Túlio Gadêlha cria tensão na federação REDE/PSOL e pode usar candidatura como pretexto para voltar ao PDT, segundo bastidores políticos.
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| Fontes ligadas ao PDT nacional tratam como certa a filiação de Túlio Gadêlha e seu grupo político. Foto: Divulgação |
O lançamento do reitor da UFPE, Alfredo Gomes, como pré-candidato ao Governo de Pernambuco pelo grupo político liderado pelo deputado federal Túlio Gadêlha (Rede) foi apresentado como o início de um novo projeto político para o estado. Com manifesto, reunião ampliada e discurso programático, o movimento busca transmitir a imagem de construção coletiva e renovação política.
Mas, nos bastidores, a leitura é outra. Cresce a avaliação entre dirigentes partidários e interlocutores políticos de que a iniciativa pode ter um objetivo bem mais pragmático: criar o pretexto ideal para a saída de Túlio Gadêlha da Rede Sustentabilidade e sua filiação ao PDT.
Segundo fontes ligadas à direção nacional do PDT, a filiação do deputado e de seu grupo político já é tratada como praticamente definida. O convite feito recentemente para discutir a reestruturação do partido em Pernambuco não foi casual. A conversa envolve não apenas a chegada de Túlio à legenda, mas também o reposicionamento político do grupo para as eleições de 2026.
Dentro dessa lógica, a pré-candidatura do reitor Alfredo Gomes seria apenas uma etapa intermediária — uma espécie de cortina de fumaça política destinada a criar um ambiente de tensão interna que torne a saída do partido mais compreensível e politicamente justificável.
A confusão como método
A Rede Sustentabilidade integra uma federação partidária com o PSOL. Nesse arranjo, as decisões estratégicas não são individuais, mas coletivas. E, na correlação de forças interna, a Rede tem peso menor nas instâncias decisórias.
Na prática, isso significa que a possibilidade de a federação apoiar uma candidatura ao Governo lançada exclusivamente pela Rede é limitada. O cenário torna pouco provável que o nome do reitor Alfredo Gomes seja o escolhido final.
Ainda assim, a pré-candidatura foi lançada com forte exposição pública, antes mesmo de qualquer construção federativa consistente.
Para interlocutores políticos, o gesto não é ingenuidade política, é cálculo.
Ao apresentar um nome que dificilmente será aprovado internamente, cria-se um conflito previsível. E, a partir dele, surge a narrativa de falta de espaço dentro da federação.
O pretexto perfeito
Se a federação não abraçar a candidatura, o cenário estará pronto para a justificativa política de saída.
O discurso esperado é conhecido: ausência de espaço político, falta de autonomia e processo de desgaste interno.
A eventual mudança partidária poderá então ser apresentada como consequência natural do ambiente político criado.
Nesse contexto, a candidatura do reitor aparece como instrumento político, não necessariamente como projeto eleitoral viável.
Mais do que disputar o Governo, o movimento serviria para marcar posição, tensionar a federação e preparar o terreno para a ruptura.
Um movimento já conhecido
Esse tipo de estratégia não seria novidade na trajetória política de Túlio Gadêlha.
Em 2020, quando ainda estava no PDT, o deputado protagonizou tensões internas durante o processo eleitoral no Recife. Seu nome chegou a ser cogitado como candidato a prefeito, o que gerou disputas políticas dentro da legenda.
Ao final, o PDT integrou a chapa encabeçada por João Campos, indicando Isabella de Roldão como vice-prefeita. Pouco tempo depois, Túlio deixou o partido.
Na avaliação de interlocutores políticos, a crise ajudou a justificar sua saída naquele momento.
Agora, dizem esses mesmos bastidores, o roteiro se repete, mas em sentido inverso: cria-se a crise na Rede para justificar o retorno ao PDT.
Um projeto pessoal
Outro elemento que reforça essa leitura é o histórico recente do deputado.
Em 2022, no segundo turno das eleições estaduais, Túlio apoiou Raquel Lyra contrariando a posição predominante da federação Rede/PSOL. O episódio evidenciou uma atuação política marcada por autonomia e pouca submissão às decisões coletivas.
Aliados consideram isso independência política. Críticos definem como personalismo.
A avaliação recorrente entre dirigentes partidários é que o deputado costuma construir projetos fortemente centrados em seu grupo mais próximo, com pouca integração orgânica com as instâncias partidárias.
Nesse sentido, a federação pode representar um limite político natural.
O PDT como destino
O PDT, por sua vez, busca se reorganizar em Pernambuco e vê em Túlio um nome com potencial eleitoral e visibilidade pública.
Fontes pedetistas afirmam que há interesse mútuo na recomposição política. A chegada do deputado poderia significar uma nova fase para o partido no estado.
Se confirmada, a filiação deverá ser apresentada como resultado de divergências políticas com a federação.
Mas, para muitos observadores, o movimento atual já indica que essa decisão está em construção há algum tempo.
A política das cortinas de fumaça
A política brasileira é marcada por movimentos que começam como projetos eleitorais e terminam como reacomodações partidárias.
Nesse caso, a pré-candidatura do reitor Alfredo Gomes pode acabar sendo lembrada menos como um projeto político real e mais como um instrumento de transição.
Se a mudança partidária se confirmar, o lançamento da candidatura poderá ser interpretado retrospectivamente como o pretexto ideal.
A cortina de fumaça que antecedeu uma decisão já tomada.
E, se essa leitura estiver correta, o objetivo nunca foi eleger o reitor, mas sim criar o cenário necessário para justificar a saída de Túlio Gadêlha da Rede e sua volta ao PDT.

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