Quando o poder testa a ternura
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| Cadeira vazia na Câmara Parlamentar. Foto: Millena Reis / Fala News |
Abrir caminhos ou produzir perseguições
O que vocês fazem ou já fizeram quando tiveram algum tipo de poder nas mãos?
Facilitaram a vida de alguém, tornando o fardo mais leve, abrindo portas, mostrando caminhos?
Ou fizeram intrigas, fecharam acessos, retiraram possibilidades?
Cantam liberdade de forma performática. Apresentam-se como libertários e libertárias. Mas, quando chega a vez de ocuparem algum espaço, resgatam a cartilha do ditador, leem e a aplicam com perfeição. Repetem o mantra “chegamos agora, é preciso endurecer sem perder a ternura”. Mas será que a ternura permanece?
Já se perguntaram por que, na militância e na vida política, é tão necessário equilibrar ternura e força? O ditado popular alerta que ser bom demais não presta. Ora, não presta primeiro para vocês mesmos.
Equilibrar a ternura é essencial para que não sejam confundidos com pessoas manipuláveis pelas emoções alheias. Por outro lado, endurecer em excesso coloca vocês no risco real de se transformarem em tiranos.
O caminho de quem detém algum poder é desafiador. Muitas vezes é preciso escolher. Mas aqui não falo de escolhas. Falo de exclusão deliberada.
Marcar um X nas costas das pessoas, construir narrativas mentirosas baseadas na falta de afeição por alguém ou no incômodo ácido de não possuir a mesma habilidade que ela torna vocês medíocres e os condena ao papel de perseguidores.
Novas lideranças estão sendo levantadas, forjadas pelas dores. Vocês estão preparados e preparadas para conviver com elas, reconhecer a necessidade de sua voz e de sua bandeira?
Estão dispostos e dispostas a recebê-las, em algum momento, como mestres ou mestras, sem se abalar com a contribuição que trazem, sem permitir que o ego conduza à comparação?
Quando vocês não são capazes de reconhecer, ou sequer oferecer um segundo olhar de ternura a quem caminha ao lado de vocês, muito em breve se tornam perseguidores.
No livro As 48 Leis do Poder, o autor ensina que nunca devemos brilhar mais que o mestre, pois isso pode incomodá-lo. Não devemos demonstrar que sabemos mais, para não ganhar um inimigo. Uma lição intragável, mas muitas vezes necessária para a sobrevivência nos espaços políticos.
O ego, a cegueira e a ilusão da classe média, que se recusa a olhar para o espelho de classe, fazem com que vocês se sintam detentores de um poder que não possuem. Um poder emprestado, breve. Prova-se o gosto inebriante dessa sensação e, sem perceber, vocês se tornam peças facilmente manipuláveis, instrumentalizadas pelas forças maiores que trabalham para manter intacto o ciclo das injustiças.
Não esquecerem suas origens, suas raízes e as lágrimas que já derramaram pelas perseguições que enfrentaram talvez possa agir como um freio interno, impedindo que repliquem a tirania da qual, em algum momento, foram alvos.
E vocês, o que estão fazendo com o poder que têm?
Estão apenas seguindo o jogo para manter sua presença, mesmo que vazia de sentido, conteúdo e direção?
Ou quem os conduz são apenas seus sonhos pessoais, dissociados do projeto coletivo?

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