Lula e Trump discutem tarifas, comércio, crime organizado e terras raras em reunião bilateral nos EUA.
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| Lula e Trump discutem tarifas, comércio e cooperação entre Brasil e EUA. Foto: Ricardo Stuckert/PR |
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quinta-feira (7), em Washington, que Brasil e Estados Unidos deverão construir, nos próximos 30 dias, uma proposta conjunta para tentar resolver o impasse comercial envolvendo tarifas de exportação e uma investigação aberta pelo governo norte-americano contra o Brasil.
A declaração foi dada após reunião bilateral com o presidente Donald Trump na Casa Branca. O encontro durou mais de três horas e incluiu almoço oficial oferecido pelo governo norte-americano.
Segundo Lula, equipes técnicas dos dois países irão negociar alternativas para apresentar um relatório aos dois chefes de Estado dentro de aproximadamente um mês.
Brasil e EUA negociam solução para tarifas
Durante conversa com jornalistas na sede da Embaixada do Brasil em Washington, Lula afirmou que propôs a criação de um grupo de trabalho bilateral para avançar nas negociações comerciais.
“O Brasil está preparado para discutir com qualquer país do mundo qualquer assunto. Não tem assunto proibido”, declarou o presidente.
O principal ponto de tensão envolve a investigação aberta pelos Estados Unidos com base na chamada Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana. O mecanismo é utilizado pelo governo dos EUA para apurar supostas práticas comerciais consideradas desleais.
No procedimento, os norte-americanos apontam questões como o sistema de pagamentos Pix, tarifas brasileiras sobre o etanol, desmatamento ilegal e proteção à propriedade intelectual.
O governo brasileiro, por outro lado, afirma que não reconhece a legitimidade de instrumentos unilaterais como a Seção 301, argumentando que o mecanismo seria incompatível com regras da Organização Mundial do Comércio.
Histórico das tensões comerciais
As relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos atravessam um período de tensão desde 2025, quando o governo Trump retomou medidas protecionistas já adotadas em seu primeiro mandato.
Entre as ações implementadas pelos EUA estiveram tarifas de 25% sobre aço e alumínio importados, afetando diretamente o Brasil, um dos principais exportadores desses produtos para o mercado norte-americano.
Além disso, Washington anunciou tarifas adicionais sobre produtos brasileiros sob a justificativa de ausência de reciprocidade comercial.
O governo brasileiro respondeu intensificando negociações diplomáticas e levando parte das discussões para a Organização Mundial do Comércio. Também foram fortalecidos instrumentos legais de reciprocidade e retaliação comercial.
No fim de 2025, houve recuo parcial do governo norte-americano, com exclusão de alguns produtos das tarifas mais elevadas. Ainda assim, setores estratégicos, como aço e alumínio, continuam sujeitos a taxas consideradas altas pelo setor produtivo brasileiro.
Reunião tratou de segurança e crime organizado
Outro tema discutido durante o encontro foi a cooperação no combate ao crime organizado transnacional.
Lula afirmou que o governo brasileiro deverá lançar, na próxima semana, um plano nacional de enfrentamento às organizações criminosas. Segundo ele, Brasil e Estados Unidos irão ampliar ações conjuntas para combater financeiramente facções criminosas.
“Precisamos destruir o potencial financeiro do crime organizado e das facções”, afirmou o presidente brasileiro.
De acordo com o ministro da Fazenda, Dario Durigan, equipes da Receita Federal e autoridades norte-americanas deverão atuar conjuntamente em operações contra contrabando de armas, tráfico internacional de drogas sintéticas e outros crimes transnacionais.
Em abril, os dois países já haviam firmado acordo de cooperação para compartilhamento de informações sobre apreensões realizadas em aduanas brasileiras e norte-americanas.
Debate sobre facções e soberania
Durante a coletiva, Lula afirmou que não houve discussão específica sobre facções brasileiras como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho.
Nos Estados Unidos, autoridades avaliam classificar grupos criminosos brasileiros como organizações terroristas. Especialistas e integrantes do governo brasileiro avaliam que essa possibilidade pode gerar questionamentos sobre soberania nacional e sobre a condução das políticas de segurança pública brasileiras.
Terras raras entram na pauta estratégica
A exploração de minerais críticos e terras raras também esteve entre os temas debatidos pelos dois presidentes.
Esses minerais são considerados estratégicos para a indústria de alta tecnologia, especialmente na fabricação de baterias, semicondutores, equipamentos eletrônicos e tecnologias voltadas à transição energética.
Lula informou a Trump que o Congresso Nacional aprovou recentemente a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
Segundo dados oficiais, o Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras já identificadas, ficando atrás apenas da China. O governo brasileiro afirma que parte significativa do território nacional ainda não foi completamente mapeada.
O presidente brasileiro defendeu que o país amplie a industrialização desses recursos e evite atuar apenas como exportador de matéria-prima.
Questão dos vistos diplomáticos
Outro ponto citado por Lula foi a restrição de vistos aplicada por autoridades norte-americanas contra brasileiros ligados ao julgamento da tentativa de golpe de Estado investigada após os atos de 8 de janeiro de 2023.
Segundo o presidente, parte das restrições já foi suspensa, mas algumas autoridades brasileiras e familiares ainda permanecem afetados pelas medidas.
Lula afirmou ter entregue a Trump uma lista de pessoas atingidas pelas restrições, incluindo integrantes do Supremo Tribunal Federal.
Trump afirma que reunião foi produtiva
Em publicação nas redes sociais, Trump afirmou que o encontro foi “muito produtivo” e informou que representantes dos dois países continuarão realizando reuniões nos próximos meses.
O presidente norte-americano declarou ainda que discutiu “muitos tópicos” com Lula, incluindo comércio, tarifas e temas estratégicos para a relação bilateral.
A expectativa inicial era que os dois líderes conversassem com a imprensa antes da reunião no Salão Oval. No entanto, o governo brasileiro solicitou que as declarações fossem realizadas apenas após o encontro reservado.
Comitiva brasileira retorna ao Brasil
A delegação brasileira que participou da viagem incluiu ministros das áreas econômica, diplomática, energética e de segurança pública, além do diretor-geral da Polícia Federal.
A comitiva retorna a Brasília ainda nesta quinta-feira, com previsão de chegada ao Brasil na sexta-feira (8).
A reunião entre Lula e Trump marcou uma nova etapa das negociações entre Brasil e Estados Unidos em meio às disputas comerciais iniciadas nos últimos anos.
Além das tarifas e da investigação comercial aberta pelos EUA, os presidentes discutiram cooperação em segurança pública, combate ao crime organizado, minerais estratégicos e questões diplomáticas.
O principal encaminhamento do encontro foi a criação de um grupo de trabalho bilateral, que deverá apresentar uma proposta conjunta sobre o impasse comercial em até 30 dias.

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