Boulos rebate Milei após crítica ao Brasil. Dados mostram queda de 31 mil empresas e 245 mil empregos formais durante o governo argentino.
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| Boulos responde Milei e cita carne de burro. Foto: Hugo Barreto / Metropóles / Spencer Platt Getty Images North America |
Boulos rebate Milei depois de o presidente argentino voltar a comentar a política brasileira durante sua passagem por Nova York, onde participou da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).
Milei afirmou esperar que o Brasil abandone o que classificou como um “curso socialista decadente” e retome as chamadas “ideias da liberdade”. A declaração ocorreu no contexto de sua defesa de uma mudança política no país e de seu apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência.
A resposta de Boulos veio pelas redes sociais. O ministro chamou Milei de “vergonha para a América Latina” e afirmou: “Ninguém quer comer carne de burro por aqui”.
A frase fez referência a uma experiência de comercialização de carne de burro realizada em Trelew, na província argentina de Chubut, em abril deste ano.
Boulos rebate Milei em meio a números negativos na economia argentina
A reação de Boulos ocorre em um momento no qual o desempenho econômico argentino apresenta resultados distintos entre os principais indicadores.
O dado mais recente do Monitor Mensal de Empresas, elaborado pelo centro de pesquisas argentino Fundar, aponta que o país perdeu 31.342 empresas entre novembro de 2023 e junho de 2026. A redução corresponde a 6,1% das empresas registradas e é classificada pela entidade como a maior queda observada nos primeiros 31 meses de um governo.
A retração não ficou concentrada em um único setor. Segundo a Fundar, 14 dos 18 setores analisados registraram redução no número de empresas desde a chegada de Milei ao governo. No período mais recente, nove setores tiveram queda de um mês para o outro, com destaque para alojamento e gastronomia, transporte e armazenamento e indústria manufatureira.
O levantamento utiliza dados da Superintendência de Riscos do Trabalho argentina e considera como empresa aquela que possui pelo menos um empregado registrado, excluindo trabalhadores domésticos e de casas particulares.
Empresas fechadas atingem diferentes regiões da Argentina
A redução do número de empresas também teve alcance territorial amplo.
Os dados compilados pela Fundar indicam queda em 23 das 24 províncias argentinas desde novembro de 2023. A exceção é Neuquén, onde a exploração de gás natural em Vaca Muerta tem impulsionado a atividade econômica e as exportações.
No mês de junho, o levantamento registrou 709 empresas a menos em relação ao mês anterior. A Fundar também contabiliza 16.386 empresas a menos na comparação com junho de 2025, resultado que representa uma redução anual de 3,3%.
O movimento ajuda a dimensionar a mudança no tecido empresarial argentino. A perda não significa necessariamente que todas as empresas encerradas tenham deixado de existir por causa de uma única medida econômica. O indicador registra a redução líquida do número de empresas empregadoras formais, portanto incorpora diferentes fatores que afetam a atividade empresarial.
Emprego formal também recua
A redução do número de empresas veio acompanhada por uma diminuição no emprego privado formal.
Levantamento do Centro de Economia Política Argentina (Cepa) citado pela Agência Brasil aponta perda de aproximadamente 245,6 mil empregos privados registrados entre novembro de 2023 e junho de 2026. O número corresponde a uma redução de cerca de 3,9% nessa modalidade de emprego.
Ao mesmo tempo, houve crescimento de aproximadamente 169 mil trabalhadores autônomos, ou 8,3%, no período analisado. O movimento indica uma alteração na composição do mercado de trabalho, com parte dos trabalhadores deixando o emprego privado formal para atuar por conta própria.
Esse processo é relevante porque emprego formal envolve não apenas salário, mas também direitos trabalhistas e proteção previdenciária. A própria base estatística argentina acompanha diferentes categorias de trabalhadores registrados, incluindo empregados privados e públicos, autônomos e monotributistas.
Desemprego chega a 7,9% no segundo trimestre
Os efeitos também aparecem na taxa de desemprego.
De acordo com o Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (Indec), a taxa de desocupação chegou a 7,9% no segundo trimestre de 2026. O indicador é calculado sobre a população economicamente ativa.
O número mostra que a redução do emprego formal ocorre em um mercado de trabalho que ainda enfrenta dificuldades para absorver trabalhadores. Ao mesmo tempo, a migração para modalidades autônomas altera a leitura tradicional do desemprego, porque uma pessoa que deixou um emprego formal e passou a trabalhar por conta própria pode continuar sendo contabilizada como ocupada.
Por isso, o número de desempregados não deve ser analisado isoladamente. A evolução dos empregos registrados, do trabalho autônomo, dos salários e da atividade econômica ajuda a compreender melhor o comportamento do mercado de trabalho.
Indústria argentina perde força
Outro indicador importante é o desempenho da indústria.
Segundo os dados oficiais do Indec, a produção industrial manufatureira apresentou queda de 5% em julho de 2026 na comparação mensal. A utilização da capacidade instalada ficou em 58,2%, abaixo dos 58,4% registrados no mesmo mês do ano anterior.
Na análise acumulada de 12 meses, a indústria registrou retração de 2,6%, conforme os dados citados pela Agência Brasil. Entre os segmentos mais afetados está a fabricação de equipamentos eletrônicos e médicos, cuja queda chegou a 19,1% no período.
O cenário industrial ajuda a explicar por que a discussão econômica argentina não se resume ao comportamento da inflação. A estabilização dos preços pode coexistir com dificuldades em setores produtores de bens, especialmente quando empresas enfrentam custos, demanda interna e concorrência externa em um ambiente de transformação econômica.
Inflação cai, mas outros indicadores continuam pressionados
A economia argentina apresenta, ao mesmo tempo, uma melhora expressiva no comportamento dos preços.
A inflação acumulada em 12 meses caiu de 289% em abril de 2024 para 33,5% em agosto de 2026, segundo os dados apresentados pela Agência Brasil.
O resultado representa uma mudança significativa em relação ao período de forte aceleração inflacionária enfrentado no início do governo Milei. O controle da inflação é um dos principais argumentos utilizados pelo governo argentino para defender sua política econômica.
Por outro lado, a queda dos preços não eliminou problemas relacionados ao emprego e à atividade produtiva. O cenário atual combina inflação significativamente menor com redução do número de empresas, perda de empregos formais e dificuldades na indústria.
Essa combinação explica parte do debate sobre os efeitos do programa econômico argentino.
PIB cresce, mas perde ritmo no segundo trimestre
Os dados de atividade econômica acrescentam outra dimensão à análise.
O Indec informou que o Produto Interno Bruto cresceu 2% no segundo trimestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025. Na comparação com o primeiro trimestre, porém, houve uma queda de 0,6% no PIB dessazonalizado.
O comportamento mostra que crescimento anual e perda de ritmo no curto prazo podem ocorrer simultaneamente. O dado também ajuda a evitar uma interpretação baseada em apenas um indicador: a economia argentina não está em uma trajetória uniforme de expansão ou retração em todos os seus componentes.
Em 2025, segundo números citados pela Agência Brasil, o PIB argentino havia crescido 4,4%, depois de uma contração de 1,3% em 2024.
O que Milei argumenta sobre a economia
Milei contesta a interpretação de que o fechamento de empresas represente, isoladamente, um fracasso de sua política econômica.
Em discurso realizado no fim de agosto, o presidente argentino destacou indicadores como inflação, exportações, consumo privado e crescimento do PIB. Ao comentar as críticas relacionadas ao fechamento de empresas, afirmou que, se todas as empresas estivessem fechando e nenhuma estivesse sendo criada, o desemprego estaria disparando.
O governo também sustenta que parte do processo corresponde à saída de empresas menos competitivas e à transformação da estrutura econômica argentina.
Essa interpretação é diferente da apresentada por centros de pesquisa e analistas que destacam a perda de empresas e empregos formais como sinais de enfraquecimento do mercado interno e da indústria. As duas leituras precisam ser diferenciadas dos dados objetivos, que mostram simultaneamente redução de empresas e empregos formais, queda da inflação e crescimento do PIB em determinados períodos.
A economia argentina e a disputa política com o Brasil
É nesse ambiente econômico que Milei voltou a fazer críticas à orientação política brasileira.
O presidente argentino tem defendido uma agenda de maior abertura econômica, redução da participação estatal e equilíbrio das contas públicas. O governo brasileiro, por sua vez, mantém uma orientação diferente em relação ao papel do Estado na economia.
A divergência ultrapassa a política econômica e alcança a disputa eleitoral brasileira de 2026. Milei já declarou apoio a Flávio Bolsonaro, enquanto suas críticas ao governo Lula passaram a integrar o debate político brasileiro.
Por isso, a resposta de Boulos não ocorre de forma isolada. Ela está inserida em uma disputa política que envolve as relações entre os dois países e diferentes visões sobre economia, Estado e política externa.
Carne de burro foi uma experiência localizada na Argentina
A referência utilizada por Boulos também precisa ser colocada em perspectiva.
Em abril, uma experiência comercial em Trelew colocou carne de burro à venda por cerca de 7.500 pesos argentinos por quilo. A iniciativa foi apresentada como alternativa para produtores diante das dificuldades enfrentadas pela pecuária tradicional na região.
O episódio ganhou repercussão, mas não representa evidência de que o consumo de carne de burro tenha se tornado uma prática generalizada na Argentina.
Assim, a frase de Boulos deve ser entendida como uma provocação política baseada em um episódio específico, e não como uma descrição do padrão alimentar argentino.
O que os dados revelam sobre o governo Milei
Os indicadores disponíveis mostram uma economia argentina com resultados diferentes conforme o aspecto analisado.
De um lado, a inflação anual recuou fortemente, passando de 289% em abril de 2024 para 33,5% em agosto de 2026. O PIB também apresentou crescimento em 2025 e expansão de 2% na comparação anual do segundo trimestre de 2026.
De outro, o país registrou redução de 31.342 empresas desde novembro de 2023, perda de aproximadamente 245,6 mil empregos privados formais e taxa de desemprego de 7,9% no segundo trimestre de 2026. A indústria também apresentou queda na produção e capacidade instalada próxima de 58%.
O quadro, portanto, não pode ser resumido apenas a inflação ou apenas a fechamento de empresas. Os dados apontam para uma transição econômica com ganhos em alguns indicadores e custos em outros.
Por que o fechamento de empresas importa
A quantidade de empresas empregadoras é um indicador importante porque está relacionada à capacidade de uma economia gerar empregos formais.
Estudo da própria Fundar sobre a demografia empresarial argentina mostra uma relação histórica entre crescimento do PIB e expansão do número de empresas. A instituição também aponta que empresas maiores tendem a apresentar maior produtividade e salários mais elevados, enquanto unidades menores concentram taxas maiores de informalidade.
Nesse sentido, a redução do número de empresas não significa somente menos CNPJs ou registros empresariais. Ela pode afetar emprego, renda, arrecadação e capacidade produtiva, especialmente quando a redução ocorre durante vários períodos consecutivos.
Ao mesmo tempo, o indicador precisa ser analisado junto à abertura de novas empresas, à produtividade e à mudança de composição entre setores para determinar se a economia está apenas passando por uma reorganização estrutural ou enfrentando uma redução mais ampla de sua capacidade produtiva.
O cenário ajuda a explicar por que a política econômica de Milei permanece no centro do debate argentino e também passou a ser utilizada como referência na disputa política brasileira. Os próximos indicadores de emprego, atividade industrial, inflação e crescimento serão importantes para medir se a economia conseguirá transformar a estabilização dos preços em uma recuperação mais ampla da atividade produtiva.
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