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Como surgiu o Centrão e por que ele é tão poderoso?

Saiba de onde veio o Centrão, como seu significado mudou desde a Constituinte e por que o grupo se tornou decisivo para a governabilidade no Congresso.

Centrão
Lideres do centrão, deputados Arthur Lira e Hugo Motta. Foto: Câmara dos Deputados

O Centrão nasceu durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988, em meio à disputa sobre os rumos da nova Constituição brasileira, e ganhou um novo significado décadas depois. O termo voltou ao debate político a partir de 2016 para identificar um conjunto heterogêneo de parlamentares e partidos cuja atuação é marcada menos por uma identidade ideológica comum e mais pela negociação de interesses, apoio político e participação nas decisões do Congresso. A força desse grupo ajuda a explicar por que presidentes precisam construir amplas coalizões para aprovar suas agendas.

O que é o Centrão?

O termo Centrão não designa atualmente um partido político específico nem possui uma composição oficial e permanente no Congresso Nacional. Na prática, é uma expressão utilizada para identificar um agrupamento parlamentar heterogêneo, cuja composição pode mudar conforme a pauta, a conjuntura e as negociações políticas.

Essa característica diferencia o Centrão do conceito clássico de centro político. Um partido ou movimento de centro, em sentido ideológico, tende a ocupar uma posição intermediária entre esquerda e direita. Já o Centrão contemporâneo é frequentemente associado ao pragmatismo parlamentar, ao fisiologismo e ao clientelismo.

Um estudo publicado na revista Caderno CRH, da Universidade Federal da Bahia, observa que não existe uma definição formal única para o Centrão atual. A pesquisa caracteriza o chamado “Centrão 2.0” pela combinação de práticas clientelistas e fisiológicas, com espaço para diferentes posições ideológicas entre os parlamentares.

Por isso, a expressão deve ser utilizada com cuidado. Nem todo parlamentar de centro faz parte do Centrão, assim como nem todos os integrantes de partidos frequentemente associados ao grupo votam da mesma maneira em todas as matérias.

Como surgiu o Centrão na Constituinte?

A origem histórica do Centrão está na Assembleia Nacional Constituinte instalada em 1987, responsável pela elaboração da Constituição promulgada em 5 de outubro de 1988.

O processo ocorreu durante a transição democrática após o fim do regime militar, encerrado formalmente em 1985. A Constituinte reuniu 559 parlamentares e foi marcada por intensos debates sobre direitos sociais, organização do Estado, sistema político, economia, reforma agrária, relações trabalhistas e outras questões fundamentais para a nova democracia brasileira.

Foi nesse ambiente que um grupo suprapartidário de perfil mais conservador se organizou para reagir ao protagonismo de setores progressistas da Constituinte. A própria documentação histórica da Câmara dos Deputados registra a atuação do Centrão na disputa pela mudança do regimento interno da Assembleia.

Em dezembro de 1987, registros da Câmara apontavam que o grupo reunia cerca de 330 constituintes, tornando-se uma força majoritária em determinados momentos das negociações. Entre os temas que defendia estavam mudanças em pontos relacionados à estabilidade no emprego, ensino privado, livre iniciativa e prerrogativas do Congresso.

Por que o Centrão ganhou importância na Constituição de 1988?

A força do Centrão na Constituinte estava relacionada à capacidade de reunir parlamentares de diferentes partidos em torno de determinadas pautas.

Estudos acadêmicos sobre o período apontam que a atuação do grupo alterou o equilíbrio político da Assembleia. Uma pesquisa publicada na Revista Brasileira de Ciências Sociais descreve o Centrão como majoritariamente conservador e avalia que sua atuação contribuiu para deslocar o resultado das negociações em direção ao centro-direita em diferentes pontos do texto constitucional.

A documentação histórica da Câmara também mostra que o grupo teve participação decisiva nas disputas regimentais. Em uma votação registrada em novembro de 1987, a preferência pela proposta do Centrão foi aprovada por 271 votos a 223, com duas abstenções.

O Centrão daquele período, portanto, tinha uma característica diferente da associação feita atualmente com o termo. Tratava-se de uma articulação suprapartidária organizada em torno de uma disputa específica dentro da Constituinte.

O Centrão atual é o mesmo dos anos 1980?

Não. Apesar de o nome ter permanecido, o significado político da expressão mudou.

O termo voltou a ganhar força no debate nacional na década de 2010, especialmente durante a presidência da Câmara dos Deputados de Eduardo Cunha e a crise política que antecedeu o impeachment de Dilma Rousseff.

A partir desse período, Centrão passou a ser utilizado para descrever uma articulação mais ampla de partidos e parlamentares que negociam apoio ao governo e influência no Legislativo. Diferentemente da Constituinte, não existe necessariamente uma pauta ideológica comum capaz de definir todos os seus integrantes.

A literatura acadêmica passou a utilizar a expressão “Centrão 2.0” para analisar essa nova configuração. Segundo estudo publicado em 2024, a agenda fisiológica e clientelista ganhou maior importância nessa versão contemporânea, enquanto as fronteiras ideológicas se tornaram mais flexíveis.

Por que o Centrão não é simplesmente o centro político?

A diferença está principalmente na natureza da atuação.

O centro político, em sentido ideológico, pressupõe uma posição relativamente estável entre esquerda e direita. Um partido pode defender determinadas políticas econômicas próximas da direita e, simultaneamente, posições sociais mais próximas da esquerda, por exemplo.

Já o Centrão contemporâneo não possui necessariamente esse programa político uniforme.

Sua força está na capacidade de negociação. Parlamentares podem apoiar o governo em determinada matéria e divergir em outra. A posição pode variar conforme o tema, os interesses regionais, as prioridades das bancadas e as negociações políticas em andamento.

É justamente essa fluidez que torna difícil estabelecer uma lista definitiva de quem pertence ou não ao Centrão.

Como a fragmentação partidária fortaleceu o Centrão?

A fragmentação do sistema partidário brasileiro é um dos fatores que ajudam a explicar a importância das articulações suprapartidárias.

No presidencialismo brasileiro, o presidente precisa formar maioria no Congresso para aprovar projetos de lei, medidas estruturais e alterações constitucionais. Quanto maior a fragmentação entre as bancadas, maior tende a ser a necessidade de negociação.

No caso de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), por exemplo, são necessários 3/5 dos votos em cada Casa do Congresso, em dois turnos. Na Câmara dos Deputados, isso corresponde a 308 dos 513 deputados.

Nesse ambiente, grupos capazes de reunir dezenas ou centenas de parlamentares podem assumir papel decisivo nas votações.

A negociação, portanto, não ocorre apenas entre presidente e partido. Ela envolve líderes partidários, presidentes das Casas legislativas, bancadas temáticas e parlamentares individualmente.

O que significa fisiologismo político?

O fisiologismo é um conceito frequentemente utilizado para descrever práticas políticas nas quais interesses particulares, partidários ou relacionados à manutenção de apoio têm peso significativo nas decisões.

No debate sobre o Centrão, o termo costuma aparecer associado à negociação de cargos, recursos, emendas e apoio parlamentar.

Isso não significa, entretanto, que todas as decisões de parlamentares classificados como integrantes do Centrão sejam exclusivamente fisiológicas. O próprio debate acadêmico sobre o fenômeno aponta para a combinação entre interesses pragmáticos e posições ideológicas que podem aparecer em determinadas pautas.

A atuação pode mudar conforme o assunto. Em uma votação econômica, por exemplo, prevalecer determinado interesse parlamentar; em uma pauta de costumes, podem ganhar peso convicções ideológicas ou as posições de bancadas temáticas.

Quais pautas estão associadas ao Centrão?

Não existe uma agenda única do Centrão.

Parlamentares frequentemente associados ao grupo podem integrar ou se aproximar de bancadas temáticas como a ruralista, a evangélica e a chamada bancada da segurança pública. Essas classificações, contudo, não são sinônimas de Centrão e não significam que todos os integrantes dessas frentes façam parte de um mesmo bloco político.

A atuação também pode variar conforme a matéria em votação.

Essa característica torna o Centrão um grupo politicamente maleável. Em determinadas circunstâncias, pode apoiar medidas do governo. Em outras, pode pressionar por alterações, bloquear propostas ou construir uma posição alternativa.

Por que o Centrão é importante para a governabilidade?

A importância do Centrão está diretamente ligada à dificuldade de governos presidenciais construírem maiorias estáveis em um Congresso fragmentado.

Presidentes de diferentes correntes ideológicas precisam negociar para transformar propostas do Executivo em leis. Essa dinâmica não é exclusiva de um governo específico e faz parte do funcionamento do presidencialismo de coalizão brasileiro.

O Centrão se torna especialmente relevante quando possui capacidade de influenciar votações decisivas ou de articular maiorias.

Essa posição também pode aumentar o poder de negociação do Congresso diante do Executivo, reduzindo a margem de manobra presidencial em determinadas situações.

O cientista político Bruno Bolognesi, citado no material que serve de base para esta reportagem, diferencia o Centrão da Constituinte do atual e associa o grupo contemporâneo a uma atuação clientelista e fisiológica.

O Centrão é um bloco permanente?

Não necessariamente.

Uma das principais características atribuídas ao Centrão contemporâneo é justamente a ausência de uma composição rígida.

Partidos e parlamentares podem se aproximar ou se afastar conforme o cenário político, as eleições, a relação com o governo e as pautas em discussão.

Por isso, qualquer tentativa de apresentar uma lista definitiva de partidos que integram o Centrão precisa ser tratada com cautela. A composição pode mudar ao longo do tempo e conforme o critério utilizado.

A produção acadêmica sobre o tema também chama atenção para essa dificuldade. Em vez de uma organização formal, o Centrão atual é analisado como uma forma de articulação política que combina partidos, parlamentares e interesses diversos.

O que mudou na política brasileira?

O Centrão passou por pelo menos duas fases distintas na história recente.

A primeira ocorreu na Assembleia Nacional Constituinte, quando um grupo suprapartidário se organizou para disputar os rumos da elaboração da Constituição de 1988.

A segunda ganhou força a partir dos anos 2010 e passou a designar uma articulação parlamentar mais fluida, marcada por negociações pragmáticas e diferentes graus de alinhamento ideológico.

A mudança mostra que o termo não representa uma organização política imutável. Seu significado depende do contexto histórico.

Em 2026, análises sobre o posicionamento ideológico dos partidos continuam mostrando diferenças importantes entre as siglas e também variações conforme o comportamento observado no Congresso. O GPS Partidário 2026, elaborado pela Folha de S.Paulo, por exemplo, utiliza votações, frentes parlamentares, migrações partidárias, coligações e doações para medir o posicionamento prático das legendas.

Da redemocratização ao Congresso fragmentado

A compreensão do Centrão exige olhar para a redemocratização brasileira. A Constituição de 1988 ampliou direitos sociais e consolidou novas bases institucionais para o país depois de duas décadas de regime militar.

A Assembleia Nacional Constituinte foi marcada por disputas entre diferentes projetos para o Brasil. A documentação da Câmara registra a existência do Centrão como uma articulação organizada ainda em 1987.

Décadas depois, a expressão ganhou novo sentido diante de mudanças no sistema partidário, do fortalecimento do Congresso e da necessidade de governos construírem coalizões amplas.

O papel do Congresso na governabilidade

O presidencialismo brasileiro combina um presidente eleito pelo voto popular com um Congresso formado por múltiplos partidos.

Isso faz com que a governabilidade dependa, em grande medida, da capacidade de construir maiorias parlamentares.

Nesse contexto, grupos que conseguem articular bancadas e influenciar votações adquirem poder de negociação. O Centrão é frequentemente identificado como uma dessas forças.

O termo ainda é motivo de debate

Embora seja amplamente utilizado no jornalismo e no debate político, Centrão não é uma categoria institucional do Congresso Nacional.

Não há um cadastro oficial de parlamentares “do Centrão”. A definição depende do critério utilizado: comportamento em votações, alianças, participação em negociações, posição diante do governo ou atuação partidária.

Por isso, a expressão deve ser compreendida como uma categoria política e analítica, e não como uma bancada formal.

O Centrão surgiu na Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988 como uma articulação suprapartidária que buscava influenciar os rumos da nova Constituição brasileira. Décadas depois, o termo foi recuperado para descrever uma força parlamentar mais ampla, heterogênea e sem uma identidade ideológica única.

Seu poder atual está relacionado à capacidade de negociação em um Congresso fragmentado. Mais do que representar uma posição intermediária entre esquerda e direita, o Centrão contemporâneo é frequentemente associado ao pragmatismo, ao clientelismo e ao fisiologismo, embora seus integrantes também possam assumir posições ideológicas em determinadas pautas.

A principal questão para os próximos ciclos políticos continua sendo a relação entre Executivo e Legislativo. Enquanto o Congresso permanecer fragmentado e as maiorias dependerem de amplas negociações, grupos identificados como Centrão tendem a manter papel relevante na governabilidade brasileira.

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