Debate em Pernambuco teve confronto entre Raquel Lyra e João Campos, acusações, bets, segurança, água e gestão pública no centro da disputa.
![]() |
| Raquel Lyra (PSD), João Campos (PSB) e Ivan Moraes (PSOL) participaram de debate nesta quinta-feira (17) Foto: Reprodução/YouTube/TV Nova |
O segundo Debate em Pernambuco entre Raquel Lyra, João Campos e Ivan Moraes aconteceu no Centro de Convenções do Senac, em Caruaru, com organização da Rádio Cultura do Nordeste, Diario de Pernambuco e TV Nova Nordeste.
O encontro teve quatro blocos de perguntas e confrontos, além das considerações finais. O formato favoreceu o embate direto entre os candidatos e criou condições para que temas já presentes na campanha voltassem ao centro da disputa.
O resultado foi uma noite em que assuntos administrativos dividiram espaço com acusações políticas. Entre os principais pontos estiveram os chamados "gabinetes do ódio", o episódio envolvendo material de campanha, bets, segurança pública, concessão da Compesa e a relação da governadora com a antiga empresa de ônibus Logo Caruaruense.
Raquel e João transformam acusações em eixo central
A principal característica do Debate em Pernambuco foi a intensidade do confronto entre Raquel Lyra e João Campos.
Logo no início, Raquel levou para o debate o episódio ocorrido no Recife envolvendo material de sua campanha e pessoas que, segundo sua versão, estariam ligadas ao PSB. A governadora afirmou que o caso ultrapassou os limites da disputa eleitoral e defendeu a apuração pelas autoridades.
João Campos pediu direito de resposta e negou responsabilidade do PSB pelo episódio. O candidato também voltou a mencionar denúncias relacionadas a uma suposta estrutura de ataques virtuais que, segundo ele, estaria ligada ao entorno do governo estadual.
As acusações apresentadas pelos dois lados não devem ser tratadas como fatos definitivamente comprovados apenas a partir das declarações feitas no debate. Os episódios mencionados estão relacionados a disputas e investigações que precisam seguir seus respectivos procedimentos de apuração.
Bets levam o confronto para a política econômica
Outro momento de forte confronto ocorreu quando Raquel questionou João Campos sobre a política tributária adotada durante sua administração na Prefeitura do Recife em relação às empresas de apostas.
A governadora associou as bets a problemas sociais e ao crime organizado e criticou a presença dessas empresas em eventos e espaços públicos.
João respondeu que sua posição pessoal é contrária às apostas, mas defendeu a mudança tributária como estratégia de arrecadação após a regulamentação federal do setor. Segundo o candidato, a alteração aumentou significativamente a receita municipal proveniente da atividade.
O confronto ganhou novo contorno quando João questionou Raquel sobre uma advogada que, segundo ele, teria relação com uma empresa de apostas. A governadora classificou a associação apresentada pelo adversário como irresponsável.
O episódio mostrou como a discussão sobre bets deixou de ser apenas uma questão tributária. No debate, ela passou a envolver segurança, arrecadação pública, publicidade, relações políticas e responsabilidade administrativa.
Segurança pública vira vitrine de gestão
A segurança foi outro eixo importante do encontro.
Raquel utilizou o espaço para defender os resultados de sua administração e afirmou que o Estado contratou mais de 8 mil agentes de segurança, além de realizar investimentos em equipamentos e estrutura.
João Campos, por sua vez, questionou o desempenho do governo estadual e cobrou resultados em delegacias, unidades de saúde e outras estruturas públicas.
A discussão revelou uma estratégia recorrente da campanha: enquanto Raquel procura apresentar números e entregas da atual gestão, João concentra parte de seus ataques naquilo que considera ausência de novas obras e equipamentos estaduais.
Para o eleitor, a diferença entre as narrativas passa pela comparação entre indicadores, entregas efetivamente realizadas e compromissos assumidos para o próximo governo.
Compesa expõe visões diferentes sobre o papel do Estado
A concessão parcial da Compesa também entrou no debate.
Raquel defendeu o modelo argumentando que Pernambuco precisa de investimentos elevados para universalizar o abastecimento de água e o saneamento e que o Estado não teria capacidade financeira para realizar sozinho todo o volume necessário.
Ivan Moraes apresentou uma crítica ao processo e questionou aspectos relacionados ao consórcio vencedor, enquanto o debate também colocou em evidência a situação histórica do abastecimento de água em Pernambuco.
O tema é especialmente relevante porque envolve uma das questões estruturais mais antigas do estado: a dificuldade de garantir água e saneamento de maneira regular para toda a população.
Nesse ponto, o debate saiu do campo exclusivamente eleitoral e chegou a uma discussão sobre modelo de gestão, capacidade de investimento e participação pública e privada.
Ivan Moraes tenta romper a polarização
Enquanto Raquel e João concentraram grande parte do confronto entre si, Ivan Moraes procurou construir uma terceira narrativa.
O candidato do PSOL questionou a trajetória política dos dois principais adversários e associou ambos a estruturas políticas anteriores do estado.
Em uma de suas intervenções, Ivan citou a relação de João Campos e Raquel Lyra com o governo de Paulo Câmara e argumentou que Pernambuco precisaria romper com modelos políticos que, segundo sua avaliação, se repetem no estado.
A estratégia colocou Ivan em uma posição de crítica simultânea aos dois adversários, tentando transformar a disputa entre Raquel e João em argumento para apresentar uma alternativa política.
Paulo Câmara reaparece no centro da disputa
A referência ao ex-governador Paulo Câmara teve importância estratégica.
João Campos foi chefe de gabinete durante o governo Paulo Câmara, enquanto Raquel Lyra também manteve relação política com o grupo que governou Pernambuco naquele período.
Ivan utilizou essa trajetória para questionar a ideia de que apenas um dos dois adversários poderia representar uma ruptura com administrações anteriores.
O episódio mostra como a memória política de Pernambuco voltou a ser utilizada como instrumento eleitoral. Em vez de discutir apenas o governo atual e o futuro, os candidatos passaram a disputar também a interpretação sobre o passado recente do estado.
Logo Caruaru leva vida empresarial para o palanque
Outro confronto envolveu a Logo Caruaruense, empresa de transporte que pertenceu à família de Raquel Lyra.
João Campos questionou a candidata sobre direitos trabalhistas relacionados à empresa. Segundo o candidato, houve problemas envolvendo trabalhadores e condenações na Justiça do Trabalho.
Raquel respondeu que deixou o quadro societário da empresa anos atrás, afirmou ter participação minoritária e negou ter participado da administração ou favorecido a companhia durante sua trajetória política.
O episódio é relevante porque desloca a disputa para além das gestões públicas e coloca no debate a trajetória empresarial dos candidatos e de suas famílias.
Como ocorre com outras acusações apresentadas durante o encontro, as afirmações precisam ser diferenciadas de fatos já comprovados por decisões ou documentos oficiais.
O debate acontece em uma eleição cada vez mais polarizada
O encontro ocorreu menos de três semanas antes do primeiro turno das eleições de 2026. João Campos e Raquel Lyra concentram o principal confronto pelo governo estadual, enquanto Ivan Moraes busca ampliar seu espaço na disputa.
O segundo debate entre os três repetiu uma característica já observada no primeiro encontro realizado em Caruaru: propostas para áreas como saúde, segurança e abastecimento aparecem ao lado de acusações relacionadas às trajetórias políticas dos candidatos.
A diferença, no entanto, esteve no peso dos episódios recentes da campanha. O conflito em torno de material eleitoral, ataques virtuais e relações políticas ocupou espaço significativo do programa.
A disputa também acontece fora dos debates
A campanha de 2026 tem sido marcada por judicializações e acusações entre grupos políticos.
Raquel Lyra tem afirmado ser alvo de ataques e acusações que ultrapassariam os limites da disputa eleitoral. João Campos, por outro lado, sustenta que vem sendo alvo de ataques virtuais e já levou questionamentos sobre uma suposta estrutura de disseminação de conteúdo político às autoridades.
O ponto central, jornalisticamente, é separar três níveis diferentes: o que os candidatos afirmam, o que foi formalmente denunciado e aquilo que já foi comprovado por investigação ou decisão judicial.
Essa distinção é fundamental para que o eleitor compreenda o debate sem transformar acusações eleitorais em fatos consumados.
O Debate em Pernambuco mostrou que a disputa pelo governo estadual entrou em uma fase de confronto mais intenso. Raquel Lyra e João Campos concentraram os principais embates, enquanto Ivan Moraes buscou questionar a polarização e apresentar uma alternativa aos dois grupos.
Bets, segurança pública, Compesa, ataques políticos, material de campanha e a Logo Caruaruense estiveram entre os temas que dominaram a noite. Ao mesmo tempo, propostas para saúde, abastecimento e gestão pública permaneceram no programa.
O que acontece agora é tão importante quanto o que foi dito no palco: as acusações continuarão sujeitas à apuração das autoridades, enquanto os candidatos deverão transformar as propostas apresentadas em compromissos concretos para a reta final da campanha.
A principal marca do segundo encontro foi, portanto, a ampliação do confronto. O eleitor pernambucano passa a receber não apenas discursos sobre o futuro do Estado, mas também versões concorrentes sobre o passado, as gestões anteriores e os episódios que vêm marcando a campanha de 2026.

0 Comentários