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Raquel Lyra e a neutralidade diante de uma eleição que exige posição

Em um segundo turno marcado pelo confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro, a decisão da governadora de Pernambuco de permanecer neutra não pode ser tratada apenas como uma escolha pessoal. Quando a democracia está em disputa, o silêncio de quem ocupa um mandato também precisa ser submetido ao debate público.

Raquel Lyra
Governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), reeleita no primeiro turno. Fotos: Blog Dellas

Raquel Lyra decidiu permanecer neutra no segundo turno da eleição presidencial. Reeleita governadora de Pernambuco, ela afirma que não dará palanque a Lula nem a Flávio Bolsonaro e que pretende preservar sua relação institucional com qualquer presidente escolhido pelos brasileiros. A governadora também reconhece a parceria administrativa construída com o governo Lula, mas sustenta que sua prioridade é Pernambuco e que não pretende transformar sua posição em apoio eleitoral a nenhum dos dois candidatos. Formalmente, Raquel tem todo o direito de fazê-lo. Seu voto é secreto, sua liberdade política deve ser respeitada e ninguém pode obrigá-la a participar de uma campanha.

Mas uma coisa é reconhecer o direito individual de uma cidadã de não declarar seu voto; outra, bastante diferente, é não questionar politicamente a decisão de uma governadora diante de uma eleição que coloca em confronto projetos tão distintos de país. Raquel Lyra não é mais apenas uma eleitora comum. Ela ocupa o mais alto cargo político de Pernambuco, acaba de receber novamente um mandato popular e exerce uma autoridade que ultrapassa sua esfera pessoal. Por isso, quando o país chega a uma disputa presidencial marcada por profundas divergências sobre democracia, instituições e limites do poder, é legítimo perguntar qual é a posição de uma governadora diante dos valores que estão sendo colocados em jogo.

O ponto central deste debate, portanto, não é exigir que Raquel faça campanha para Lula. Tampouco se trata de dizer que uma governadora precisa transformar sua máquina política em instrumento de uma candidatura presidencial. O que está em discussão é algo muito maior: a responsabilidade de uma liderança pública de reconhecer quando uma eleição ultrapassa a disputa convencional entre partidos e candidatos e passa a envolver questões fundamentais sobre o próprio funcionamento do regime democrático.

Não estamos diante de uma eleição qualquer

A eleição de 2026 não pode ser analisada como se fosse apenas mais uma disputa entre esquerda e direita. De um lado está Luiz Inácio Lula da Silva, presidente que disputa a continuidade de um projeto político dentro das regras constitucionais e eleitorais existentes. Do outro está Flávio Bolsonaro, candidato que representa a continuidade política do bolsonarismo e carrega consigo o legado de um movimento cujo principal líder, Jair Bolsonaro, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado.

Essa informação não pode ser retirada do debate simplesmente porque Flávio Bolsonaro não é Jair Bolsonaro. É evidente que um filho não pode ser responsabilizado juridicamente pelos atos do pai e que Flávio deve responder individualmente por suas próprias posições. Mas política também é continuidade, identidade e projeto. Flávio construiu sua trajetória dentro do núcleo político do bolsonarismo, foi um dos principais aliados de seu pai e apresenta sua candidatura como parte da continuidade desse campo político. Portanto, é perfeitamente legítimo que o eleitor considere esse histórico ao avaliar o que sua candidatura representa.

O próprio discurso de Flávio durante esta campanha reforça a necessidade de olhar para esse contexto. O candidato afirmou que o Brasil não vive uma democracia plena e defendeu mudanças profundas no funcionamento das instituições. Também falou sobre utilizar uma eventual maioria no Congresso para promover alterações constitucionais. É absolutamente legítimo discutir mudanças na Constituição, criticar o Supremo Tribunal Federal ou propor reformas institucionais. O problema começa quando essas propostas são apresentadas dentro de um ambiente político marcado por um histórico recente de questionamento das instituições e de tentativa de ruptura da ordem democrática.

É exatamente por isso que não considero razoável tratar as duas candidaturas como se fossem apenas duas alternativas administrativas equivalentes. Isso não significa dizer que Lula esteja acima de críticas, que seu governo não possa ser fiscalizado ou que seus erros devam ser ignorados. Muito pelo contrário. A democracia existe justamente para permitir que um governo seja criticado, investigado, derrotado e substituído pelo voto. Lula não está acima da Constituição, das instituições ou da fiscalização pública. Seu partido também não está.

A questão é que defender a democracia não significa defender um governo específico. Significa defender as regras que permitem que qualquer governo seja submetido ao voto e possa ser substituído sem ruptura institucional.

O legado de Bolsonaro não pode ser apagado

Há uma dificuldade adicional para quem tenta apresentar a disputa atual como uma eleição presidencial convencional: a história recente do Brasil ainda está muito próxima. Não estamos falando de acontecimentos ocorridos há décadas, registrados apenas nos livros de história. Estamos falando de uma tentativa de ruptura institucional investigada, julgada e que resultou na condenação de Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal.

Esse episódio faz parte da história política brasileira e não pode ser simplesmente retirado da equação eleitoral. Flávio Bolsonaro pode afirmar que pretende governar dentro das instituições e que suas propostas são legítimas. E essas declarações devem ser consideradas. Mas o eleitor também tem o direito de considerar o histórico político do grupo que ele representa, suas relações, seus discursos e suas propostas.

Quando Flávio afirma que pretende levar adiante o legado político do pai, quando defende mudanças profundas nas instituições e quando apresenta sua candidatura como continuidade daquele campo político, não cabe ao jornalismo ou ao debate público fingir que essa continuidade não existe.

É justamente por isso que a neutralidade de Raquel Lyra merece ser questionada.

A democracia não pode ser defendida somente quando é conveniente

Existe algo particularmente contraditório em celebrar a democracia quando ela produz um resultado favorável e, ao mesmo tempo, tratar como assunto privado a necessidade de defendê-la quando ela está sob pressão. Depois de ser reeleita, Raquel Lyra afirmou que “a democracia falou” ao comemorar o resultado das urnas. A frase é correta e expressa uma verdade essencial: o voto popular deve ser respeitado.

Mas a democracia não fala somente quando confirma aquilo que desejamos.

Ela também fala quando escolhe nosso adversário. Fala quando derrota nosso candidato. Fala quando coloca no poder alguém de quem discordamos. Fala quando uma instituição toma uma decisão que consideramos equivocada. E, sobretudo, fala quando precisamos defender o direito de todos continuarem disputando o poder dentro das regras constitucionais.

É nesse ponto que a posição da governadora deixa de ser apenas uma questão eleitoral e passa a ser uma questão política.

Raquel diz que permanecerá ao lado do povo pernambucano. É uma afirmação legítima, mas insuficiente diante da dimensão da disputa. O povo pernambucano não é uma entidade politicamente homogênea. Existem milhões de eleitores com posições diferentes, e cabe à governadora respeitar todas essas posições. Porém, respeitar a diversidade política não significa abandonar a possibilidade de defender princípios comuns.

Uma governadora pode conversar com todos e, ao mesmo tempo, afirmar que não aceita golpe de Estado. Pode manter relações institucionais com um presidente de esquerda e, simultaneamente, discordar de suas políticas. Pode dialogar com setores da direita sem aceitar ataques às instituições. Pode defender reformas no Estado sem defender ruptura democrática.

Essa é, justamente, a maturidade que se espera de uma liderança política.

Neutralidade não é necessariamente independência

Há uma diferença importante entre independência política e neutralidade diante de princípios.

Ser independente significa não se submeter automaticamente a um partido ou a um grupo político. Significa poder dialogar com diferentes setores e preservar autonomia para defender os interesses do Estado. Nesse sentido, a trajetória de Raquel Lyra pode ser interpretada como uma tentativa de construir uma posição própria no cenário político pernambucano.

Mas independência não deveria significar ausência de princípios.

Uma liderança pode ser independente e, ao mesmo tempo, dizer que não aceita a ruptura institucional. Pode ser de centro e defender a democracia. Pode ser de direita e rejeitar o golpismo. Pode ser de esquerda e criticar abusos cometidos pelo governo. O compromisso democrático não pertence a uma ideologia.

Por isso, a pergunta que deveria ser feita a Raquel Lyra não é simplesmente “Lula ou Flávio?”. A pergunta mais importante é: qual dos dois projetos a governadora considera compatível com os princípios democráticos que ela própria afirmou defender quando comemorou sua vitória eleitoral?

Se ela não quiser declarar voto, que não declare. Se não quiser subir em palanque, que não suba. Mas poderia dizer, com toda a clareza, quais são os limites que considera inegociáveis.

E, diante do histórico recente do Brasil, esses limites deveriam ser muito claros.

Não existe democracia sem limites ao poder

A democracia não consiste apenas em colocar uma urna eletrônica diante do eleitor a cada quatro anos. Ela envolve um conjunto de instituições, direitos e garantias que limitam o poder de quem governa. Envolve imprensa livre, oposição, Judiciário independente, Legislativo funcionando, respeito às decisões judiciais, liberdade de manifestação e, acima de tudo, respeito ao resultado das eleições.

Um presidente eleito não recebe autorização para fazer qualquer coisa. Uma maioria parlamentar também não recebe autorização para destruir as regras que garantem a existência das próprias maiorias. A Constituição existe justamente para estabelecer limites.

É possível defender sua reforma. É possível propor mudanças. Mas qualquer mudança precisa respeitar o processo constitucional e preservar as bases do Estado Democrático de Direito.

Quando um candidato afirma que pretende utilizar uma maioria política para alterar profundamente as instituições, é obrigação do eleitor prestar atenção. Não para rejeitar automaticamente a proposta, mas para compreender suas consequências.

E uma governadora também deveria participar desse debate.

Raquel não precisa escolher um partido, mas precisa escolher um princípio

É possível compreender a estratégia de Raquel Lyra. Pernambuco é um Estado politicamente plural. Sua base reúne diferentes partidos e grupos. Uma declaração de apoio poderia provocar tensões internas e obrigá-la a administrar conflitos que talvez prefira evitar.

Também é possível compreender sua preocupação em manter uma relação institucional com o governo federal, seja ele comandado por Lula ou por qualquer outro presidente. Pernambuco depende de investimentos federais, programas nacionais e cooperação entre diferentes níveis de governo. Uma governadora precisa conversar com Brasília independentemente de sua preferência eleitoral.

Mas governabilidade não pode ser confundida com silêncio político.

Uma coisa é dizer que Pernambuco continuará trabalhando com o governo federal, qualquer que seja o resultado da eleição. Outra é evitar qualquer manifestação sobre os valores democráticos que devem orientar esse governo.

Raquel não precisa escolher um partido.

Mas, na minha avaliação, precisa escolher um princípio.

E esse princípio deveria ser a democracia.

O silêncio também comunica

Quando uma autoridade decide não se posicionar, ela não deixa de fazer uma escolha política. Escolhe não utilizar sua influência para defender publicamente uma das alternativas apresentadas ao eleitor.

Essa decisão deve ser respeitada, mas também pode ser criticada.

É assim que funciona uma democracia.

O cidadão não pode ser obrigado a apoiar Raquel Lyra porque ela foi eleita. Da mesma maneira, a governadora não pode esperar que sua decisão de neutralidade seja recebida sem questionamentos. Mandatos populares não concedem imunidade ao debate público.

É justamente o contrário.

Quanto maior a responsabilidade pública, maior deve ser a disposição para prestar contas politicamente.

Raquel conquistou legitimamente seu segundo mandato. Agora, também legitimamente, será cobrada pelas posições que assume — e pelas posições que decide não assumir.

Pernambuco não pode tratar a democracia como detalhe

Pernambuco possui uma tradição política marcada por conflitos em torno da liberdade, da autonomia e da democracia. É uma história que passa por 1817, pela Confederação do Equador, pela luta contra a ditadura militar e por gerações de políticos, intelectuais, movimentos sociais e cidadãos que pagaram preços elevados para que o país pudesse voltar a escolher seus governantes pelo voto.

Não é razoável tratar essa história como uma peça decorativa.

A democracia brasileira não está garantida para sempre. Nenhuma democracia está. Ela depende de instituições, mas também depende de pessoas dispostas a defendê-las quando necessário.

É por isso que a posição de Raquel Lyra merece ser discutida.

Não porque ela tenha obrigação de fazer campanha para Lula.

Não porque uma governadora deva abandonar sua autonomia.

E muito menos porque seus eleitores devam votar em determinado candidato.

A discussão é outra: quando existe uma disputa entre um projeto que se apresenta como continuidade da ordem constitucional e outro que está ligado politicamente a um grupo cujo principal líder foi condenado por tentativa de golpe, uma autoridade que ocupa um mandato popular pode simplesmente dizer que os dois lados são equivalentes e que não tem nada a declarar?

Na minha opinião, não deveria.

A democracia exige mais do que neutralidade

Raquel Lyra tem o direito de não declarar voto. Esse direito deve ser preservado.

Mas a sociedade pernambucana também tem o direito de cobrar dela uma posição sobre aquilo que está acima de qualquer candidatura: a democracia.

Lula deve ser criticado. Seu governo deve ser fiscalizado. Seus erros devem ser apontados. O PT não pode estar acima da crítica. Nenhum partido deve estar.

Mas a crítica a Lula não exige relativizar o histórico do bolsonarismo. Da mesma forma, a rejeição ao bolsonarismo não exige aceitar tudo o que Lula faz.

É possível fazer as duas coisas simultaneamente porque democracia é exatamente isso: capacidade de discordar sem destruir as regras que permitem a existência da própria discordância.

É nesse sentido que considero insuficiente a neutralidade de Raquel Lyra neste segundo turno.

Porque, quando a disputa chega a um ponto em que a própria natureza do regime democrático está entre os assuntos centrais da eleição, não basta dizer que se está ao lado do povo. É preciso dizer quais valores serão defendidos independentemente de quem esteja no poder.

Raquel não precisa ser cabo eleitoral de Lula. Não precisa abandonar sua identidade política. Não precisa romper com seus aliados. Não precisa transformar Pernambuco em palanque presidencial.

Mas poderia fazer algo muito mais importante: afirmar, de maneira inequívoca, que qualquer presidente eleito deverá respeitar a Constituição, o resultado das urnas, a independência dos Poderes e as instituições democráticas — e que qualquer tentativa de ruptura encontrará sua oposição.

Porque é disso que estamos falando.

Não apenas de Lula.

Não apenas de Flávio.

Estamos falando de qual democracia queremos entregar às próximas gerações.

E, diante dessa escolha, a neutralidade pode até ser um direito individual.

Mas, para quem ocupa um mandato público, defender a democracia deveria ser um dever político e moral.

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