma que favoreceram a exposição do perfil e do canal de WhatsApp de Flávio Bolsonaro.
As revelações aumentaram a pressão sobre a empresa e levantaram dúvidas sobre o funcionamento dos sistemas de recomendação e moderação de conteúdo político. Em uma disputa presidencial acirrada, mudanças na distribuição de publicações podem afetar o alcance de mensagens e a capacidade das campanhas de chegar ao eleitorado.
É importante, porém, distinguir os fatos relatados das conclusões que ainda precisam ser demonstradas. As informações divulgadas justificam questionamentos e apurações, mas não permitem afirmar, isoladamente, que a Meta tenha determinado o resultado eleitoral ou que exista uma decisão definitiva comprovando favorecimento deliberado.
Estudo identifica mais de 1,6 mil anúncios políticos irregulares
Além das suspeitas envolvendo recomendações algorítmicas, um levantamento do NetLab, laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), identificou 1.613 anúncios políticos considerados irregulares nas plataformas da Meta entre julho e setembro de 2026.
Segundo a pesquisa, as peças movimentaram aproximadamente R$ 2 milhões, com recursos provenientes principalmente dos Estados Unidos. Os anúncios somaram 171,1 milhões de impressões e mencionaram 70 candidatos.
O estudo apontou publicidade financiada por fontes estrangeiras, peças sem identificação obrigatória e conteúdos de propaganda negativa. A legislação eleitoral brasileira estabelece restrições ao financiamento estrangeiro e ao impulsionamento de propaganda política por pessoas ou entidades não autorizadas.
A Meta afirmou que os anúncios identificados foram posteriormente reclassificados ou retirados quando violavam suas políticas. A empresa também argumentou que o levantamento inclui materiais veiculados desde julho, antes do período oficial de campanha, e declarou possuir diferentes etapas de revisão e detecção de irregularidades.
Para os pesquisadores, entretanto, retirar anúncios depois de sua circulação não elimina os efeitos que eles podem ter produzido sobre o eleitorado. O episódio reforça a discussão sobre a necessidade de controles preventivos e maior transparência na publicidade digital.
Mais de 100 organizações cobram fiscalização das plataformas
A preocupação ultrapassou o debate entre partidos. Uma carta aberta assinada por mais de 100 organizações e especialistas de 25 países acusou grandes empresas de tecnologia de descumprir regras eleitorais brasileiras.
Entre os signatários estão entidades como Greenpeace, Oxfam Brasil, ARTICLE 19 e Global Witness. O documento menciona anúncios pagos a partir do exterior, recomendações de candidatos por ferramentas de inteligência artificial e imagens falsas sem identificação adequada.
As organizações também questionaram a moderação de conteúdo, citando relatos de publicações removidas e perfis suspensos sem explicações suficientes. Entre as reivindicações estão mais transparência sobre os anúncios, justificativas para penalidades, mecanismos de recurso e fiscalização efetiva das plataformas.
A dimensão internacional do movimento demonstra que a questão não se limita à disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. O funcionamento dos algoritmos, a publicidade política e a aplicação das regras pelas empresas privadas se tornaram temas relevantes para a integridade das eleições em diferentes países.
TSE cobra igualdade de condições entre os candidatos
O Tribunal Superior Eleitoral também entrou no debate. Em reunião realizada em 15 de outubro, o presidente da Corte, ministro Kassio Nunes Marques, e o vice-presidente, ministro André Mendonça, discutiram com representantes da Meta medidas de enfrentamento à desinformação e o uso de inteligência artificial durante a campanha.
Segundo o TSE, a conversa abordou a necessidade de garantir a chamada paridade de armas entre as campanhas presidenciais, para que os eleitores possam escolher seus candidatos livremente. A preservação de dados relacionados a mensagens em canais de WhatsApp também esteve na pauta.
A atuação da Justiça Eleitoral será importante para esclarecer as denúncias, verificar a aplicação das normas e determinar eventuais medidas cabíveis. A apuração precisa considerar documentos, registros técnicos e respostas das empresas, sem antecipar conclusões que ainda dependem de investigação.
Demétrio Magnoli questiona o poder dos algoritmos sobre o voto
Na coluna publicada na Folha de S.Paulo, Demétrio Magnoli defende uma posição que combina crítica às plataformas com ressalvas à ideia de que elas possam controlar o resultado das eleições.
O sociólogo afirma que, caso a Meta tenha manipulado seus algoritmos para favorecer Flávio Bolsonaro, a empresa merece punições severas. Ao mesmo tempo, argumenta que atribuir às redes sociais o poder de decidir uma eleição subestima a capacidade de julgamento dos cidadãos.
Para sustentar seu raciocínio, Magnoli menciona episódios internacionais de interferência digital e cita eleições em que candidatos venceram ou perderam apesar do apoio de forças políticas externas. Sua principal preocupação é que a responsabilização excessiva das plataformas pelo comportamento dos eleitores se transforme em justificativa para derrotas políticas.
O colunista, portanto, não descarta a gravidade de uma eventual manipulação algorítmica. Seu argumento central é que a fiscalização das empresas deve coexistir com a confiança na capacidade dos eleitores de fazer suas próprias escolhas.
A discussão, entretanto, não precisa ser reduzida a uma escolha entre confiar nos eleitores e cobrar responsabilidade das empresas. É possível reconhecer a autonomia política da população e, ao mesmo tempo, exigir que as plataformas respeitem as regras eleitorais.
A liberdade de escolha depende também de condições adequadas para que os cidadãos tenham acesso à informação, conheçam diferentes propostas e não sejam submetidos a mecanismos de distribuição de conteúdo que operem sem transparência.
O desafio é garantir eleições livres também no ambiente digital
A controvérsia envolvendo a Meta expõe um problema que vai além das preferências políticas de seus usuários. Empresas privadas controlam sistemas capazes de distribuir conteúdos para milhões de pessoas, recomendar perfis e restringir publicações, muitas vezes por meio de critérios que não são totalmente transparentes para o público.
Isso não significa que os algoritmos determinem automaticamente o voto. Significa que as regras utilizadas para distribuir informações podem influenciar o ambiente em que os eleitores formam suas opiniões.
Por isso, a resposta às denúncias exige transparência, fiscalização independente e aplicação equilibrada da legislação. Caso sejam comprovadas irregularidades, as medidas devem ser proporcionais à gravidade das condutas e fundamentadas em evidências.
O desafio das instituições brasileiras é assegurar que a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro ocorra dentro das regras democráticas, sem favorecimentos indevidos, censura arbitrária ou interferência ilegal de agentes externos.
A capacidade de escolha do eleitor e a responsabilidade das plataformas não são princípios incompatíveis. Ao contrário, uma democracia sólida precisa proteger tanto a autonomia de quem vota quanto a integridade dos meios pelos quais a informação política circula.

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