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Abelardo de la Espriella transforma tragédia em palanque

Quando a tragédia vira palanque: Abelardo de la Espriella e o espetáculo sobre os escombros

Abelardo de la Espriella e o espetáculo sobre os escombros
Abelardo de la Espriella e o marketing da tragédia. Foto: Reprodução

Há momentos em que um governo revela sua verdadeira dimensão. Não é durante o discurso de posse, tampouco nas campanhas publicitárias cuidadosamente produzidas para as redes sociais. É quando a tragédia chega, quando a população precisa descobrir se existe, de fato, um Estado preparado para protegê-la. Foi justamente esse teste que encontrou Abelardo de la Espriella poucos dias depois de assumir a Presidência da Colômbia.

Um terremoto devastador atingiu o país, provocando mortes, feridos, destruição e desespero. Famílias passaram a procurar parentes entre os escombros enquanto equipes de emergência corriam contra o tempo. Era o momento em que se esperava do novo governo aquilo que qualquer cidadão tem o direito de exigir de seu Estado: coordenação, socorro, estrutura e solidariedade.

Mas a resposta do governo acabou envolvida em uma controvérsia que diz muito mais do que parece à primeira vista. Em meio à tragédia, De la Espriella apareceu em Buenaventura distribuindo bolas de futebol amarelas, com o logotipo de seu movimento político, Defensores de la Patria, para crianças atingidas pelo terremoto.

É uma imagem difícil de digerir. Crianças que acabaram de atravessar uma catástrofe aparecem recebendo um objeto marcado pela identidade política do presidente, enquanto famílias ainda enfrentam mortes, destruição, desaparecimentos, fome e incerteza. Pode-se tentar vender o gesto como proximidade com a população. Mas existe uma diferença enorme entre assistência pública e propaganda política.

O terremoto não escolheu pessoas de direita ou de esquerda. Não escolheu famílias que votaram em De la Espriella ou em Ivan Cepeda. A terra simplesmente tremeu. O que não precisava tremer, porém, era a fronteira entre governo e campanha.

Durante a campanha presidencial, De la Espriella já havia utilizado a imagem da seleção colombiana como instrumento de comunicação política, estratégia que chegou a ser questionada judicialmente. Agora, depois da eleição, a marca de seu movimento aparece em bolas entregues justamente a crianças atingidas por uma tragédia.

Convenhamos: é uma criatividade política bastante peculiar. Quando a população está entre os escombros, alguém decide que o melhor momento para fazer branding partidário é justamente diante das crianças vítimas do terremoto.

O problema não é uma bola de futebol. O problema é o que ela representa naquele contexto.

Governo não é agência de marketing

Um presidente pode e deve comunicar suas ações. Precisa informar a população, explicar onde estão os abrigos, divulgar hospitais, orientar famílias e prestar contas sobre o uso dos recursos públicos. Isso é comunicação pública.

Outra coisa é colocar a identidade de um movimento político no centro de uma visita a uma comunidade devastada.

É aí que a fronteira entre Estado e propaganda começa a desaparecer.

Uma criança que perdeu a casa não precisa conhecer a marca política do presidente. Precisa de proteção. Uma família que procura um desaparecido não precisa de uma fotografia para as redes sociais. Precisa de equipes de resgate. Uma comunidade destruída não precisa de marketing. Precisa de reconstrução.

Parece óbvio porque é óbvio.

Mas aparentemente é necessário lembrar que o governo não é uma agência de publicidade com acesso ilimitado ao sofrimento alheio.

E enquanto isso, a ajuda internacional esperava

A polêmica fica ainda mais séria quando colocada ao lado das controvérsias envolvendo a ajuda internacional.

O México, país que possui enorme experiência histórica com terremotos e operações de resgate, preparou uma estrutura com 255 militares, médicos, resgatistas e cães especializados, além de equipamentos para atuar na emergência. A equipe estava pronta, mas dependia da autorização do governo colombiano para entrar no país.

Brasil, México, Argentina, Chile e Espanha também tiveram ofertas de ajuda inicialmente rejeitadas ou dificultadas, enquanto equipes de Estados Unidos, Israel, Equador e El Salvador foram autorizadas na fase inicial. O governo colombiano alegou critérios técnicos e de certificação, negando motivação política.

Mas há perguntas que não desaparecem simplesmente porque o governo apresenta uma justificativa administrativa.

Em uma tragédia, o relógio não tem ideologia.

Um sobrevivente soterrado não pode esperar que Bogotá termine suas discussões diplomáticas para descobrir se determinada equipe poderá ajudá-lo. E quando se trata do México, a situação ganha um peso ainda maior: estamos falando de um país cuja experiência com terremotos transformou suas equipes de resgate em referência internacional.

Então a pergunta é simples: por que uma equipe mexicana especializada, preparada e equipada precisava esperar enquanto pessoas continuavam sob os escombros?

Não estamos falando de mandar uma delegação turística. Estamos falando de médicos, resgatistas, cães e equipamentos especializados.

Em uma situação como essa, solidariedade não deveria passar por teste ideológico.

O Brasil não precisa ser aliado político de Bogotá para enviar médicos. O México não precisa concordar com De la Espriella para procurar sobreviventes. A Argentina não precisa apoiar seu governo para oferecer ajuda.

Embaixo dos escombros não existe direita ou esquerda. Existe gente.

Israel, Gaza e a contradição que ninguém pode ignorar

É nesse ponto que a presença de equipes israelenses de resgate acrescenta uma dimensão política ainda mais delicada.

De la Espriella vem defendendo uma aproximação mais estreita com Israel. Ao mesmo tempo, o governo israelense continua enfrentando condenações e forte pressão internacional por sua atuação genocida militar em Gaza, onde milhares de civis foram assassinados, entre eles mais de 20 mil crianças.

A contradição é impossível de não enxergar.

Na Colômbia, equipes israelenses aparecem procurando crianças e adultos entre os escombros para tentar salvá-los. Em Gaza, o mundo continua assistindo às imagens de crianças palestinas mortas e de cidades destruídas.

Se De la Espriella deseja estreitar relações com Israel, também precisa aceitar o debate sobre o que significa essa aproximação. Não se pode selecionar apenas a parte confortável de uma relação internacional e fingir que a parte incômoda não existe.

A diplomacia também tem consequências.

A sombra da Covid-19 no Brasil

Essa discussão inevitavelmente lembra o Brasil durante a pandemia de Covid-19.

Não porque um terremoto e uma pandemia sejam acontecimentos iguais. Não são. Mas porque ambos colocam diante do governo uma pergunta fundamental: o que acontece quando uma crise exige que o Estado coloque a proteção da vida acima da disputa política?

Durante o governo Jair Bolsonaro, a pandemia foi marcada por confrontos com governadores, prefeitos, autoridades sanitárias e especialistas. Houve resistência a medidas de isolamento, defesa de medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19 e uma disputa política permanente em torno da dimensão da crise.

A CPI da Pandemia investigou a atuação do governo federal e produziu um relatório com acusações e recomendações de responsabilização de autoridades.

Foi nesse ambiente que o conceito de necropolítica ganhou força no debate brasileiro. A expressão, desenvolvida pelo filósofo Achille Mbembe, discute como estruturas de poder podem definir quais populações recebem proteção, quais ficam expostas ao risco e quais mortes passam a ser tratadas como aceitáveis ou inevitáveis.

Quando um governo coloca a preservação da própria imagem, de seus interesses políticos ou de sua ideologia acima da proteção da população, a sociedade precisa acender o sinal de alerta.

E é exatamente esse alerta que o caso colombiano provoca.

A tragédia não pertence ao presidente

Existe uma doença política cada vez mais comum: transformar tudo em narrativa eleitoral.

A obra vira propaganda. A entrega vira propaganda. A visita vira propaganda. A fotografia vira propaganda.

E, quando a tragédia chega, existe sempre o risco de transformar até o sofrimento em cenário.

Foi isso que tornou tão simbólica a imagem de De la Espriella entregando bolas políticas às crianças.

Não porque uma bola seja mais importante do que a destruição provocada pelo terremoto, mas justamente porque ela revela uma escolha de linguagem política no momento errado.

A população colombiana não precisava de um presidente preocupado em deixar sua marca partidária sobre a tragédia. Precisava de um presidente preocupado em deixar o Estado presente onde a população mais precisava.

Essa diferença é fundamental.

O governo pertence ao conjunto da sociedade, inclusive a quem não votou no presidente. Portanto, uma tragédia nacional não pode ser transformada em extensão da campanha eleitoral.

O verdadeiro teste de De la Espriella

Abelardo de la Espriella está apenas no começo de seu mandato. Ainda haverá tempo para avaliar sua administração em diferentes áreas.

Mas o primeiro grande desastre de seu governo já deixou uma pergunta incômoda: quando a população mais precisa do Estado, o governo consegue colocar a vida humana acima da própria imagem política?

A resposta não estará nas redes sociais.

Também não estará nas bolas de futebol.

Muito menos em uma fotografia presidencial.

Ela estará nos hospitais, nos abrigos, nas equipes de resgate, na reconstrução das casas e na capacidade de encontrar os desaparecidos.

É ali que um governo será julgado.

Porque a propaganda desaparece quando as câmeras desligam. A tragédia, não.

As famílias continuarão vivendo com suas perdas muito depois de o presidente deixar a região atingida. As cidades precisarão ser reconstruídas muito depois de os discursos terminarem. As crianças que receberam as bolas continuarão precisando de escola, moradia, segurança e futuro.

Por isso, a pergunta que fica para De la Espriella é muito maior do que a distribuição de uma bola de futebol.

Ele pretende governar a Colômbia ou continuar fazendo campanha dentro do Palácio Presidencial?

Porque existe uma diferença simples entre uma coisa e outra: durante a campanha, o político procura votos. Diante de uma tragédia, o Estado precisa procurar vidas.

E, enquanto houver pessoas sob os escombros, qualquer governo que escolha o palanque antes do socorro merece ser cobrado — sem maquiagem, sem eufemismo e sem medo de dizer o óbvio.

O povo colombiano não precisa de espetáculo. Precisa de Estado.

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