Uma ilha sob cerco, um povo resiliente e a dívida moral da solidariedade global.
Há noites em que Cuba mergulha na escuridão. Não é metáfora são apagões reais, longos, repetidos, que silenciam ruas, interrompem hospitais, paralisam transportes e deixam famílias inteiras diante da incerteza. No escuro, também ecoa outra ausência: o silêncio de muitos partidos e governos que se dizem progressistas, mas que pouco falam quando a ilha enfrenta uma das mais duras crises de sua história recente.
A crise cubana não pode ser compreendida sem reconhecer a disputa geopolítica que a envolve. A ofensiva política liderada por setores conservadores nos Estados Unidos, simbolizada por figuras como Marco Rubio, reforça um cerco econômico que, na prática, dificulta o acesso a crédito, alimentos e, sobretudo, petróleo. Trata-se de um mecanismo moderno de pressão que muitos analistas descrevem como uma tentativa de recolonização econômica do Caribe e de enfraquecimento de experiências soberanas no Sul Global.
Pedro Batista, jornalista e escritor paraense.
O bloqueio ao petróleo é um dos elementos mais devastadores dessa estratégia. Navios que transportam combustível para Cuba podem sofrer sanções, empresas temem negociar com a ilha e fornecedores recuam. O resultado é dramático: usinas param, ônibus deixam de circular, a produção agrícola diminui e até a internet hoje essencial para a vida cotidiana torna-se intermitente.
Diante disso, persiste um discurso internacional que afirma que as sanções buscariam “libertar” o povo cubano. Mas a realidade vivida na ilha questiona essa narrativa. Quem enfrenta filas por alimentos, quem passa horas sem energia e quem vê o transporte desaparecer não são governos abstratos são pessoas reais. A história mostra que bloqueios prolongados raramente produzem democratização; produzem, sim, sofrimento social e vulnerabilidade econômica.
E é justamente aí que emerge uma contradição dolorosa. Cuba, frequentemente descrita como um dos países mais solidários do mundo, enviou médicos, educadores e ajuda humanitária a dezenas de nações. No Brasil, a presença cubana no Programa Mais Médicos levou assistência a comunidades abandonadas pelo mercado e pelo Estado. Médicos cubanos chegaram a regiões onde ninguém mais aceitava trabalhar, transformando vidas silenciosamente.
Hoje, porém, quando a ilha enfrenta apagões e escassez energética, o apoio internacional ainda é limitado. Entre os gestos concretos recentes, destaca-se o México, cuja presidenta Claudia Sheinbaum enviou cerca de 800 toneladas de alimentos e insumos básicos à ilha. Em seu discurso, Sheinbaum enfatizou a solidariedade histórica entre os povos e a necessidade de apoio humanitário ao povo cubano diante das dificuldades econômicas e energéticas.
Embora o envio de petróleo ainda não tenha sido concretizado, autoridades mexicanas indicaram que a cooperação energética permanece em discussão e integra os planos de apoio futuro, o que reforça a importância de iniciativas regionais para aliviar a crise.
A crise econômica torna-se ainda mais visível quando observamos o salário médio estatal na ilha: cerca de 2.100 pesos cubanos (CUP) mensais aproximadamente R$ 464,00 . É um valor que revela não apenas a fragilidade do poder de compra, mas o impacto profundo do bloqueio e da dolarização parcial da economia.
Cuba vive, portanto, uma crise cotidiana que não cabe em estatísticas frias: cortes de luz que reorganizam rotinas inteiras, transporte escasso que limita o direito de ir e vir, conectividade precária que isola famílias e trabalhadores, e uma sensação crescente de cerco que transcende a economia e alcança a dignidade.
Diante desse cenário, surge uma pergunta incômoda: onde está a solidariedade entre os povos quando um país historicamente solidário enfrenta dificuldades extremas? O silêncio político e diplomático não é neutro; ele também comunica prioridades, alianças e limites da cooperação internacional.
Mais do que análise, o momento exige ação. O Brasil pela história de cooperação, proximidade cultural e capacidade energética poderia desempenhar papel relevante no apoio humanitário e energético à ilha, inclusive com envio de petróleo e ampliação de parcerias médicas, científicas e alimentares. A solidariedade, afinal, não é apenas discurso; é prática concreta.
Para a sociedade civil, existem caminhos possíveis de ajuda: doações a iniciativas solidárias como a instituição Cultivar, mencionada pelo teólogo Frei Betto, e participação em campanhas internacionais como a flotilha organizada pela Progressive International, que busca romper simbolicamente o isolamento e levar assistência à população.
Cuba hoje não pede caridade pede coerência. Pede que a solidariedade internacional seja mais que palavra, que a memória de sua cooperação global não seja apagada e que o debate político não ignore o impacto humano das sanções. No escuro dos apagões, a ilha continua resistindo. A pergunta que resta ao mundo é simples e profunda: quem estará ao lado de Cuba quando a luz voltar?
Como ajudar a Cuba
A solidariedade internacional também pode nascer da ação cidadã. Existem caminhos concretos ao alcance da sociedade brasileira.
1️⃣ Pressão política e mobilização digital
Uma primeira forma de apoio é pressionar autoridades brasileiras para ampliar a cooperação humanitária e energética com Cuba. Isso pode ocorrer por meio de:
Envio de e-mails ao Itamaraty
Marcação do presidente e do governo federal nas redes sociais
Campanhas digitais cobrando ações de solidariedade e cooperação energética
2️⃣ Doações solidárias diretas
Segundo o teólogo Frei Betto, em entrevista ao Canal 247, uma forma imediata de ajudar é contribuir com iniciativas solidárias organizadas pela sociedade civil.
Doação ao Instituto Cultivar
Banco: Caixa Econômica Federal
CNPJ / chave Pix: 11.586.301/0001-65
Identificação: SOSCuba
Doação internacional pela campanha da Nuestra América Convoy
Se Cuba sempre estendeu a mão solidária aos povos do mundo, a pergunta que permanece é inevitável: até quando a esquerda brasileira aceitará o silêncio diante do sofrimento da ilha e deixará de transformar a solidariedade em ação concreta?

0 Comentários