Pesquisa nacional mostra que maioria dos fiéis é contra campanhas e indicações de voto dentro dos templos, enquanto religião mantém influência por valores, redes sociais e grupos de confiança.
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| Evangélicos rejeitam uso eleitoral das igrejas, aponta pesquisa. Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil |
Os evangélicos ocupam posição de destaque no debate político brasileiro às vésperas das eleições de 2026, mas uma pesquisa nacional revela uma realidade mais complexa do que a associação direta entre religião e voto. A maioria dos fiéis rejeita a transformação das igrejas em espaços de campanha eleitoral e também não considera legítimo que líderes religiosos determinem em quem seus seguidores devem votar.
O levantamento Religião e Vida Pública no Brasil, realizado pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser), em parceria com a Quaest Pesquisa e Consultoria, mostra que 83% dos entrevistados são contrários à indicação de voto por pastores e padres. Outros 82% rejeitam discussões políticas durante cultos e missas, enquanto 90% são contra campanhas eleitorais dentro dos espaços religiosos.
A pesquisa foi realizada presencialmente com 15 mil pessoas em 412 municípios brasileiros, incluindo as 27 capitais, entre janeiro e fevereiro de 2026. O levantamento ouviu brasileiros com 16 anos ou mais e teve margem de erro de 0,8 ponto percentual, segundo o Iser.
Religião continua influenciando a política
Os resultados não indicam, porém, um afastamento entre religião e política. Segundo a pesquisadora Lívia Reis, do Iser, a influência religiosa ocorre menos por uma transferência automática de votos e mais pela formação de valores, identidades e relações de pertencimento.
A diferença é importante porque a presença de lideranças religiosas no debate eleitoral não significa necessariamente que os fiéis sigam suas orientações de voto.
A pesquisa aponta que a politização dos templos, observada de maneira mais intensa nas últimas décadas, provocou divisões em comunidades religiosas. Com isso, parte dos fiéis passou a defender maior autonomia para formar suas próprias posições políticas.
Segundo Reis, a influência das lideranças também ultrapassa os limites físicos das igrejas e chega à televisão, às redes sociais, ao Parlamento e aos ambientes digitais.
Evangélicos representam 29% da população
O levantamento também evidencia que o segmento evangélico não constitui um grupo homogêneo.
De acordo com a pesquisa, os evangélicos representam 29% da população brasileira. Dentro desse universo, 70% são pentecostais, 17% são protestantes e 10% se identificam como evangélicos sem igreja.
A Assembleia de Deus aparece como a maior denominação entre os evangélicos, reunindo 32% dos fiéis do segmento. Na sequência estão milhares de denominações pequenas e médias, que somam 28%, além de evangélicos sem igreja e batistas, com 10% cada.
Essa diversidade ajuda a explicar por que não é possível tratar o eleitorado evangélico como um bloco político uniforme.
WhatsApp amplia influência religiosa fora dos templos
Um dos principais elementos apontados pela pesquisa é o papel das redes sociais na relação entre fé e política.
66% dos entrevistados afirmaram utilizar o WhatsApp como espaço de articulação de comunidades e grupos religiosos online. Entre os evangélicos, a plataforma aparece também como uma das principais formas de acesso a informações políticas.
Nesse ambiente, a mensagem política pode circular sem que exista uma orientação formal durante o culto.
Conteúdos compartilhados em grupos de igreja, vídeos produzidos por influenciadores religiosos, mensagens encaminhadas por familiares e publicações de lideranças podem contribuir para a formação das opiniões políticas dos fiéis.
A pesquisadora Lívia Reis avalia que esse processo representa uma mudança no local onde ocorre a mediação entre religião e política: a influência deixa de depender exclusivamente do púlpito e passa a ocorrer também em redes de relacionamento e confiança.
Pesquisa contraria associação automática entre evangélicos e conservadorismo
Outro aspecto destacado pelo levantamento é a diversidade das opiniões dos evangélicos em temas sociais e de costumes.
Entre os evangélicos entrevistados, 79% apoiam a educação sexual nas escolas, enquanto 80% são favoráveis ao uso de métodos contraceptivos. Cerca de 90% rejeitam o homeschooling, modelo de educação domiciliar.
Na discussão sobre aborto, o resultado aparece mais dividido: 47% são favoráveis à punição, enquanto 45% são contrários.
Os dados mostram que a identidade religiosa não produz necessariamente posições uniformes em todas as pautas associadas ao debate político brasileiro.
A pesquisadora Lívia Reis afirma que temas morais podem funcionar como marcadores de identidade e pertencimento, mas convivem com posições menos polarizadas em questões concretas relacionadas à vida social e às políticas públicas.
Influência religiosa não significa transferência automática de votos
A pesquisa também aponta que o comportamento eleitoral é resultado da combinação de diferentes fatores.
Experiências relacionadas à renda, escolaridade, território, raça, gênero e trajetória pessoal podem se somar aos valores religiosos na construção da opinião política.
Por isso, segundo a análise apresentada pelo Iser, identificar uma pessoa como evangélica não permite concluir automaticamente qual será sua escolha eleitoral.
O próprio levantamento mostra diferenças relevantes dentro dos grupos religiosos, reforçando a diversidade existente entre os eleitores.
Disputa eleitoral amplia atenção sobre o eleitorado religioso
A relevância eleitoral dos evangélicos ajuda a explicar por que o segmento está no centro das estratégias políticas nas eleições de 2026.
Ao mesmo tempo em que candidatos e grupos políticos procuram dialogar com esse eleitorado, os dados da pesquisa indicam que existe rejeição significativa à utilização direta dos templos como espaços de campanha.
A situação cria uma distinção entre duas dimensões: a participação dos religiosos no debate público e a transformação dos espaços de culto em ambientes eleitorais.
A primeira permanece presente. A segunda encontra resistência majoritária entre os entrevistados.
Religião também aparece nas disputas políticas nas redes
Um episódio recente envolvendo Nossa Senhora Aparecida mostrou como questões religiosas podem ganhar dimensão eleitoral fora dos templos.
Segundo a Agência Brasil, surgiram informações de que grupos evangélicos ligados à campanha de Flávio Bolsonaro defenderiam a retirada do título de Padroeira do Brasil concedido a Nossa Senhora Aparecida. Flávio Bolsonaro negou a informação e recorreu à Justiça Eleitoral.
O caso resultou em decisões judiciais envolvendo publicações nas redes sociais e chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em 30 de setembro, o tribunal formou maioria para manter a retirada de determinadas postagens relacionadas ao episódio.
O episódio evidencia como religião, redes sociais e disputa eleitoral podem se cruzar durante a campanha, mesmo quando a manifestação não ocorre dentro de uma igreja.
O que os dados revelam sobre as eleições de 2026
A pesquisa Iser/Quaest apresenta um cenário em que religião continua sendo uma dimensão relevante da vida pública brasileira, mas não pode ser interpretada como sinônimo de comportamento eleitoral uniforme.
O eleitor religioso pode rejeitar uma indicação explícita de voto feita por uma liderança e, ao mesmo tempo, considerar valores relacionados à sua fé ao avaliar candidatos, propostas e temas políticos.
A principal mudança apontada pelo levantamento está justamente na forma como essa influência acontece. Em vez de depender exclusivamente do discurso apresentado durante cultos e missas, ela também circula por redes sociais, grupos de mensagens, influenciadores, relações familiares e comunidades de confiança.
Para as eleições de 2026, portanto, compreender o eleitorado religioso exige considerar sua diversidade interna e evitar a ideia de que uma identidade religiosa determina, por si só, uma escolha política.

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