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Túlio planta crise na federação para deixar a REDE pelo PDT

Qual é o objetivo político de Túlio Gadêlha? Movimento gera tensão na federação Rede/PSOL e levanta debate sobre estratégia eleitoral em PE.

Túlio Gadelha
Túlio desafia a federação e reacende crise interna. Foto: Divulgação

Na política, gestos raramente são isolados. Eles costumam dialogar com movimentos anteriores e, sobretudo, com cenários futuros. O recente lançamento do reitor da UFPE, Alfredo Gomes, como pré-candidato ao Governo de Pernambuco, e do ex-deputado federal Paulo Rubem Santiago ao Senado, pelo grupo liderado pelo deputado federal Túlio Gadêlha (Rede), levanta uma pergunta inevitável: qual é, de fato, o objetivo político de Túlio neste momento?

O ato, acompanhado do manifesto “Movimento do Sertão ao Cais: Pernambuco é do Povo”, apresenta propostas consistentes. O documento defende superação das desigualdades, fortalecimento da democracia participativa, ampliação do acesso à água e saneamento, desenvolvimento regional, valorização dos servidores e participação popular nas decisões orçamentárias. É uma agenda programática robusta, que dialoga com demandas históricas do estado.

No entanto, para além do conteúdo, é preciso analisar o contexto político-partidário.

Minoria na federação

A Rede Sustentabilidade integra, em Pernambuco e nacionalmente, uma federação com o PSOL. Dentro dessa estrutura, as decisões estratégicas, especialmente sobre candidaturas majoritárias, passam por instâncias colegiadas. E, nesse arranjo, a Rede é minoria na correlação de forças.

Isso significa que, na prática, a viabilidade de um nome indicado unilateralmente pela Rede depende de negociação interna e consenso federativo. Diante desse cenário, a movimentação de Túlio pode ser interpretada menos como uma construção já pactuada e mais como um gesto de pressão política.

Ao lançar um nome ao Governo antes de qualquer definição federativa, o deputado antecipa o debate e tensiona a estrutura interna. Se o reitor não for o escolhido pela federação, o discurso de que houve “falta de espaço” ou “desconstrução” pode ganhar corpo.

Um padrão de atuação?

Não é a primeira vez que Túlio protagoniza movimentos que geram ruídos internos.

Em 2020, quando ainda estava no PDT, houve tensão em torno da disputa pela Prefeitura do Recife. À época, seu nome foi cogitado como possível candidato. O processo resultou em atritos e, posteriormente, em sua saída da legenda. O PDT acabou compondo a chapa de João Campos (PSB), indicando Isabella de Roldão como vice.

A leitura crítica feita por adversários e ex-aliados é que o conflito ajudou a justificar sua saída do partido. Agora, dizem esses críticos, o roteiro se repete: cria-se um ambiente de tensão interna para, em seguida, alegar perseguição política ou ausência de espaço.

Nos bastidores, o convite recente do PDT para que Túlio participe da reestruturação da sigla em Pernambuco adiciona um novo ingrediente ao cenário. A hipótese de um retorno ao partido volta a circular.

2022: um episódio simbólico

Outro ponto frequentemente citado por interlocutores da federação foi o posicionamento de Túlio no segundo turno das eleições de 2022, quando apoiou Raquel Lyra, contrariando a posição majoritária da federação Rede/PSOL.

Para parte da militância, o gesto evidenciou autonomia excessiva em relação às decisões coletivas. Para seus apoiadores, tratou-se de uma escolha estratégica legítima diante do cenário eleitoral.

Independentemente da avaliação, o episódio reforçou a percepção de que o deputado tende a agir com independência em relação às diretrizes partidárias.

Projeto coletivo ou projeto pessoal?

O manifesto lançado pelo grupo é politicamente consistente. Defende educação como motor de desenvolvimento, interiorização de oportunidades, inclusão social e justiça territorial. Alfredo Gomes e Paulo Rubem Santiago têm trajetória acadêmica e política reconhecidas.

A questão que se coloca, porém, é se a construção está, de fato, alinhada à estratégia da federação ou se representa um movimento mais personalista.

Críticos afirmam que Túlio costuma estruturar ações políticas fortemente centradas em seu gabinete e em seu círculo mais próximo, com pouca articulação orgânica com as instâncias partidárias. Daí a ironia que circula nos bastidores: se fosse um bloco de carnaval, se chamaria “Eu Sozinho”.

Se essa percepção é justa ou exagerada, cabe ao tempo e aos fatos demonstrar.

A federação em jogo

O movimento também pode ter impacto nacional. A renovação da federação entre Rede e PSOL para os próximos quatro anos exigirá negociações delicadas. Conflitos estaduais podem repercutir na mesa nacional.

Caso a candidatura apresentada pelo grupo de Túlio não prospere internamente, o desgaste pode ser usado como argumento político em debates maiores sobre autonomia, espaço e protagonismo dentro da federação.

Assim, o gesto em Pernambuco pode ir além das fronteiras estaduais.

Estratégia de pressão ou construção legítima?

Há duas leituras possíveis.

A primeira: trata-se de uma estratégia de pressão para forçar a federação a considerar o nome do reitor, ampliando o debate público e consolidando uma base social antes das convenções partidárias.

A segunda: é um movimento calculado para criar um impasse previsível, que posteriormente justificaria uma reacomodação partidária, possivelmente com retorno ao PDT, sob o argumento de que não há espaço político na atual legenda.

Nenhuma das hipóteses pode ser afirmada como fato consumado neste momento. Ambas circulam no campo das interpretações políticas.

O que está em disputa

No centro do debate está mais do que uma candidatura. Está em jogo a forma de fazer política dentro de estruturas coletivas.

Federações partidárias pressupõem disciplina, negociação e construção compartilhada. Lideranças com perfil mais autônomo enfrentam o desafio de equilibrar protagonismo pessoal com decisões colegiadas.

Se o objetivo de Túlio é consolidar um projeto alternativo para Pernambuco, ele precisará demonstrar capacidade de articulação interna e externa.

Se, por outro lado, o movimento resultar em mais um ciclo de ruptura, reforçará a narrativa de que sua trajetória é marcada por conflitos recorrentes.

Perguntar “qual o objetivo de Túlio?” é, na verdade, perguntar sobre estratégia, coerência e projeto político.

O lançamento das pré-candidaturas e do manifesto abre um novo capítulo na política pernambucana. Resta saber se ele será lembrado como o início de uma construção coletiva consistente ou como mais um episódio de tensão que antecede uma mudança partidária.

Na política, como na história, os movimentos falam. E o tempo, invariavelmente, revela suas intenções.

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