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Inflação desacelera, mas o alívio ainda não chegou à mesa das famílias mais pobres

A queda da expectativa de inflação é uma boa notícia para a economia, mas o impacto positivo ainda demora a chegar às famílias de baixa renda.

Inflação
Queda da inflação anima o mercado, mas a realidade dos brasileiros segue desafiadora. Foto: Tânia Rego

Os números da economia costumam dominar manchetes, mas nem sempre refletem imediatamente a realidade de quem acorda cedo para trabalhar, pega transporte público e precisa fazer escolhas difíceis na hora de encher o carrinho do supermercado. A nova redução da expectativa de inflação para 2026, divulgada pelo Boletim Focus do Banco Central, é uma notícia positiva. No entanto, para milhões de brasileiros, especialmente os mais pobres, a verdadeira pergunta é outra: quando essa melhora vai chegar ao bolso?

O mercado financeiro reduziu pela segunda semana consecutiva a projeção da inflação para 2026, enquanto os dados do IBGE mostram que a inflação perdeu força nos últimos meses e que os alimentos registraram a primeira queda de preços desde novembro de 2025. Em termos econômicos, trata-se de um cenário animador. Em termos sociais, porém, ainda há uma distância entre a estatística e a mesa da família brasileira.

A inflação é, talvez, o imposto mais cruel para quem vive com pouco. Enquanto famílias de maior renda conseguem reorganizar seus gastos, investir ou adiar compras, quem depende de um salário mínimo ou de programas sociais não tem essa margem. Quando o arroz sobe, não há como deixar de comprar comida. Quando a conta de energia aumenta, não existe alternativa para quem já vive no limite do orçamento.

Por isso, qualquer desaceleração da inflação merece ser comemorada. Ela representa a possibilidade de que o dinheiro volte a render um pouco mais e que o salário deixe de perder valor tão rapidamente. Mas é importante lembrar que preços menores não significam preços baratos. Na maioria dos casos, eles continuam elevados; apenas estão subindo em um ritmo menor.

Outro aspecto que merece atenção é a taxa básica de juros. Apesar da expectativa de redução até o fim do ano, a Selic permanece em um dos níveis mais altos das últimas décadas. Essa realidade tem efeitos que vão muito além das reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom). Ela influencia diretamente a vida das famílias.

Juros elevados tornam o financiamento da casa própria mais caro, dificultam a compra de um veículo, encarecem o crédito para pequenos empreendedores e aumentam o custo do parcelamento no comércio. Para quem vive de salário, isso significa menos oportunidades de investir, consumir ou sair do endividamento.

Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que controlar a inflação também é uma forma de proteger justamente os mais vulneráveis. Uma inflação descontrolada destrói rapidamente o poder de compra dos salários, das aposentadorias e dos benefícios sociais. Encontrar o equilíbrio entre combater a alta dos preços e permitir que a economia cresça continua sendo um dos maiores desafios da política econômica brasileira.

Há outro dado que merece reflexão. O mercado continua projetando um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de apenas 1,99% para 2026. Embora positivo, esse ritmo ainda é modesto para um país marcado por profundas desigualdades sociais. Crescer pouco significa criar menos empregos, reduzir o ritmo dos investimentos e limitar as oportunidades para quem busca melhorar de vida.

A melhora dos indicadores econômicos só fará sentido quando vier acompanhada de transformações concretas no cotidiano da população. Isso significa alimentos mais acessíveis, contas que caibam no orçamento, mais empregos formais, crédito com juros menores para pequenos negócios e aumento real da renda das famílias.

O Brasil tem convivido, nos últimos anos, com uma realidade em que a economia muitas vezes apresenta sinais positivos, enquanto parte da população continua enfrentando dificuldades para pagar as despesas básicas. Essa desconexão alimenta a sensação de que os bons resultados ficam restritos aos relatórios técnicos e ao mercado financeiro.

Os indicadores divulgados nesta semana mostram que há razões para um otimismo cauteloso. A inflação está desacelerando, as expectativas melhoraram e existe a perspectiva de redução dos juros. São movimentos importantes e que podem abrir espaço para um ambiente econômico mais favorável.

Mas o verdadeiro sucesso da política econômica não será medido apenas pela queda do IPCA ou pelas projeções do Boletim Focus. Será medido quando uma mãe conseguir fazer a compra do mês sem precisar retirar alimentos do carrinho, quando um trabalhador conseguir financiar sua casa com juros compatíveis com sua renda, quando um pequeno empreendedor voltar a investir sem medo do custo do crédito e quando o crescimento econômico se traduzir em empregos e renda.

A economia só pode ser considerada saudável quando seus benefícios alcançam quem mais precisa. Enquanto esse alívio não chegar de forma concreta às famílias de baixa renda, toda melhora nos indicadores continuará sendo apenas uma promessa de dias melhores, e não uma realidade vivida pela maior parte da população.

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