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Caso Orelha: violência juvenil, negacionismo e o silêncio do poder público

Caso Orelha evidencia a violência contra animais e a necessidade de investigação rigorosa e políticas públicas de proteção animal.

Cão orelha
Morte de Orelha revela falhas do Estado em Santa Catarina. Foto: Reprodução


A morte de Orelha, cão comunitário adotado por moradores da Praia Brava, em Santa Catarina, após agressões que levaram à sua indução à morte, não é apenas um crime de maus-tratos contra um animal. O caso expõe um fenômeno social mais amplo e preocupante: o avanço de comportamentos violentos entre adolescentes, alimentados por um ambiente de banalização da crueldade, negacionismo de direitos e enfraquecimento do compromisso do Estado com políticas de proteção à vida.

Quatro adolescentes são suspeitos de terem cometido o crime. O fato de serem menores de idade não diminui a gravidade do ocorrido, mas impõe uma reflexão ainda mais profunda sobre o contexto social, educacional e político que molda essas condutas. A violência extrema contra um animal indefeso não surge de forma isolada; ela é resultado de valores que toleram, relativizam ou até estimulam a brutalidade como expressão de poder.

Nos últimos anos, o Brasil — e Santa Catarina em particular — tem assistido ao fortalecimento de discursos negacionistas e autoritários, frequentemente associados a setores da extrema-direita. São narrativas que desprezam direitos humanos, minimizam a proteção animal, atacam políticas ambientais e tratam a empatia como fraqueza. Esse ambiente simbólico influencia diretamente a formação de jovens, especialmente quando não há contrapontos sólidos por meio da educação, da cultura e das políticas públicas.

O governo de Jorginho Mello, filiado ao PL, partido que historicamente abriga setores alinhados a essas pautas, precisa ser analisado nesse contexto. Embora o governador tenha declarado que tomou conhecimento do caso e determinado investigação, a resposta institucional tardia e reativa revela uma ausência de prioridade política para a causa animal e para a prevenção da violência. Governar não é apenas reagir a crises, mas criar condições para que elas não ocorram.

A Delegacia de Proteção Animal informou que os suspeitos foram identificados e que a investigação segue de forma imparcial. Essa atuação técnica é fundamental e deve ser preservada. No entanto, limitar o debate à esfera policial é insuficiente. O caso Orelha exige uma discussão sobre responsabilidade coletiva: do Estado, das instituições educacionais e do discurso político que se naturalizou nos últimos anos.

A manifestação realizada pelos moradores da Praia Brava, em homenagem a Orelha e em defesa da justiça, demonstra que a sociedade está à frente do poder público quando o assunto é ética e empatia. A população entende que a violência contra animais é um alerta — um sinal de ruptura social que pode se expandir para outras formas de agressão.

Estudos e experiências internacionais mostram que a crueldade contra animais, especialmente quando praticada por jovens, está associada a contextos de intolerância, autoritarismo e ausência de políticas preventivas. Ignorar essa relação é, em si, uma forma de negacionismo.

O caso Orelha precisa ser tratado como um marco. Não apenas para punir os responsáveis dentro dos limites da lei, mas para questionar o modelo de sociedade que estamos construindo. Um governo que se cala, relativiza ou trata a proteção animal como tema secundário contribui para a erosão de valores fundamentais.

Justiça por Orelha é mais do que um pedido por responsabilização. É um chamado à revisão de prioridades políticas, ao enfrentamento do negacionismo e à construção de uma cultura que valorize a vida — toda forma de vida.

A pergunta que não quer calar é: até que ponto o discurso de ódio, o negacionismo e a banalização da violência estão moldando o comportamento de jovens e sendo tolerados pelo poder público?


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