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Cessar-fogo em Rojava reacende esperança, mas implementação do acordo gera cautela entre forças curdas

Acordo prevê integração das SDF ao Exército sírio, fim do cerco a Kobanê e retorno de deslocados, sob vigilância internacional

Protesto realizado em Londres no dia 31 de Janeiro
 Protesto em Londres, manifestação global pelo povo curdo. Foto: Guy Smallman  

Um acordo de cessar-fogo foi anunciado em Rojava, no norte e leste da Síria, com o consentimento das partes envolvidas, e seus efeitos devem começar a ser sentidos a partir da próxima segunda-feira. Apesar da sinalização de trégua, organizações e lideranças curdas demonstram cautela, diante do histórico de descumprimento de acordos anteriores por parte do Governo de Transição Sírio.

O entendimento busca estabelecer uma solução conjunta para o conflito e inclui pontos já consensuados, embora detalhes centrais ainda estejam em negociação. Lideranças locais destacam que a efetivação do acordo dependerá, sobretudo, da prática cotidiana, da resistência social e da vontade política da população da região.

Principais pontos do acordo

Entre os pontos anunciados está a retirada das forças do Governo de Transição Sírio e das Forças Democráticas Sírias (SDF) das linhas de frente, o que implicaria o fim do cerco a Kobanê. O acordo também prevê a integração das forças de defesa ao exército sírio como brigadas  e não de forma individual , mantendo a estrutura organizativa das SDF e permitindo que seus próprios comandantes sejam indicados pela organização.

Está prevista ainda a criação de uma divisão militar composta por três brigadas das SDF, além da formação de uma brigada específica de Kobanê vinculada à província de Aleppo. As instituições da Administração Autônoma deverão ser incorporadas ao Estado sírio, mantendo seus atuais funcionários e a continuidade de suas funções.

No campo da segurança, as forças Asayish seguirão responsáveis pela proteção das áreas de maioria curda. Já as forças vinculadas ao Ministério do Interior do Governo Provisório poderão entrar temporariamente em cidades como Qamishlo e Heseke apenas para coordenar a transição.

Retorno de deslocados e fim da ocupação

O acordo também garante o retorno de pessoas deslocadas, incluindo moradores de Afrin e Serekaniye, além do compromisso com o fim da ocupação turca. A administração dessas regiões deverá ficar sob responsabilidade dos próprios habitantes locais.

Kobanê deixará de estar sitiada, com a retomada do fornecimento de eletricidade, água e ajuda humanitária, além da reabertura das estradas entre as cidades.

Educação, língua e papel das mulheres

A área da educação permanece como um dos pontos mais sensíveis e ainda em negociação. A defesa do ensino na língua materna foi reafirmada, e uma proposta que previa aulas em árabe com apenas duas horas semanais opcionais de curdo foi rejeitada. A preservação da língua e da cultura curdas segue como prioridade.

As Unidades de Proteção das Mulheres (YPJ) e as Unidades de Proteção do Povo (YPG), integrantes das SDF, estão incluídas no processo de integração, embora a situação específica das YPJ deva ser discutida em uma etapa posterior.

Declarações e papel internacional

Em entrevista, o comandante das SDF, Mazlum Abdi, afirmou que as instituições das áreas curdas não sofrerão alterações substanciais e que as conquistas da revolução serão preservadas, ainda que a luta política continue sendo necessária. Ele destacou a importância do compromisso dos Estados Unidos e da França em supervisionar o processo e garantir sua implementação legal.

Segundo Abdi, a manutenção do cessar-fogo pode ter evitado um genocídio contra o povo curdo, especialmente em Kobanê, mas alertou que muitos aspectos só poderão ser avaliados durante a execução do acordo.

Resistência social e incertezas

Apesar do cessar-fogo, persistem preocupações quanto ao fortalecimento de grupos jihadistas, à reorganização do ISIS e à situação das mulheres em regiões como Raqqa e Tabqa, duramente afetadas por recentes episódios de violência. Ainda assim, lideranças locais afirmam que a sociedade seguirá mobilizada e resistente.

Citando Aldar Xelîl, representantes do movimento ressaltam que o acordo não encerra o processo de luta, que deve continuar por meios democráticos e pacíficos. Para eles, a resistência social, especialmente protagonizada pelas mulheres, permanece como eixo central da defesa dos valores da revolução de Rojava.

Mobilização global

A semana foi marcada por ações globais de solidariedade, com protestos e manifestações em diversas partes do mundo. Um novo dia de mobilização internacional pela revolução das mulheres está previsto, reforçando o apelo por apoio externo.

Diante de um cenário ainda incerto, lideranças locais reiteram que, mesmo com a possível suspensão dos combates armados, a luta pela paz, pela democracia e pela liberdade das mulheres em Rojava continua.



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