Eduardo Bolsonaro promete retaliação a diplomatas e fala em “faxina” no Itamaraty caso Flávio Bolsonaro seja eleito presidente.
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| Eduardo Bolsonaro ameaça retaliar diplomatas caso Flávio seja eleito. Foto: Mario Agra / Câmara dos Deputados |
O ex-deputado Eduardo Bolsonaro afirmou que pretende promover mudanças no Ministério das Relações Exteriores e retaliar diplomatas que, segundo sua avaliação, teriam atuado contra o governo de seu pai, Jair Bolsonaro, caso seu irmão, o senador Flávio Bolsonaro, seja eleito presidente da República.
A declaração foi feita em vídeo publicado nas redes sociais na quarta-feira (30). Eduardo afirmou ter identificado diplomatas que, durante o governo Bolsonaro, teriam “sabotado” orientações da administração federal e disse que pretende agir contra esses servidores em um eventual governo de Flávio.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, Eduardo mencionou especificamente o embaixador brasileiro na Espanha, Luiz Alberto Figueiredo, como um dos diplomatas que poderiam deixar o cargo caso seu irmão chegue à Presidência.
Eduardo fala em “faxina” no Itamaraty
No vídeo, Eduardo Bolsonaro afirmou que pretende fazer uma “faxina” no Itamaraty. Ele argumentou que diplomatas e embaixadores devem seguir as orientações estabelecidas pelo governo eleito e não atuar de acordo com preferências pessoais.
O ex-deputado também afirmou que servidores que, na sua avaliação, tenham contribuído para prejudicar o governo de Jair Bolsonaro deveriam se preocupar com uma eventual mudança de governo.
As declarações ocorrem poucos dias depois de a Folha revelar que aliados de Flávio Bolsonaro discutem uma ampla reformulação do Ministério das Relações Exteriores caso o senador seja eleito.
A campanha de Flávio, porém, afirmou à Folha que Eduardo Bolsonaro e Marcos Degaut, apontado como seu aliado na área de política externa, não falam em nome do candidato e que a campanha não se posicionaria sobre os planos apresentados para o Itamaraty.
Plano prevê mudanças na carreira diplomática
De acordo com a reportagem da Folha publicada em 29 de setembro, Marcos Degaut vem apresentando a diplomatas e formuladores de política externa uma proposta de reestruturação do Itamaraty inspirada em mudanças implementadas pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio.
O projeto é chamado de “reforma do Marco Rubio” e prevê mudanças no sistema de promoções, adoção de metas relacionadas a exportações, investimentos e inserção comercial, além de uma concentração maior da atuação diplomática em cerca de 35 países considerados prioritários.
A proposta também prevê a possibilidade de atribuir determinadas funções a pessoas de fora da carreira diplomática.
Segundo a Folha, Degaut afirma que não haveria uma “caça às bruxas” ou perseguição política dentro do Ministério das Relações Exteriores. A ideia apresentada seria alterar critérios de promoção, dando maior peso ao desempenho e ao cumprimento de metas em vez da senioridade.
Modelo de Marco Rubio é citado como referência
O plano discutido pelos aliados de Flávio toma como referência a reformulação promovida por Marco Rubio no Departamento de Estado americano.
Segundo a reportagem, as mudanças nos Estados Unidos envolveram redução de postos e departamentos, estabelecimento de metas e alterações nos critérios de promoção. Também houve aumento da participação de indicados políticos em cargos diplomáticos.
A proposta para o Brasil prevê uma concentração dos esforços diplomáticos em um grupo de 35 países considerados estratégicos. O chamado G35 incluiria os países do G20 e outras nações consideradas relevantes para os interesses econômicos e políticos brasileiros.
Entre as prioridades citadas estão comércio exterior, investimentos, minerais críticos, tecnologia e inserção do Brasil em cadeias globais de valor.
Relação com os Estados Unidos e China
Apesar da inspiração no modelo adotado por Rubio, a proposta apresentada por Degaut não prevê, segundo a reportagem, um alinhamento automático do Brasil aos Estados Unidos.
O plano defende a manutenção das relações econômicas com a China, ao mesmo tempo em que propõe maior aproximação com Washington, principalmente em áreas como comércio e minerais críticos.
Também são citadas como prioridades as relações com países do G20, Israel e nações latino-americanas governadas por partidos de direita.
Críticas de Eduardo aos diplomatas
No vídeo divulgado nas redes sociais, Eduardo Bolsonaro voltou a criticar integrantes do Itamaraty que, segundo ele, teriam atuado contra decisões do governo de Jair Bolsonaro.
O ex-deputado citou como exemplo uma suposta atuação da diplomacia brasileira na Espanha relacionada à mudança de Luiz Inácio Lula da Silva para Madri.
Eduardo afirmou que pretende retirar de seus postos diplomatas que tenham participado do que considera uma atuação contrária ao governo de seu pai.
A acusação de “sabotagem”, entretanto, é uma interpretação apresentada por Eduardo Bolsonaro. A existência de uma atuação organizada de diplomatas contra o governo Bolsonaro foi objeto de reportagens e debates, mas as afirmações do ex-deputado não equivalem, por si só, a uma comprovação individual de responsabilidade ou irregularidade dos servidores citados.
Itamaraty aponta números diferentes de promoções
Em meio às discussões sobre uma possível reforma, o próprio Itamaraty apresenta dados sobre a evolução das promoções na carreira diplomática.
Segundo informações fornecidas à Folha, foram realizadas 615 promoções durante os quatro anos do governo Jair Bolsonaro e 622 nos quatro anos do atual mandato de Luiz Inácio Lula da Silva.
O Ministério das Relações Exteriores também informou ter adotado medidas relacionadas à diversidade de seus quadros e alterações no chamado quadro de acesso utilizado nas promoções.
A carreira diplomática, por outro lado, enfrenta críticas internas relacionadas à demora nas promoções e à falta de perspectivas de ascensão profissional. Segundo a Folha, há diplomatas que permanecem mais de uma década sem promoção.
Possível participação de Eduardo no Itamaraty
A discussão sobre uma eventual reforma do Ministério das Relações Exteriores também envolve o próprio Eduardo Bolsonaro.
Segundo a Folha, em caso de vitória de Flávio, aliados avaliam que Eduardo poderia ganhar influência sobre a política externa depois de sua atuação em defesa de medidas do governo Donald Trump contra autoridades brasileiras.
Uma das possibilidades discutidas seria Eduardo assumir o Ministério das Relações Exteriores. Outra seria sua indicação para a Embaixada do Brasil em Washington.
A definição, no entanto, dependeria de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro e das decisões tomadas pelo futuro governo.
O que está em discussão
As declarações de Eduardo e as propostas apresentadas por seus aliados colocam o futuro do Itamaraty no centro do debate eleitoral de 2026.
De um lado, os defensores da reformulação apontam problemas relacionados à progressão na carreira, à estrutura do Ministério das Relações Exteriores e à necessidade de ampliar a atuação econômica da diplomacia.
De outro, mudanças que envolvam critérios políticos para promoções ou substituição de servidores de carreira por indicados externos podem provocar discussões sobre profissionalização, continuidade institucional e autonomia da diplomacia brasileira.
Até o momento, a campanha de Flávio Bolsonaro não assumiu oficialmente as propostas apresentadas por Eduardo Bolsonaro e Marcos Degaut como seu plano de governo para o Itamaraty.

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