A nova regra do MEI prejudica os empreendedores mais pobres ao somar renda pessoal e empresarial, criando um cenário de desigualdade tributária e insegurança.
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| Mudança no MEI ignora a realidade de quem depende de múltiplas atividades. Foto: Agência Sebrae/Reprodução |
A nova regra do MEI, que determina a soma da renda pessoal (CPF) e da receita empresarial (CNPJ) para fins de enquadramento no Simples Nacional, é apresentada pela Receita Federal como um avanço na transparência e no cruzamento de dados. No entanto, por trás do discurso técnico e fiscalista, a mudança representa um duro golpe sobre os microempreendedores mais pobres — justamente aqueles para quem o MEI foi criado.
Ao comparar o modelo anterior com o novo formato, fica evidente o desequilíbrio. Antes, o limite de R$ 81 mil anuais era calculado exclusivamente com base na receita da empresa MEI, permitindo que a pessoa física tivesse outras fontes de renda sem comprometer o enquadramento. Isso fazia sentido: o objetivo do regime simplificado sempre foi estimular a formalização e permitir que pessoas de baixa renda montassem pequenos negócios, mesmo que ainda precisassem complementar seus rendimentos com bicos, autônomos ou atividades paralelas.
Com a Resolução CGSN nº 183/2025, essa lógica foi completamente invertida.
A nova regra do MEI ignora a realidade do trabalhador brasileiro
A grande maioria dos MEIs não escolheu empreender porque abriu uma oportunidade de mercado. Eles se formalizaram por necessidade, muitas vezes depois de perder o emprego, reduzir renda ou buscar um mínimo de estabilidade financeira. São vendedores informais, prestadores de serviços, pequenos comerciantes digitais, diaristas e autônomos que encontraram no MEI um caminho para emitir nota, acessar crédito e contribuir para a previdência.
Na prática, ela presume que um microempreendedor com uma lojinha online que faturou R$ 40 mil no ano — e que precisou trabalhar como freelancer para pagar as contas — deve ser tratado como alguém que excede o limite do regime.
É um descolamento completo da realidade.
Comparação das regras: antes o MEI incluía, agora exclui
Antes da mudança
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Só contava o faturamento do CNPJ.
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A renda do CPF não influenciava o limite.
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O MEI podia complementar renda sem risco de desenquadramento.
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A regra estimulava a formalização e reduzia a vulnerabilidade financeira.
Depois da mudança (2025)
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Soma-se CNPJ + CPF.
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Qualquer renda extra pode empurrar o MEI para fora do regime.
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O empreendedor passa a pagar muito mais impostos, mesmo sem aumentar o faturamento da empresa.
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A medida desestimula a pluralidade de atividades e compromete a sobrevivência financeira dos mais pobres.
O contraste é gritante: o que antes representava segurança, agora se tornou ameaça.
A rigidez da regra cria insegurança econômica
O cruzamento automático de dados, por si só, não é um problema. A modernização fiscal é bem-vinda. O problema é o uso punitivo desse cruzamento — aplicado a um grupo social que já lida com instabilidade, renda variável e falta de acesso a direitos básicos.
Ao obrigar o MEI a manter uma única fonte de renda para não correr risco de desenquadramento, o Estado cobra estabilidade de quem vive da instabilidade.
O desenquadramento pode ser devastador
Sair do MEI significa:
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pagar mais impostos;
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enfrentar burocracias que muitos não conseguem arcar;
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precisar contratar contador obrigatório;
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perder competitividade em marketplaces e licitações;
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ter dificuldade no acesso a crédito.
A regra acentua desigualdades entre ricos e pobres
Enquanto o MEI — criado para quem mais precisa — sofre com o teto restritivo, as grandes empresas do Simples Nacional continuam com faixas de faturamento que chegam a milhões.
A discrepância é evidente:
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Multinacionais podem usar regimes especiais.
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Empresas maiores têm margens para se adaptar.
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O pequeno empreendedor, não.
Quando a legislação endurece justamente no ponto mais frágil da cadeia produtiva, ela reproduz desigualdade tributária. O pobre paga proporcionalmente mais. O microempreendedor tem menos margem para errar — e agora, menos margem para sobreviver.
A justificativa oficial não resiste a uma análise social
Os números mostram que o regime é massivamente composto por microempreendedores reais, não por pessoas tentando mascarar outras atividades.
A solução mais evidente: aumentar o limite do MEI
Essa escolha também revela prioridades.
A nova regra do MEI é fiscalmente eficiente, mas socialmente injusta
A nova regra do MEI pode até melhorar o controle fiscal, mas faz isso à custa de quem menos pode pagar a conta. É um retrocesso social travestido de avanço tecnológico.
Enquanto o limite não for ampliado e a legislação não for ajustada à realidade econômica, milhares de pequenos empreendedores seguirão no limbo — ou retornarão à informalidade.
Se o objetivo do Estado é fortalecer o empreendedorismo, o caminho não pode ser punir os mais pobres por trabalharem demais.

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