O Decoro como Arma de Segregação: Quando a Inteligência Negra se Torna Insuportável para a Branquitude de Gabinete
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| Renato Freitas em seus brilhantes discursos. Foto: Reprodução ALEP |
A Assembleia Legislativa do Paraná assinou seu atestado de hipocrisia mais vergonhoso. Em um estado onde as paredes das instituições costumam abafar sussurros de corrupção sistêmica e esquemas de desvios que atravessam décadas, a moralidade só decidiu dar as caras para punir um único alvo: Renato Freitas. O deputado, mestre em Direito e voz dissonante, foi cassado sob o manto da quebra de decoro. Este é o eufemismo favorito da elite política para silenciar quem não aceita o papel de subalterno.
É um fenômeno que ultrapassa a política partidária. Trata-se de aparofobia e racismo institucional em estado puro. A presença de um homem negro e letrado, que domina os códigos jurídicos e não se curva ao rito da subserviência, causa um curto-circuito no sistema. Para a ALEP, o decoro não é mantido com mãos limpas, mas com o silêncio absoluto dos oprimidos.
Um Histórico de Impunidade para os Iguais
O que torna a cassação de Freitas uma aberração jurídica é o contraste. Esta mesma Casa Legislativa, historicamente leniente com denúncias graves de corrupção, nunca encontrou motivos para cassar mandatos de parlamentares envolvidos em escândalos financeiros ou abusos de poder. No Paraná, o crime de colarinho branco é um detalhe contornável. Já a insurgência de um corpo negro no espaço de poder é tratada como um erro sistêmico que precisa ser deletado.
Renato Freitas acumulou denúncias ao longo de seu mandato não por desvios de verba, mas por apontar o dedo para as feridas abertas do estado. Suas críticas à violência policial e ao sistema de justiça seletivo fizeram dele um alvo não apenas do parlamento, mas de uma perseguição coordenada que envolveu as polícias e outras instituições do aparato estatal.
A Solidão de um Intelectual no Front: Entre Fanon e a Realidade Cruel
Como ensinou Frantz Fanon, "onde a lei é o chicote do mestre, o corpo que não se curva é sempre o culpado". As palavras de Fanon ecoam com precisão cirúrgica no caso de Freitas. Quando a lei é usada de forma seletiva para manter privilégios, qualquer gesto de altivez negra é interpretado como crime. O sistema paranaense não tolera a existência de um parlamentar que conhece a lei tão bem quanto seus algozes, mas que a usa para libertar, e não para oprimir.
Fanon também afirmava que "o negro não é um homem; é um homem negro". Essa frase revela a essência do que ocorre na ALEP: para seus pares, Freitas foi despido de sua condição de mestre em Direito e representante eleito. Ele foi reduzido a um estereótipo, a uma ameaça que precisa ser neutralizada. Essa perseguição não parou na tribuna. O ódio transbordou para sua vida privada, chegando ao ponto abjeto de ataques contra seu próprio cão, um símbolo da tentativa de desumanização total e de quebra de sua resistência emocional.
Nesse cenário, surge a face mais amarga da política: a solidão partidária. Mesmo dentro de sua própria casa, o apoio muitas vezes foi comedido e protocolar, desprovido da fúria necessária para enfrentar uma estrutura que mastiga lideranças populares. Freitas é um homem que luta contra o mundo enquanto olha para trás e vê, muitas vezes, o vazio daqueles que deveriam estar ao seu lado na trincheira.
Do Paraná para Brasília: O Medo que o Congresso Nacional Tem de Renato
A tentativa de cassação não é um fim, mas uma estratégia de contenção. Ao colocar seu nome como pré-candidato a deputado federal, Renato Freitas eleva o tom e o alcance de sua denúncia. O sistema paranaense tentou podar a árvore, mas acabou por espalhar as sementes de uma indignação que agora mira o Congresso Nacional.
A elite que o persegue sabe que um Renato Freitas em Brasília é um megafone capaz de ecoar as injustiças do Sul para o mundo inteiro. Ele não é apenas um político. Ele é o sintoma de que a democracia brasileira ainda é um condomínio fechado que tenta, a todo custo, impedir que os donos da terra retomem seus lugares à mesa.
O veredito da história não será escrito por quem votou pela cassação, mas por quem resiste à docilização dos corpos e à mordaça da branquitude legislativa. Renato Freitas segue incomodando os que dormem sobre privilégios e acordam com o pesadelo da igualdade real.

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