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Redução da ajuda internacional preocupa especialistas e pode agravar crise nos países mais pobres

Ajuda internacional dos países ricos caiu 23,1% em 2025, maior redução da história, aponta estudo da PUC-Rio. Pesquisa prevê novo recuo em 2026 e alerta para impactos globais.

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Redução de 23,1% em 2025 representa o maior corte já registrado na Ajuda Oficial ao Desenvolvimento; estudo prevê novo recuo em 2026. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

A ajuda internacional destinada pelos países mais ricos às nações em desenvolvimento e às instituições multilaterais sofreu, em 2025, a maior redução já registrada. Segundo o estudo Financiamento para o Desenvolvimento, elaborado pelo Brics Policy Center, ligado ao Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, o volume da chamada Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD) caiu 23,1% em relação ao ano anterior.

Os recursos passaram de US$ 226,7 bilhões em 2024 para US$ 174,3 bilhões em 2025, uma redução real de US$ 52,4 bilhões, já descontada a inflação. O levantamento também projeta uma nova queda de 6,9% em 2026, o que configuraria o terceiro ano consecutivo de retração e faria o volume de ajuda retornar ao mesmo patamar observado em 2014.

O que é a Ajuda Oficial ao Desenvolvimento

A Ajuda Oficial ao Desenvolvimento reúne recursos públicos destinados pelos governos para promover crescimento econômico, combate à pobreza e melhoria das condições sociais em países considerados menos desenvolvidos.

Esses recursos podem ser enviados diretamente aos países beneficiários, na modalidade bilateral, ou por meio de organismos multilaterais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e o Banco Mundial, responsáveis por administrar programas internacionais de desenvolvimento.

O estudo foi elaborado pelos pesquisadores Isabel Rocha de Siqueira, Enzo Cosenza e Luis Ehl, com base em informações do Comitê de Assistência ao Desenvolvimento (CAD), órgão da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), formada pelos principais países doadores. O Brasil não integra a organização.

Estados Unidos lideram redução dos repasses

O levantamento mostra que os cinco maiores doadores — Estados Unidos, Alemanha, França, Reino Unido e Japão — responderam por 95,7% da redução global observada entre 2024 e 2025.

Os Estados Unidos registraram o maior corte individual, reduzindo sua ajuda internacional em 56,9%. Segundo o estudo, somente a diminuição promovida pelos norte-americanos corresponde a 75,1% da queda global.

Além dos EUA, todos os demais grandes doadores reduziram seus repasses pelo segundo ano consecutivo:

Redução entre os principais doadores

  • Alemanha: -17,4%;
  • França: -10,9%;
  • Reino Unido: -10,8%;
  • Japão: -5,6%.

De acordo com os pesquisadores, é a primeira vez que todos os principais financiadores diminuem simultaneamente suas contribuições por dois anos seguidos.

Mudança de prioridades

O estudo associa parte da redução ao início do novo mandato do presidente norte-americano Donald Trump, cuja política externa tem priorizado uma postura menos voltada ao multilateralismo.

Outro fator destacado é o crescimento dos investimentos em áreas consideradas estratégicas, especialmente defesa e segurança energética.

Nos Estados Unidos, os gastos militares aumentaram de US$ 822,8 bilhões para US$ 845,3 bilhões entre 2024 e 2025.

Na União Europeia, os investimentos em defesa cresceram 11%, alcançando 381 bilhões de euros.

O relatório também aponta que os investimentos em energia no bloco praticamente dobraram na última década, passando de US$ 215 bilhões em 2015 para cerca de US$ 420 bilhões em 2025, impulsionados principalmente pelos efeitos da guerra entre Rússia e Ucrânia sobre a segurança energética europeia.

Apoio à ONU diminui, enquanto Banco Mundial amplia recursos

Embora o financiamento internacional tenha diminuído de forma geral, os pesquisadores identificam uma chamada "retração seletiva".

O apoio financeiro ao sistema ONU caiu 27%, a maior redução já registrada.

Por outro lado, algumas instituições ampliaram os recursos recebidos:

  • Banco Mundial: aumento de 6,4%;
  • Bancos regionais de desenvolvimento: crescimento de 11,9%.

Segundo o estudo, esse movimento indica que os países doadores estão redefinindo quais mecanismos multilaterais consideram estratégicos para manter seus investimentos.

Ucrânia permanece como prioridade

Mesmo diante da redução global dos recursos, a Ucrânia continua sendo uma das principais prioridades dos países europeus.

Apesar da queda de 91% da assistência financeira dos Estados Unidos, o país permaneceu como o maior beneficiário individual da história da Ajuda Oficial ao Desenvolvimento.

O estudo informa que esse volume foi compensado pelo aumento das contribuições de 23 países, especialmente por instituições da União Europeia, que elevaram seus repasses em 65,2%.

Os recursos destinados à Ucrânia superaram os US$ 28,1 bilhões enviados conjuntamente aos 44 países classificados pela ONU como Países Menos Desenvolvidos (PMD).

África Subsaariana concentra maiores impactos

Entre as regiões mais afetadas está a África Subsaariana.

Em 2025, os recursos destinados aos países da região diminuíram 23%, totalizando US$ 29,2 bilhões.

Para 2026, a projeção aponta uma nova redução de 11,6%, o equivalente a aproximadamente US$ 11,8 bilhões a menos.

O relatório destaca que 32 dos 49 países da África Subsaariana fazem parte do grupo dos Países Menos Desenvolvidos, tornando-os altamente dependentes da cooperação internacional.

Estudo alerta para consequências humanitárias

Para avaliar os possíveis impactos da redução da ajuda internacional, o estudo utiliza estimativas da organização internacional Oxfam.

Segundo os dados reproduzidos pelos pesquisadores, os cortes realizados apenas em 2025 poderiam estar associados a aproximadamente 695 mil mortes em excesso. Caso a tendência de redução seja mantida até 2030, a estimativa aponta para mais de 9,4 milhões de mortes adicionais.

O relatório também lembra que, durante a COP30, realizada em Belém em 2025, representantes internacionais discutiram a necessidade de mobilizar cerca de US$ 1,3 trilhão para financiamento climático, embora reconhecessem a dificuldade de alcançar esse volume de recursos.

Recomendações do estudo

Ao final do levantamento, os pesquisadores defendem medidas para reduzir os impactos da diminuição da ajuda internacional.

Entre as principais recomendações estão:

  • priorizar recursos para os países mais pobres;
  • reduzir a dependência de poucos países doadores;
  • planejar cortes de financiamento de forma coordenada;
  • aumentar a eficiência dos programas de desenvolvimento.

Os autores avaliam que, diante da escassez crescente de recursos, a cooperação internacional precisará concentrar esforços em iniciativas capazes de gerar maior impacto econômico e social para as populações mais vulneráveis.

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