Crise na Bolívia: Marchas, bloqueios e pressões por impeachment cercam o governo de Rodrigo Paz
![]() |
| Indígenas, sindicalistas e trabalhadores em La Paz dia 18 de Maio pela renúncia de Rodrigo Paz. |
A Bolívia enfrenta um dos cenários políticos e sociais mais conturbados de sua história recente. Com apenas seis meses de mandato, o presidente de centro-direita Rodrigo Paz Pereira vê seu governo ser fustigado por uma onda avassaladora de manifestações, greves e bloqueios de rodovias que paralisaram o país e isolaram a capital administrativa, La Paz. O que começou como uma contestação setorial contra reformas econômicas e escassez de recursos transformou-se em um clamor generalizado que exige a renúncia ou o impeachment do chefe de Estado.
Para compreender a atual crise na Bolívia, é preciso analisar o emaranhado de promessas governamentais não cumpridas, o descontentamento com a economia e o profundo sentimento de exclusão por parte de setores históricos, como as mulheres e as populações indígenas, que acusam a gestão atual de romper com as bases do Estado Plurinacional.
O estopim do conflito: Das promessas econômicas à realidade das ruas
Rodrigo Paz assumiu a presidência da República em novembro de 2025, quebrando um ciclo de quase duas décadas de governos alinhados ao Movimento ao Socialismo (MAS). Eleito sob a promessa de reaquecer a economia através de uma agenda de austeridade, atração de investimentos e reaproximação diplomática com potências ocidentais, o presidente rapidamente colidiu com as demandas da base trabalhadora e camponesa.
A faísca inicial acendeu-se em abril com a introdução da chamada Lei 1720, uma legislação agrária que permitia a hipoteca de terras comunitárias. Grupos de camponeses e produtores rurais viram na medida uma ameaça direta à soberania de suas propriedades. Embora o Executivo tenha recuado e anulado a lei em 13 de maio em uma tentativa de conter os ânimos, a concessão foi considerada tardia. A essa altura, as estradas já estavam tomadas e outras categorias haviam aderido ao movimento.
Trabalhadores do setor de transportes iniciaram paralisações em protesto contra a crônica escassez de combustível e a inflação que corrói o poder de compra da moeda local. Professores urbanos e mineiros cooperativistas associados à Central Operária Boliviana (COB) somaram-se às marchas, exigindo reajustes salariais e reformas trabalhistas profundas. A resposta do governo, que inicialmente classificou os manifestantes como "vândalos" e acusou a oposição de orquestrar uma tentativa de golpe de Estado, inflamou ainda mais os protestos.
O racha com o Estado Plurinacional e o resgate da força histórica
Um dos pontos mais sensíveis da atual conjuntura boliviana reside na pauta da representatividade. Lideranças de organizações camponesas e indígenas afirmam que o governo de Rodrigo Paz promove um desmonte gradual das estruturas do Estado Plurinacional — modelo instituído pela Constituição de 2009 que reconhece a autonomia e os direitos das 36 nações indígenas do país.
Críticos apontam que o atual gabinete ministerial carece de diversidade, exibindo uma exclusão acentuada de mulheres e de representantes das comunidades originárias nas tomadas de decisão. Movimentos como os Ponchos Rojos (militantes indígenas das terras altas) e a Federação de Trabalhadores Camponeses "Tupak Katari" de La Paz denunciam que as políticas neoliberais da gestão representam um retrocesso social. Diante desse cenário, manifestantes resgatam a memória e a força histórica de levantes populares anteriores da região andina — traçando paralelos com a Guerra do Gás em 2003 e a crise de 2019 — para legitimar a resistência civil nas ruas.
Por outro lado, o governo defende suas diretrizes argumentando que as reformas são indispensáveis para corrigir os desequilíbrios fiscais herdados de administrações passadas. Aliados do presidente sustentam que os protestos são instrumentalizados politicamente por figuras como o ex-presidente Evo Morales, que permanece em sua base no Chapare e pediu publicamente a antecipação das eleições gerais.
Sob cerco: Ruas bloqueadas, desabastecimento e resposta militar
A dinâmica dos protestos escalou significativamente na segunda metade de maio. O uso de táticas de bloqueio sufocou o comércio doméstico. Mais de 3.500 barreiras físicas foram erguidas nas rodovias bolivianas, retendo milhares de caminhões de carga e gerando prejuízos estimados em cerca de 50 milhões de dólares por dia. Cidades populosas como El Alto e a própria La Paz começaram a sofrer com o desabastecimento severo de alimentos básicos, medicamentos e oxigênio hospitalar.
No centro de La Paz, os confrontos diários entre forças de segurança e manifestantes transformaram as avenidas em cenários de forte tensão, marcados por explosões de cartuchos de dinamite de uso mineiro e pelo uso recorrente de gás lacrimogêneo pela polícia. Diante da impossibilidade de manter a segurança na sede governamental, o presidente Rodrigo Paz transferiu temporariamente suas atividades para Sucre, a capital constitucional da Bolívia, em 25 de maio. Como um gesto simbólico para mitigar o desgaste, o mandatário anunciou o corte pela metade de seu próprio salário e dos vencimentos de seus ministros.
A gravidade da situação forçou uma reação drástica do Poder Legislativo. O Congresso boliviano aprovou, por ampla maioria, a revogação de dispositivos legais que limitavam o poder presidencial para decretar medidas de exceção. Com isso, o Executivo obteve o aval jurídico para decretar estado de emergência e mobilizar as Forças Armadas para desobstruir estradas e reestabelecer os chamados "corredores humanitários", uma decisão que foi aplaudida por setores empresariais locais, mas duramente criticada por defensores dos direitos humanos, sob o argumento de que a medida eleva o risco de violência estatal.
Perspectivas e o tabuleiro internacional
O cenário internacional reflete a polarização que divide a Bolívia. Governos vizinhos alinhados à direita e ao centro-direita, como a Argentina e o Chile, além dos Estados Unidos, manifestaram apoio formal à legitimidade constitucional de Rodrigo Paz, enviando ajuda humanitária e condenando as tentativas de desestabilização. Em contrapartida, as declarações de apoio do presidente da Colômbia, Gustavo Petro, aos movimentos sociais bolivianos desencadearam uma severa crise diplomática que culminou na expulsão mútua de embaixadores entre La Paz e Bogotá.
A resolução do impasse permanece incerta. Embora o governo tenha sinalizado a intenção de criar um conselho consultivo para dialogar com indígenas, camponeses e trabalhadores, a exigência de renúncia ou a abertura de um processo de impeachment continuam fixadas como condições inegociáveis pelas bases mobilizadas nas ruas. A Bolívia encerra o primeiro semestre de 2026 imersa em um cabo de guerra político e social cujos desfechos redesenham o futuro da governabilidade e da estabilidade na América do Sul.

0 Comentários