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Eleições 2026 têm propostas sufocadas por crise e redes

Eleições 2026 enfrentam crise institucional e disputa nas redes, enquanto propostas perdem espaço em uma campanha marcada por vídeos curtos.


Eleições 2026 têm debate sufocado por crise e redes
Presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Samira de Castro. Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil


A reta final das Eleições 2026 está sendo marcada por uma combinação que preocupa quem acompanha a qualidade do debate público: de um lado, uma crise político-institucional que domina o noticiário; de outro, uma comunicação eleitoral cada vez mais adaptada à lógica das redes sociais, com vídeos curtos, cortes, viralização e disputa permanente pela atenção.

É esse cenário que está no centro de uma entrevista publicada nesta terça-feira (15) pela Agência Brasil. A conversa discute como a cobertura concentrada nas crises e a transformação das campanhas em produtos de comunicação rápida podem empurrar para segundo plano justamente aquilo que deveria orientar uma eleição: propostas, programas de governo e os problemas concretos enfrentados pela população.

A entrevista é com a presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Samira de Castro, que chama de “tiktokização” o processo de superficialização da comunicação eleitoral. Para ela, a cobertura jornalística precisa ir além da repercussão de declarações e acontecimentos imediatos e recuperar uma agenda capaz de discutir os desafios econômicos, sociais, ambientais e geopolíticos do país.

A crítica ganha peso porque não se limita ao comportamento das campanhas nas redes. Ela questiona também o funcionamento da própria agenda jornalística em períodos de crise: como cobrir acontecimentos institucionais de grande relevância sem permitir que eles ocupem praticamente todo o espaço destinado à discussão eleitoral?

Uma entrevista que expõe um problema maior

A entrevista coloca em evidência uma contradição das Eleições 2026. Quanto mais intensa é a disputa pela atenção do público, maior parece ser a dificuldade de manter no centro do debate assuntos que exigem tempo, comparação e explicação.

Crises institucionais possuem uma dinâmica própria. Cada novo fato gera reação, cada declaração produz uma resposta e cada episódio pode alimentar horas de cobertura e milhares de publicações nas redes. Já uma proposta de governo exige outra lógica: é necessário explicar objetivos, custos, prioridades, mecanismos de execução e possíveis consequências.

O resultado é uma competição desigual pela atenção do eleitor.

A entrevista também chama atenção para o chamado jornalismo declaratório, modelo baseado principalmente na reprodução de declarações e reações dos envolvidos. Na avaliação apresentada pela Fenaj, esse formato pode transformar a cobertura em uma sucessão de “quem disse o quê”, sem necessariamente ajudar o público a compreender as questões estruturais que estão por trás dos conflitos.

A “tiktokização” vai além do TikTok

A expressão utilizada na entrevista não deve ser entendida apenas como uma crítica a uma plataforma específica. O termo representa uma mudança mais ampla na comunicação política.

Campanhas passaram a produzir conteúdos pensando em poucos segundos de atenção. Uma fala precisa funcionar como corte. Uma proposta precisa virar vídeo. Um debate precisa gerar trechos compartilháveis. Uma disputa política pode ser transformada em uma sequência de frases capazes de circular isoladamente.

Esse modelo tem vantagens. Ele aproxima candidatos de públicos que não acompanham necessariamente os meios tradicionais e permite que informações políticas circulem com rapidez.

O problema surge quando a lógica do formato começa a limitar a complexidade do conteúdo.

Uma discussão sobre mudanças climáticas, por exemplo, envolve políticas públicas, planejamento urbano, infraestrutura, produção agrícola, energia e adaptação a eventos extremos. Reduzi-la a uma frase de efeito pode facilitar a circulação, mas não necessariamente ajuda o eleitor a compreender o problema.

É nesse ponto que a crítica apresentada na entrevista ganha dimensão maior: não se trata de escolher entre mídia tradicional e redes sociais, mas de impedir que a velocidade substitua a profundidade.

A crise institucional também mudou a agenda

A outra questão levantada pela entrevista é a concentração da atenção na crise envolvendo instituições da República.

Os acontecimentos relacionados ao Poder Judiciário, ao caso Master e às disputas envolvendo autoridades passaram a ocupar espaço expressivo no noticiário e nas redes. A relevância desses fatos justifica a cobertura jornalística, mas a própria intensidade da crise cria um efeito colateral para a campanha: outros assuntos têm dificuldade para competir pela atenção.

Essa preocupação também aparece em manifestações de outras entidades ouvidas sobre o cenário eleitoral. Representantes da sociedade civil apontaram que ciência, desenvolvimento nacional, clima e planejamento de longo prazo perderam espaço diante da crise institucional.

A questão, portanto, não é deixar de cobrir a crise. É evitar que a crise seja transformada na única agenda eleitoral disponível.

O alerta histórico da Federação Nacional dos Jornalistas

A posição apresentada na entrevista também precisa ser compreendida à luz da atuação da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

A entidade representa jornalistas brasileiros e historicamente atua em defesa da valorização profissional, da liberdade de imprensa e do jornalismo como instrumento de interesse público. Em 2025, ao assumir novamente a presidência da entidade, Samira de Castro colocou entre as prioridades da gestão a defesa da democracia, a valorização profissional e a sustentabilidade do jornalismo.

Em 2026, a Fenaj também passou a integrar oficialmente o Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional, órgão previsto na Constituição para assessorar o Legislativo em temas relacionados à comunicação social. A própria entidade destacou, na ocasião, que sua participação ocorre em um período de profundas transformações no ecossistema da comunicação.

É dentro dessa trajetória que a entrevista deve ser compreendida. A preocupação apresentada agora não é apenas com uma campanha eleitoral específica, mas com a capacidade do jornalismo de continuar exercendo sua função em um ambiente dominado por plataformas digitais, inteligência artificial, desinformação e disputa pela atenção.

O problema não é apenas das campanhas

A crítica também atinge os próprios meios de comunicação.

Os veículos jornalísticos passaram a competir pelo mesmo espaço digital ocupado por campanhas, influenciadores e produtores independentes. Nesse ambiente, audiência, compartilhamentos e tempo de permanência tornaram-se elementos importantes para a sobrevivência econômica das empresas de comunicação.

Isso cria uma tensão permanente.

O jornalismo precisa alcançar o público onde ele está, mas não pode abandonar os critérios que justificam sua existência: apuração, verificação, diversidade de fontes, transparência e responsabilidade editorial.

A entrevista chama atenção justamente para esse limite. A imprensa precisa cobrir aquilo que mobiliza a sociedade, mas também tem a responsabilidade de trazer para o debate aquilo que ainda não mobilizou a maioria, mas será determinante para o futuro do país.

O que fica fora da disputa também importa

Entre os assuntos apontados na entrevista estão a crise climática, a exploração das terras raras e a atração de data centers. São temas que envolvem decisões estratégicas sobre economia, energia, tecnologia, infraestrutura e soberania.

A dificuldade é que nenhum deles oferece necessariamente a mesma recompensa imediata de uma crise política ou de uma declaração controversa.

É aí que aparece o principal dilema das Eleições 2026: a agenda pública deve ser definida apenas pelo que consegue gerar maior audiência ou também por aquilo que terá maior impacto sobre a vida dos brasileiros nos próximos anos?

A resposta passa pelo papel dos candidatos, mas também pelo jornalismo e pelo próprio eleitor.

Uma eleição não pode ser medida apenas pelo que viraliza

O ambiente digital não vai desaparecer da política. Pelo contrário. As redes já são parte permanente das campanhas e da relação entre candidatos e eleitores.

A questão é saber se elas serão utilizadas apenas como ferramentas de mobilização ou se também poderão servir para explicar projetos, comparar propostas e ampliar o acesso da população às informações necessárias para uma escolha consciente.

A entrevista publicada pela Agência Brasil coloca essa discussão no centro da campanha de 2026. Mais do que uma crítica ao formato dos vídeos curtos, ela levanta uma questão essencial: se tudo precisa viralizar para receber atenção, quais assuntos importantes ficarão de fora simplesmente porque não cabem na lógica da viralização?

Essa talvez seja uma das perguntas mais relevantes para o jornalismo e para o eleitor nesta reta final das Eleições 2026.

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