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O trágico fim de Ciro Gomes

De uma das vozes mais contundentes contra o bolsonarismo a aliado eleitoral do PL no Ceará, Ciro Gomes terminou sua mais recente batalha política diante de uma contradição que pode ser maior do que a própria derrota nas urnas

Ciro Gomes
Ciro Gomes perdeu a eleição no Ceará ao lado do Bolsonarismo. Foto: Evaristo Sá/AFP

Há derrotas eleitorais que encerram uma campanha. Outras encerram um ciclo político.

A derrota de Ciro Gomes para Elmano de Freitas no Ceará, em 4 de outubro de 2026, pode ser compreendida dentro dessa segunda categoria. Não apenas porque o ex-governador voltou a perder uma eleição, mas porque a campanha expôs uma transformação profunda na trajetória de um dos personagens mais complexos da política brasileira.

Ciro não chegou a esta eleição como um político qualquer.

Durante décadas, construiu sua identidade no campo democrático, com uma trajetória que passou pelo PSDB, PPS, PSB, PDT e, agora, novamente pelo PSDB. Foi prefeito de Fortaleza, governador do Ceará, ministro da Fazenda e ministro da Integração Nacional. Disputou quatro vezes a Presidência da República.

Em 2018 e 2022, foi candidato presidencial pelo PDT e se apresentou como uma alternativa à polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro.

A contradição é que o homem que passou anos atacando Bolsonaro e seu projeto político acabou, em 2026, disputando o governo do Ceará com o apoio do PL e de lideranças identificadas com o bolsonarismo.

E é justamente aí que começa o capítulo mais doloroso de sua trajetória.

O político que construiu sua identidade na crítica aos extremos

Ciro sempre teve uma característica rara na política brasileira: a disposição de confrontar adversários de diferentes campos.

Sua relação com o PT, que durante anos foi marcada por alianças e proximidade, transformou-se progressivamente em oposição. Ao mesmo tempo, ele construiu uma longa lista de críticas ao bolsonarismo.

Nas eleições presidenciais de 2018 e 2022, Ciro não apenas disputou contra Bolsonaro. Fez da crítica ao então presidente uma parte importante de seu discurso.

Em 2026, entretanto, a realidade eleitoral do Ceará produziu uma aproximação que poucos anos antes pareceria improvável.

A chapa de Ciro reuniu PSDB, PL, União Brasil, PP, DC e Avante. O vice foi Roberto Cláudio, enquanto o PL passou a integrar formalmente a aliança que buscava retirar o PT do comando do estado.

Não se trata, portanto, apenas de dizer que Ciro recebeu votos de eleitores bolsonaristas.

Ele construiu uma aliança eleitoral com forças políticas desse campo.

Essa diferença é fundamental.

A aliança que parecia pragmática virou parte do problema

Politicamente, a lógica era compreensível.

Ciro precisava construir uma frente capaz de enfrentar uma estrutura política que reunia Elmano de Freitas, Lula e Camilo Santana. O PL, por sua vez, precisava de uma candidatura competitiva para enfrentar o PT no Ceará.

O acordo atendia aos interesses dos dois lados.

Mas alianças eleitorais também produzem identidade.

Ao aceitar o apoio do PL e de lideranças bolsonaristas, Ciro passou a carregar uma contradição que seus adversários exploraram durante toda a campanha.

O problema não era simplesmente o apoio de um partido. Era a pergunta que inevitavelmente aparecia: como alguém que construiu parte de sua identidade política criticando Bolsonaro poderia agora depender politicamente do bolsonarismo para voltar ao governo do Ceará?

A própria direita percebeu essa contradição.

Reportagem de O POVO mostrou que havia resistência de setores bolsonaristas à aliança justamente pelo histórico de críticas de Ciro a Jair Bolsonaro. A decisão de apoiá-lo acabou sendo explicada, naquele campo, pelo cálculo de que ele seria uma alternativa competitiva contra o PT.

Era, portanto, uma aliança essencialmente eleitoral.

E eleições, às vezes, cobram o preço das alianças feitas apenas pelo cálculo do momento.

O caso André Fernandes já anunciava a mudança

A aproximação não começou em 2026.

Em 2024, Ciro e seu grupo político se aproximaram de André Fernandes, candidato do PL à Prefeitura de Fortaleza. Fernandes acabou derrotado por Evandro Leitão, do PT.

Aquele episódio foi um divisor de águas.

O que antes poderia ser interpretado como uma aproximação circunstancial tornou-se, dois anos depois, uma aliança formal entre Ciro e o PL.

O próprio Elmano transformou essa mudança em uma das principais linhas de ataque contra Ciro durante a campanha. Em entrevista ao UOL/Folha, chamou o adversário de "quinta coluna do bolsonarismo", associando sua mudança política ao apoio dado ao campo bolsonarista em Fortaleza.

A expressão é de Elmano, e deve ser tratada como tal. Mas a questão política colocada pelo adversário era real: Ciro ainda representava a alternativa independente que havia construído ao longo de décadas ou havia se tornado parte de uma frente anti-PT cada vez mais próxima da direita bolsonarista?

Essa foi uma das perguntas centrais da eleição.

O preço da contradição apareceu nas pesquisas

Ciro começou a disputa de 2026 em posição favorável.

Levantamentos divulgados durante a campanha chegaram a mostrar vantagem significativa sobre Elmano. Uma pesquisa Ipsos/Ipec de julho, por exemplo, apontava Ciro com 43% contra 31% de Elmano no primeiro turno.

Mas a vantagem desapareceu na reta final.

Segundo levantamento Datafolha citado pelo Metrópoles, Ciro tinha 52% dos votos válidos em agosto, contra 33% de Elmano. Na véspera da eleição, o cenário era de 47% para Ciro e 50% para Elmano. No mesmo período, a rejeição a Ciro teria passado de 21% para 29%.

É impossível atribuir uma eleição inteira a uma única variável.

Mas é igualmente difícil ignorar que a aliança com o bolsonarismo se tornou um dos principais temas da campanha e uma das principais armas utilizadas por seus adversários.

A derrota foi maior do que Ciro

O resultado eleitoral mostrou mais do que a derrota individual do ex-governador.

Elmano foi reeleito no primeiro turno. Ciro terminou atrás, depois de começar a campanha em vantagem nas pesquisas.

E a própria composição da chapa de oposição também não conseguiu transformar a força eleitoral esperada em vitória.

O cenário ficou ainda mais simbólico porque Ciro enfrentou não apenas Elmano, mas uma ruptura definitiva com parte de sua antiga estrutura política.

Seu irmão, Cid Gomes, apoiou Elmano e foi reeleito senador. A ruptura entre os dois irmãos, que durante anos estiveram no centro da política cearense, tornou-se uma das marcas mais significativas dessa eleição.

O homem que durante décadas foi protagonista da política do Ceará chegou à eleição de 2026 sem o mesmo grupo político que o acompanhou em boa parte de sua trajetória.

E agora vem o STF

Depois da derrota, Ciro também contestou decisões da Justiça Eleitoral e criticou a atuação do Supremo Tribunal Federal.

Dias Toffoli havia determinado que emissoras de rádio e televisão do Ceará compensassem inserções de propaganda eleitoral de Elmano que, segundo a decisão, não haviam sido veiculadas em cumprimento a determinação anterior de direito de resposta.

A decisão determinou a veiculação do conteúdo até a véspera da eleição e provocou reação da campanha de Ciro, que recorreu.

Essa é uma questão que pode e deve ser discutida institucionalmente.

Mas existe uma diferença entre questionar judicialmente uma decisão e afirmar que o resultado eleitoral foi produzido pelo Supremo.

Até aqui, as fontes consultadas registram a contestação política e jurídica de Ciro, mas não apresentam comprovação de fraude eleitoral ou de que o STF tenha determinado o resultado das urnas.

Essa distinção é essencial.

O trágico fim de uma trajetória?

Talvez a palavra "fim" seja forte demais.

Mas "trágico" não é necessariamente sinônimo de derrota eleitoral.

A tragédia política de Ciro pode estar na distância entre o personagem que ele construiu e o personagem que sua última campanha apresentou.

Durante anos, Ciro tentou ocupar um espaço próprio na política brasileira. Não queria ser Lula. Não queria ser Bolsonaro. Criticava os dois e reivindicava uma terceira via nacional.

Em 2026, acabou disputando uma eleição estadual sustentado por uma aliança que aproximou sua candidatura justamente de um dos campos políticos que ele mais combateu.

E o resultado não foi a conquista do governo.

Foi a derrota.

A ironia histórica é brutal.

Ciro tentou escapar da polarização durante boa parte de sua carreira presidencial. No Ceará, terminou absorvido por ela.

De um lado, o campo liderado pelo PT, Lula, Camilo Santana e Elmano.

Do outro, uma frente que juntou Ciro Gomes, PSDB, PL e outras forças oposicionistas.

O eleitorado cearense escolheu manter Elmano no governo.

O que resta de Ciro Gomes?

Ciro ainda possui história, experiência e uma biografia política que não pode ser apagada por uma eleição.

Seria intelectualmente desonesto transformar décadas de atuação pública em uma caricatura produzida por uma única derrota.

Mas também seria desonesto fingir que nada mudou.

Mudou.

O Ciro que entrou na política brasileira como jovem liderança do Ceará, passou pelo PSDB, governou o estado, ocupou ministérios, disputou a Presidência quatro vezes e se apresentou como alternativa à polarização chega a 2026 diante de uma encruzilhada.

Sua última candidatura mostrou que a tentativa de derrotar o PT por meio de uma aliança com o bolsonarismo não produziu a vitória que ele buscava.

Mais do que isso: colocou em questão a própria identidade política que durante décadas sustentou sua candidatura nacional.

Talvez esse seja o verdadeiro "trágico fim" de Ciro Gomes.

Não necessariamente o fim de sua vida pública.

Mas o fim de uma narrativa política.

A narrativa de que ainda existia, no Brasil polarizado, um Ciro capaz de caminhar sozinho entre Lula e Bolsonaro.

Em 2026, ele escolheu um lado na disputa cearense.

E perdeu.

Agora, caberá à história responder se aquela foi apenas mais uma derrota eleitoral ou o capítulo final de uma trajetória que, por muito tempo, pareceu destinada a ocupar um espaço muito maior na política brasileira.

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