“Me olvidé de vivir”… e de ouvir as mulheres
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| Última turnê de Julio Iglesias. Foto: Eamonn McCormack |
Julio Iglesias, poder masculino e o silêncio que protege ídolos
Durante décadas, Julio Iglesias foi apresentado como o arquétipo do amante latino. Suas músicas embalaram gerações com promessas de amor intenso, dor romântica e entrega total. Mas há algo profundamente incômodo quando se observa a distância entre o personagem público e as acusações recorrentes de exploração emocional e abuso sexual que orbitam sua trajetória. O incômodo não está apenas nas denúncias, está na forma como elas são sistematicamente neutralizadas.
Este texto não pretende condenar judicialmente ninguém. Pretende algo mais básico e talvez mais ameaçador para o status quo: questionar o mito.
O preço de denunciar homens intocáveis
Na perspectiva feminista, não há nada de surpreendente na dificuldade de mulheres denunciarem figuras como Julio Iglesias. Quando um homem concentra fama global, fortuna e relações políticas sólidas, a denúncia deixa de ser apenas um relato de violência e passa a ser um enfrentamento direto a uma rede de poder.
O roteiro é sempre o mesmo: mulheres são desacreditadas, suas motivações questionadas, seus relatos relativizados. Já o ídolo recebe o benefício da dúvida infinita. Não é coincidência é estrutura.
Dinheiro, prestígio e blindagem
Julio Iglesias construiu uma das maiores fortunas da indústria musical. Essa riqueza não existe no vazio. Ela cria zonas de silêncio, produz cumplicidades e transforma escândalos em “boatos”. A mídia comercial, muitas vezes dependente do acesso a grandes nomes, prefere a reverência ao confronto.
O romantismo vende. A crítica, nem tanto.
Conservadorismo e alianças políticas
Outro elemento raramente discutido é a proximidade histórica de Iglesias com setores conservadores da política espanhola, incluindo figuras da direita e da extrema direita. Em ambientes onde a violência de gênero é frequentemente relativizada e o feminismo tratado como ameaça, não surpreende que ídolos masculinos sejam protegidos como patrimônio cultural.
Não se trata de teoria conspiratória, mas de leitura política: redes de poder se protegem.
Origem, privilégio e impunidade simbólica
Filho de um médico influente, criado em um ambiente de elite, Julio Iglesias nunca foi um estranho. Seu pai teve vínculos com círculos próximos ao franquismo, um regime que naturalizou o autoritarismo, o silenciamento e a subordinação das mulheres.
Esse contexto não é detalhe biográfico é chave interpretativa. Privilégios acumulados ao longo da vida ajudam a explicar por que alguns homens atravessam décadas sem jamais serem realmente confrontados.
O romantismo como máscara
Há uma ironia amarga em letras como “Soy un truhán ( sem vergonha), soy un señor”. O homem que se reconhece falho, mas sempre encantador, sempre digno de perdão. A cultura pop normalizou esse arquétipo: o homem que machuca, mas canta bonito; que erra, mas é gênio; que domina, mas chama de amor.
O feminismo rompe com essa narrativa. Amor não silencia. Fama não absolve. Arte não apaga violência.
Questionar não é cancelar
Criticar Julio Iglesias não é um ataque à música, nem um exercício de moralismo. É um gesto político e ético. Ídolos também devem ser interrogados, especialmente quando há relatos de mulheres que afirmam ter vivido algo muito distante do romance vendido ao público.
Enquanto a sociedade continuar protegendo homens poderosos em nome da nostalgia, continuará falhando com as mulheres que ousam falar.
Talvez Julio tenha se esquecido de viver .
A sociedade, no entanto, não pode continuar se esquecendo de ouvir as mulheres.

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