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Flávio Bolsonaro abandona fantasia de moderação e reaparece como herdeiro integral do bolsonarismo raiz

Coletiva de Flávio Bolsonaro sobre o caso Daniel Vorcaro e o financiamento do filme Dark Horse amplia crise política, ataques à PF e aproxima senador do estilo político de Jair Bolsonaro.

Flávio Bolsonaro
Crise do filme Dark Horse desmonta tentativa de Flávio Bolsonaro parecer moderado. Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

A crise envolvendo o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, produziu um efeito político que talvez o senador Flávio Bolsonaro tentasse justamente evitar: desmontou, diante das câmeras, a narrativa construída nos bastidores de que ele representaria uma versão mais pragmática, moderada e institucional do bolsonarismo para 2026.

A coletiva convocada pelo parlamentar para conter danos acabou funcionando como uma reedição quase perfeita do manual político do próprio pai: ataque a instituições, suspeitas sem provas, tentativa de transformar investigação em perseguição política e deslocamento do foco do escândalo para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Não houve moderação. Houve bolsonarismo em estado puro.

O formato da coletiva já antecipava o tom. Após reunião com parlamentares do PL, Flávio avisou previamente que faria apenas “comunicados” e não responderia perguntas da imprensa. Em vez de esclarecimentos, a estratégia parecia ser a de controlar danos por meio de uma fala unilateral, sem contraditório e sem aprofundamento.

Mas o problema político do senador não está apenas na forma. Está, sobretudo, no conteúdo das próprias declarações.

Ao tentar minimizar a relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, Flávio acabou reforçando os elementos mais delicados da crise.

Logo no início da fala, tentou apresentar o empresário como alguém respeitado nos círculos de poder de Brasília.

“Era uma pessoa que circulava em todas as rodas aqui em Brasília, em eventos com ministro do Supremo, alta roda de empresários”, afirmou.

A declaração revela um movimento clássico em crises políticas: usar a suposta circulação social de alguém influente como selo de legitimidade moral. O problema é que isso não responde à questão central que hoje pesa politicamente sobre o caso: a dimensão da dependência financeira do filme em relação ao dono do Banco Master.

E foi o próprio Flávio quem ajudou a aprofundar essa percepção.

O senador admitiu que Vorcaro já havia interrompido pagamentos ligados ao projeto em maio de 2025 e reconheceu que continuou cobrando respostas do banqueiro meses depois.

“Ele me dizia sempre que iria honrar com o contrato integralmente”, declarou.

Na prática, isso desmonta parte da tentativa de afastamento político construída durante a coletiva. Se já existiam sinais claros de problemas financeiros e contratuais antes da prisão do ex-banqueiro, por que a relação permaneceu ativa por tanto tempo?

A situação ficou ainda mais delicada quando Flávio confirmou que esteve pessoalmente com Daniel Vorcaro depois da prisão do empresário — já sob uso de tornozeleira eletrônica e restrições judiciais.

“Eu fui sim ao encontro dele para botar um ponto final nessa história”, afirmou.

A justificativa abre um problema político difícil de ignorar.

Se o objetivo era apenas encerrar uma relação comercial, por que a necessidade de um encontro presencial com um banqueiro recém-preso? Por que isso não ocorreu por meio de advogados, notificação formal ou tratativas jurídicas tradicionais?

São perguntas que permanecem sem resposta.

E o contexto financeiro do projeto torna tudo ainda mais sensível.

Reportagens já publicadas mostram que o financiamento do filme dependia quase integralmente de recursos ligados a Vorcaro. Segundo informações divulgadas pela imprensa, o banqueiro negociou um aporte de US$ 24 milhões para o projeto, sendo que mais de US$ 10 milhões já teriam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025.

A própria produtora do filme informou que o orçamento executado até agora gira em torno de US$ 13 milhões.

Na prática, isso significa que a maior parte da produção foi viabilizada com dinheiro associado ao ex-dono do Banco Master.

Esse ponto é politicamente devastador para a narrativa apresentada por Flávio. Vorcaro não aparece como personagem periférico, intermediador ocasional ou mero investidor secundário. O filme dependia financeiramente dele.

Foi justamente diante dessa fragilidade que o senador tentou deslocar o foco do debate para Lula.

Durante a coletiva, Flávio citou reportagens sobre conversas envolvendo o presidente da República, Gabriel Galípolo e Daniel Vorcaro para insinuar proximidade política entre o governo e o banqueiro.

A comparação, porém, enfrenta um problema evidente de proporcionalidade.

Enquanto o senador tenta equiparar diálogos políticos e institucionais a uma suposta relação semelhante, o seu próprio caso envolve o recebimento direto de recursos para financiar um projeto cinematográfico sobre Jair Bolsonaro.

Não se trata apenas de aproximação política. Trata-se de financiamento.

Mas o momento mais revelador da coletiva talvez tenha sido o ataque direto à Polícia Federal.

“Infelizmente, não está dando para contar 100% com a Polícia Federal, porque uma parte dela bastante aparelhada”, afirmou.

Na sequência, Flávio insinuou, sem apresentar provas, que um delegado ligado a investigações sobre descontos indevidos do INSS poderia ter sido pressionado ou ameaçado.

A fala reproduz exatamente o método político consolidado pelo bolsonarismo desde os anos de governo de Jair Bolsonaro: desacreditar instituições, levantar suspeitas graves sem evidências concretas e transformar qualquer investigação em narrativa de perseguição.

É justamente aí que a tentativa de vender Flávio como um bolsonarista “moderado” entra em colapso.

Nos bastidores do PL, havia um esforço crescente para apresentar o senador como alguém mais racional, menos explosivo e mais palatável ao centro político do que o pai. A crise do filme, porém, revelou outra coisa: sob pressão, Flávio reage exatamente da mesma maneira que Jair Bolsonaro sempre reagiu.

Ataca investigadores.

Questiona instituições.

Levanta suspeitas sem provas.

Evita perguntas.

E transforma crises políticas em disputas ideológicas contra inimigos abstratos.

No fim, a coletiva que deveria servir para reduzir danos acabou funcionando como uma confirmação pública da herança política que Flávio carrega.

Ao tentar salvar a imagem de moderado, terminou reaparecendo diante do país como o herdeiro mais fiel do bolsonarismo original.

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