Laura Cardoso morre e deixa uma história na TV brasileira.Foto: Reprodução
Há artistas que passam pela televisão. Outros, de alguma maneira, passam a fazer parte da vida das pessoas. Laura Cardoso pertenceu a essa segunda categoria. Sua voz, seu olhar e seus personagens acompanharam famílias brasileiras durante décadas. Quando aparecia em cena, havia algo de familiar. Como se aquela mulher que interpretava tantas vidas também carregasse um pedaço da memória de quem estava diante da televisão. A notícia de sua morte encerra uma trajetória extraordinária, mas não apaga aquilo que ela construiu. Ao contrário. A obra de Laura Cardoso permanece nas cenas, nas novelas, nos filmes, no teatro e, principalmente, na lembrança de milhões de brasileiros. A despedida de uma das grandes atrizes brasileirasLaura Cardoso morreu em São Paulo aos 98 anos. A família comunicou a morte por meio do perfil oficial da atriz nas redes sociais. O velório foi realizado nesta terça-feira (18), em São Paulo, em cerimônia reservada. A despedida acontece depois de uma vida praticamente inteira dedicada à interpretação. Nascida Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni, em São Paulo, Laura começou sua relação profissional com a arte ainda adolescente. Aos 15 anos, iniciou a trajetória no rádio, antes de ajudar a construir a história da televisão brasileira. Era uma época em que a televisão ainda dava seus primeiros passos no país. Laura estava lá. E continuou. Laura Cardoso ajudou a construir a televisão brasileiraA televisão brasileira nasceu e cresceu acompanhada por artistas que precisaram aprender uma nova linguagem diante das câmeras. Laura Cardoso foi uma dessas pioneiras. Ela estreou na televisão na década de 1950 e participou de teleteatros, novelas e séries em diferentes emissoras. Ao longo da carreira, passou por TV Tupi, Record, Bandeirantes e Globo, entre outras experiências. Segundo levantamentos publicados por veículos que acompanharam sua trajetória, Laura acumulou mais de 100 trabalhos e mais de 60 novelas. Poucos artistas brasileiros conseguiram atravessar tantas décadas mantendo tamanha presença na dramaturgia. Ela não acompanhou apenas a evolução da televisão. Ela ajudou a fazer essa história. De Guiomar a Isaura: personagens que ficaramLaura Cardoso construiu uma galeria de personagens que continuam vivos na memória do público. Em Mulheres de Areia, interpretou Isaura. Em A Viagem, deu vida a Guiomar. Também esteve em produções como Irmãos Coragem, Chocolate com Pimenta, Gabriela e Caminho das Índias. Guiomar, em particular, voltou a encontrar o público décadas depois, com a reprise de A Viagem. Era uma demonstração de que algumas interpretações não envelhecem. Mudam as tecnologias. Mudam os hábitos. Mudam as telas. Mas determinados personagens continuam esperando o público do outro lado da televisão. Uma atriz que nunca tratou a arte como celebridadeLaura Cardoso costumava falar da profissão com a seriedade de quem entendia o trabalho artístico como um ofício. Em entrevista ao Vídeo Show, ela afirmou que não acreditava em uma ideia definitiva de atriz “consagrada”. Para Laura, o artista precisava continuar aprendendo e buscando aperfeiçoamento. Em outra declaração, resumiu sua relação com a profissão de maneira ainda mais direta: o trabalho era parte essencial de sua vida. Essa visão ajudou a explicar a longevidade de sua carreira. Laura não parecia interessada apenas na fama. O que importava era a cena, o personagem, o texto e a capacidade de fazer o público acreditar naquela história. Teatro, cinema e televisão: uma artista de muitas linguagensEmbora tenha se tornado um rosto extremamente conhecido da televisão, Laura Cardoso nunca pertenceu exclusivamente à tela pequena. No teatro, trabalhou com importantes diretores brasileiros e recebeu o Prêmio Shell por atuações em Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu, em 1990, e Vereda da Salvação, em 1993. No cinema, participou de mais de 20 filmes. Entre os trabalhos estão Terra Estrangeira, Através da Janela, O Outro Lado da Rua e Copacabana. Sua atuação também recebeu reconhecimento em festivais e premiações do cinema brasileiro. A dimensão de sua carreira ajuda a compreender por que sua morte representa uma perda que ultrapassa a televisão. Laura Cardoso era parte da própria história das artes cênicas brasileiras. Uma carreira marcada por reconhecimentoO talento de Laura Cardoso recebeu reconhecimento ao longo de décadas. A atriz conquistou importantes prêmios por trabalhos no teatro, no cinema e na televisão. Em 2006, recebeu a Ordem do Mérito Cultural, uma das principais honrarias concedidas pelo governo brasileiro a pessoas que contribuem para a cultura do país. Em 2025, seu nome voltou a aparecer entre os grandes homenageados da cultura brasileira na edição daquele ano da Ordem do Mérito Cultural. A homenagem, portanto, veio antes da despedida. E talvez exista nisso uma espécie de justiça poética: reconhecer em vida alguém cuja contribuição já havia ultrapassado gerações. Os últimos capítulos de uma longa carreiraLaura Cardoso estava afastada das grandes produções televisivas, mas nunca deixou de representar completamente. Seu último trabalho na televisão foi em A Dona do Pedaço, em 2019. Em 2025, participou do curta-metragem Dona Rosinha, mantendo uma ligação com a interpretação mesmo depois de reduzir sua presença nos grandes estúdios. Em junho de 2026, Laura apareceu em um vídeo publicado nas redes sociais. Aos 98 anos, surgiu diante de flores e agradeceu pela beleza daquele momento. Foi uma das últimas imagens públicas de uma mulher que passou a vida diante das câmeras. Sem personagem. Sem roteiro. Apenas Laura. Laura Cardoso deixa personagens, memórias e silêncioA morte de Laura Cardoso abre um daqueles silêncios difíceis de preencher. Porque algumas perdas não significam apenas a ausência de uma pessoa. Significam o fim de uma presença. Durante décadas, Laura emprestou seu corpo, sua voz e sua sensibilidade a mulheres que existiam apenas no papel. Fez mães, avós, senhoras, personagens fortes, frágeis, doces, duras, engraçadas e trágicas. Mas, ao final, foi a própria Laura quem permaneceu. Uma mulher que começou no rádio quando a televisão brasileira ainda nem havia se consolidado. Uma atriz que atravessou mudanças tecnológicas, gerações de autores, diferentes escolas de interpretação e inúmeras transformações culturais. E continuou trabalhando. Continuou aprendendo. Continuou acreditando na arte. Resgate da história de Laura CardosoLaura Cardoso nasceu em São Paulo, em 1927. Seu nome de nascimento era Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni. Ainda adolescente, iniciou sua trajetória no rádio. A partir dos anos 1950, entrou para a história da televisão brasileira, participando dos primeiros ciclos de teleteatro e dramaturgia televisiva. Sua carreira avançou por diferentes emissoras e linguagens. Laura passou pelo rádio, teatro, televisão e cinema, acompanhando praticamente todas as grandes transformações da dramaturgia brasileira no século XX e início do século XXI. Na televisão, consolidou-se com personagens em novelas que se tornaram referências culturais. No cinema, trabalhou com importantes cineastas. No teatro, recebeu prêmios por interpretações de destaque. Seu percurso também foi marcado por reconhecimento institucional. Em 2006, recebeu a Ordem do Mérito Cultural pelo conjunto de sua contribuição à cultura brasileira. Mais do que uma extensa lista de trabalhos, Laura deixou uma maneira de interpretar. Uma presença. Uma voz. Um jeito de olhar. E uma lição silenciosa sobre permanência. Uma homenagem a Laura CardosoTalvez a melhor maneira de se despedir de uma atriz seja voltar às cenas. Porque atores não desaparecem completamente quando morrem. Eles ficam. Ficam naquela novela que alguém decide rever. Naquela personagem que uma avó apresenta a um neto. Naquela fala que atravessa décadas. Naquela lembrança de uma noite diante da televisão. Laura Cardoso atravessou o tempo fazendo aquilo que amava. E, agora, o tempo passa a cuidar de sua memória. A televisão brasileira perde uma de suas pioneiras. O teatro perde uma de suas grandes intérpretes. O cinema perde uma presença rara. E o público perde alguém que, por décadas, entrou em suas casas sem precisar bater à porta. Laura Cardoso parte aos 98 anos. Mas há artistas cuja despedida nunca é completa. Porque algumas pessoas deixam de estar diante das câmeras apenas para começar a morar definitivamente na memória. Laura Cardoso fica. Fica na arte. Fica na história. Fica no afeto. Fica no Brasil. |
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