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PSB quer união da esquerda, mas tenta impor quem pode disputar Pernambuco

Movimento do PSB nacional para pressionar o PSOL expõe disputa por espaço na esquerda e gera críticas sobre os limites das alianças partidárias.

João Campos
Joao Campos na sede do PSB nacional em Brasília. Foto: Gabriela Biló

A política tem uma velha regra: alianças são construídas com diálogo, não com pressão. O episódio envolvendo o PSB e a candidatura de Ivan Moraes ao Governo de Pernambuco, portanto, merece ser observado não apenas como uma disputa eleitoral, mas como um teste sobre os limites do poder partidário.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, o PSB nacional, comandado por João Campos, pressiona o PSOL para retirar Ivan da disputa. Em contrapartida, a legenda socialista estaria ameaçando rever apoios a candidaturas do PSOL em estados como Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Santa Catarina. Entre os nomes potencialmente atingidos está Manuela d’Ávila, no Rio Grande do Sul.

Se confirmada, a estratégia revela uma postura que precisa ser criticada.

Não porque o PSB não tenha o direito de defender seus interesses eleitorais. Tem. Todo partido faz isso. O problema está em transformar alianças políticas em instrumentos de pressão para retirar de cena uma candidatura legitimamente construída dentro de outra legenda.

Ivan Moraes foi escolhido por unanimidade pelo PSOL pernambucano, segundo as informações divulgadas pelo próprio partido. A candidatura está estruturada e, conforme declarou o candidato, já existe registro e programa de governo em construção.

Pode-se questionar o tamanho eleitoral de Ivan. Pode-se discutir se ele tem condições de crescer. Pode-se discordar de seu projeto político. O que não parece razoável é concluir que, porque uma candidatura tem apenas 1% nas pesquisas, ela deveria ser retirada para facilitar a vida de um candidato mais competitivo.

Esse raciocínio transforma a democracia em uma espécie de campeonato entre máquinas partidárias: só teria direito a disputar quem tiver votos suficientes para não incomodar os favoritos.

E talvez seja justamente esse o ponto mais incômodo para o PSB.

A candidatura de Ivan não precisa ser numericamente grande para ser politicamente relevante. Uma candidatura de esquerda pode disputar ideias, apresentar propostas e ocupar espaços no debate público. Pode, inclusive, questionar tanto João Campos quanto Raquel Lyra.

É isso que uma eleição deveria permitir.

O PSB, por sua vez, parece estar diante de uma contradição. Ao mesmo tempo em que busca apresentar João Campos como o principal representante do campo progressista em Pernambuco, trabalha para retirar da disputa uma candidatura situada mais à esquerda.

É legítimo perguntar: que tipo de unidade está sendo construída?

Uma unidade baseada em convergência programática ou uma unidade baseada na ausência de adversários dentro do próprio campo político?

A diferença é enorme.

A pressão ganha contornos ainda mais delicados quando envolve possíveis retaliações em outros estados. A Folha relata que o PSB teria condicionado alianças com o PSOL em diferentes regiões à solução da disputa pernambucana.

Na prática, Pernambuco passa a ser usado como moeda em uma negociação nacional.

E isso merece ser questionado.

Manuela d’Ávila não deveria ser transformada em instrumento de pressão sobre Ivan Moraes. Uma candidatura no Rio Grande do Sul não deveria depender de uma decisão tomada em Pernambuco. Da mesma forma, alianças estaduais não deveriam ser utilizadas como mecanismo para constranger uma organização partidária a abandonar uma candidatura escolhida por sua própria base.

É nesse ponto que a política deixa de ser simplesmente negociação e começa a parecer tutela.

O mais curioso é que a ofensiva acontece justamente quando João Campos enfrenta uma eleição mais apertada do que se imaginava inicialmente. A pesquisa Datafolha divulgada em agosto mostrou Raquel Lyra com 48%, João Campos com 42% e Ivan Moraes com 1%.

Ou seja: a candidatura de Ivan tem baixa pontuação, mas o PSB demonstra preocupação suficiente para movimentar sua estrutura nacional.

Isso diz muito.

Se Ivan fosse completamente irrelevante, por que tamanha mobilização?

A resposta provavelmente está menos nos 1% atuais e mais no potencial de uma campanha capaz de disputar o eleitorado de esquerda, questionar o discurso de unidade e retirar do PSB o monopólio da representação progressista.

É justamente por isso que a reação do PSOL pernambucano merece atenção. O partido classificou internamente a movimentação como pressão e reafirmou a intenção de manter Ivan na disputa.

O debate, portanto, não deveria ser apenas sobre quem tem mais chances de vencer.

Deveria ser sobre quem tem o direito de disputar.

Ivan Moraes
Ivan Moraes candidato da federação PSOL/REDE ao governo de Pernambuco. Foto: Paloma Keise

O PSB tem todo o direito de construir uma candidatura forte para João Campos. Tem o direito de buscar alianças, conversar com partidos e tentar ampliar sua base. O que precisa ser questionado é até onde vai esse direito.

Porque uma coisa é convencer.

Outra, bem diferente, é pressionar.

E quando a política passa a funcionar pela lógica do “apoie nosso projeto ou perderá nossos apoios em outros estados”, a discussão deixa de ser sobre convergência e passa a ser sobre poder.

Pernambuco merece mais do que isso.

Merece uma eleição em que cada projeto político possa ser apresentado aos eleitores. Merece debate, confronto de ideias e liberdade para que o eleitor decida qual caminho deseja seguir.

João Campos deve vencer ou perder pelo voto.

Ivan Moraes deve vencer ou perder pelo voto.

Raquel Lyra deve vencer ou perder pelo voto.

Não por acordos de cúpula.

Não por ameaças de retaliação.

Não por intervenções partidárias.

A democracia não deveria funcionar como uma mesa de negociação onde alguns partidos decidem previamente quem pode ou não chegar às urnas.

Se o PSB acredita que João Campos é o melhor projeto para Pernambuco, que dispute a eleição e convença o eleitor.

É disso que se trata uma democracia.

E talvez seja exatamente essa a melhor resposta para toda essa pressão: deixem o eleitor decidir.

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