Datafolha mostra queda de 5 pontos de João Campos e crescimento igual de Raquel Lyra desde outubro na disputa pelo governo de Pernambuco.
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| Avanço de Raquel Lyra e retração de João Campos marcam nova fase da disputa. Foto: Janaína Pepeu |
A leitura isolada de uma pesquisa eleitoral quase sempre empobrece o debate. É na série histórica que os números ganham sentido político. No caso da mais recente Datafolha para o Governo de Pernambuco, divulgada nesta semana, os dados revelam mais do que uma fotografia momentânea: apontam uma tendência de acomodação do eleitorado, marcada pela redução da vantagem de João Campos e pelo crescimento gradual de Raquel Lyra.
No levantamento atual, João Campos aparece com 47% no cenário estimulado, enquanto Raquel Lyra soma 35%. A diferença ainda é confortável para o prefeito do Recife, mas já não tem a mesma dimensão observada em pesquisas anteriores do próprio instituto.
Em outubro de 2025, levantamento do Datafolha amplamente divulgado na imprensa local indicava João Campos com 52%, contra 30% de Raquel Lyra no cenário estimulado. Na comparação direta, os números atuais mostram uma queda de 5 pontos percentuais para João Campos e um crescimento de 5 pontos para a governadora. O resultado prático é uma redução de 10 pontos na distância entre os dois, movimento estatisticamente relevante quando observado ao longo do tempo.
Esse deslocamento não ocorre por acaso. Ele coincide com a consolidação do governo Raquel Lyra, maior exposição institucional e ampliação da presença da governadora no debate público estadual. Ao mesmo tempo, indica que João Campos, embora siga liderando, começa a enfrentar o desgaste natural de quem lidera cedo demais em um ciclo eleitoral ainda longo.
A série histórica, portanto, desmonta a narrativa de estabilidade absoluta. O que se vê é um ajuste progressivo do eleitorado, especialmente quando se cruza o cenário estimulado com o espontâneo. No voto espontâneo atual, Raquel Lyra aparece com 24%, contra 18% de João Campos, ainda que dentro de um quadro de possível empate técnico. Mais relevante do que a liderança numérica é o fato de que 39% dos eleitores não souberam ou não responderam.
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| Números mostram que liderança de João Campos já foi mais ampla. Foto: Amado Mundo |
Esse dado é central para entender o movimento da curva histórica. Em pesquisas anteriores, o voto espontâneo já indicava alto grau de indefinição, mas agora passa a mostrar uma governadora crescendo na lembrança imediata, enquanto o principal adversário ainda depende mais do estímulo para converter intenção em preferência.
O fenômeno sugere que João Campos tem desempenho mais forte quando o eleitor é convidado a comparar nomes e projetos. Já Raquel Lyra se beneficia do peso institucional do cargo, o que fortalece sua presença espontânea. Ao longo do tempo, isso pode produzir um efeito cumulativo: quanto mais a governadora transforma gestão em narrativa política, maior tende a ser sua consolidação no voto direto.
Outro aspecto importante da série histórica é o comportamento do eleitor indeciso. O fato de quase quatro em cada dez entrevistados não citarem nenhum nome no cenário espontâneo indica que o eleitor pernambucano ainda não entrou plenamente no “modo eleição”. Isso amplia o peso das tendências de médio prazo e torna a trajetória dos números mais importante do que a liderança pontual.
Sob essa ótica, a queda de João Campos não deve ser lida como perda abrupta de apoio, mas como retração dentro da margem de acomodação natural do eleitorado. Da mesma forma, o crescimento de Raquel Lyra não significa virada iminente, mas aponta capacidade de expansão, algo fundamental para quem ocupa o segundo lugar.
A história recente das pesquisas em Pernambuco mostra que eleições estaduais costumam se definir tardiamente, com forte influência de alianças, estrutura partidária e avaliação de governo. A série histórica do Datafolha indica que o jogo, que parecia mais desequilibrado meses atrás, caminha para um cenário de maior competitividade.
Em síntese, a pesquisa atual não anuncia uma mudança de liderança, mas sinaliza algo igualmente importante: a vantagem de João Campos já foi maior, e Raquel Lyra vem reduzindo essa distância de forma consistente. Em política, tendências importam tanto quanto números absolutos. E, neste momento, a tendência é de aproximação — ainda longe de um ponto de virada, mas suficientemente clara para reposicionar o debate eleitoral em Pernambuco.
Mais do que quem lidera hoje, a série histórica aponta para uma disputa que começa a sair da inércia e entrar, gradualmente, em um terreno mais competitivo. É nesse movimento, e não apenas na fotografia do momento, que está o verdadeiro dado político da pesquisa.


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