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​O Banquete dos Cínicos: Como os partidos usam discursos libertários para blindar o poder branco e masculino

O Teatro dos Vampiros: A farsa da renovação nas entranhas partidárias

Mulher negra com expressão pensativa em camarote de teatro antigo, observando palco vazio e escuro. Ela segura um smartphone com texto de crítica social na tela. Cena simbólica sobre os bastidores e conchavos na política partidária.
 Foto: Fala News 
       

​Por trás das cortinas aveludadas dos discursos inflamados sobre justiça social, igualdade e mudança, a política partidária brasileira encena, diariamente, um espetáculo grotesco. É uma peça de aparências, onde atores sobem ao palanque com figurinos libertários, mas, nos bastidores, alimentam-se da perpetuação do status quo. Como na clássica metáfora gótica, os partidos políticos transformaram-se no verdadeiro Teatro dos Vampiros: um lugar onde a energia vital do desejo de mudança popular é sugada para alimentar as velhas e carcomidas estruturas do poder.

​Para o público externo, o roteiro é impecável. Promete-se a ruptura, a inclusão e o fim dos privilégios. No entanto, quando as portas das salas de reunião se fecham e os microfones são desligados, as máscaras caem. O que se vê é um pacto de sobrevivência oligárquica.

​O Banquete dos Iguais: A blindagem da hegemonia branca e masculina

​Nas convenções e painéis públicos, a diversidade é tratada como a joia da coroa. Mulheres, negros e minorias representativas são colocados na linha de frente das fotografias oficiais para ilustrar panfletos de campanha. Mas a farsa se revela na distribuição real do poder e dos recursos.

​Quando chega o momento de definir as cabeças de chapa e as candidaturas prioritárias, o pragmatismo de conveniência dita as regras. Os conchavos de bastidores blindam, quase que invariavelmente, as candidaturas de homens brancos, herdeiros do capital político tradicional.

​As lideranças emergentes, que trazem na pele e na história as pautas urgentes da periferia e das minorias, são empurradas para a base da pirâmide, servindo apenas como puxadoras de voto para garantir o quociente eleitoral dos mesmos de sempre. Os vampiros da política têm pavor do novo; eles precisam de corpos dóceis que perpetuem suas linhagens de privilégios.

​A Linha de Sangue do Orçamento: Escassez para o povo, fartura para os privilégios

​Uma das encenações mais cínicas desse teatro é o argumento da "responsabilidade fiscal" e da "ausência de orçamento". Quando a pauta exige o enfrentamento de quaisquer desigualdades históricas, o financiamento de políticas públicas para mulheres ou o investimento pesado em saneamento e educação periférica, o discurso é uníssono: não há verba. Cortam-se os recursos da carne social sob o pretexto de que a máquina pública está colapsada.

​No entanto, a anemia orçamentária desaparece magicamente quando os interesses privados e corporativos entram em pauta. Para emendas parlamentares de autoproteção, fundos eleitorais bilionários e reajustes de subsídios das próprias elites políticas, as fontes de dinheiro tornam-se inesgotáveis.

​Há um medo generalizado de romper com o modelo de privilégios porque os parlamentares não legislam para a pólis; legislam em causa própria. Como sanguessugas orçamentárias, eles drenam a riqueza coletiva para irrigar os microrganismos partidários e os segmentos econômicos que financiam suas permanências no topo.

​Legislar em Causa Própria: O poder pelo poder

​A construção partidária atual não visa a transformação social; visa a manutenção do controle. Nos espaços micro-orgânicos dos diretórios, cada aliança, cada fusão e cada federação é desenhada para que nada mude. O objetivo final do legislador inserido nessa lógica não é romper padrões, mas garantir que o seu grupo de interesse continue com o monopólio da caneta.

​O parlamento, que deveria ser a caixa de ressonância dos anseios populares, funciona como uma engrenagem de auto-higienização. Leis são moldadas para proteger segmentos específicos, blindar aliados de investigações e sufocar qualquer tentativa de reforma política que dê voz real à base da sociedade. Fora dali, o discurso é de vanguarda. Por dentro, a prática é medieval.

​Quando as Luzes se Apagam

​Assistir a essa dinâmica nos faz lembrar da melancólica precisão de Renato Russo na canção que dá nome a esta reflexão. Ao cantar sobre a desilusão com o sistema e a falta de perspectivas reais de mudança em uma estrutura corrompida, ele sintetizou o sentimento de quem enxerga através do verniz partidário:

​"E nos guardamos para o amanhã / Que nunca chega / Porque o hoje é nosso balanço / E o nosso pior castigo."


​Os partidos políticos transformaram o "amanhã" da mudança em uma promessa eterna, um horizonte que recua a cada eleição. O "hoje" tornou-se o castigo de assistir aos mesmos personagens, com as mesmas práticas, sugando a esperança de uma nação enquanto aplaudem a si mesmos no palco de sua própria farsa. Enquanto a sociedade aceitar passivamente o roteiro desse teatro, continuaremos sendo as vítimas ideais de um sistema que se alimenta da nossa própria passividade.

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