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O projeto de poder que substituiu a Marina Silva da esperança

De símbolo da renovação política à reprodução das práticas que sempre criticou, Marina Silva hoje representa frustração para antigos aliados.

Marina Silva
Marina Silva se tornou tudo o que dizia combater. Foto: Fernando Donasci / MMA

Por Sanchilis Oliveira.

Durante muitos anos, Marina Silva representou para uma geração inteira aquilo que parecia faltar à política brasileira: coerência, ética, sustentabilidade e compromisso com a justiça social. Em 2010, ao deixar o PT e se filiar ao Partido Verde, Marina se apresentou como uma alternativa real à polarização entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB). Seu discurso de renovação, crítico à velha política e distante dos palácios do poder, mobilizou milhares de jovens — entre eles, este que escreve.

Aquela candidatura não venceu, mas saiu das urnas com cerca de 20 milhões de votos, um feito expressivo para quem se colocava como outsider do sistema. Marina tornou-se símbolo de esperança política, ética e ambiental, inspirando militância, engajamento e a construção de algo novo.

A criação da Rede e o sonho coletivo

Após 2010, nasceu a Rede Sustentabilidade, fruto de um esforço coletivo, horizontal e participativo. Militantes, ativistas e voluntários foram às ruas coletar assinaturas, organizar núcleos e defender um projeto político que se propunha diferente das estruturas tradicionais. A Rede nasceu como um movimento antes de ser partido — e isso era seu maior trunfo.

Porém, com o passar do tempo, o ideal coletivo foi dando lugar a um projeto cada vez mais centralizado, dependente da figura de Marina Silva. As campanhas presidenciais seguintes — especialmente a de 2018, quando Marina obteve apenas 1% dos votos válidos — expuseram o esgotamento de uma narrativa que já não dialogava com a sociedade nem com a própria base partidária.

Sanchilis e Marina
Sanchilis Oliveira com a então pré-candidata a presidente do Brasil Marina Silva. Foto: Arquivo/ Fala News

O retorno ao governo e as contradições

Em 2023, Marina assumiu novamente o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, agora no governo Lula. Era uma oportunidade histórica de fortalecer a Rede Sustentabilidade, valorizar quadros históricos e consolidar um projeto partidário coerente com o discurso que sempre defendeu.

Isso, no entanto, não aconteceu.

A escolha de nomes para cargos estratégicos seguiu a lógica dos privilégios e do círculo restrito, contemplando majoritariamente amigos e aliados próximos. Militantes históricos, que estiveram ao lado de Marina nos momentos mais difíceis, ficaram à margem. O discurso contra a política tradicional começou a ruir diante da prática.

O racha interno e a perda de diálogo

O rompimento com Heloísa Helena, cofundadora da Rede, simboliza esse processo. Ao tentar impor um grupo político de São Paulo sobre a estrutura nacional do partido, Marina demonstrou desconexão com a base, com a militância e com a cultura horizontal da legenda.

O resultado foi inequívoco: derrota expressiva no Congresso Nacional da Rede em 2025. Ainda assim, Marina e seu grupo não aceitaram o resultado, mesmo após a validação formal do processo democrático interno.

Judicializações e instabilidade

Desde então, a estratégia adotada foi a da judicialização permanente. Ações contra a Rede, contra dirigentes nacionais e contra Heloísa Helena passaram a fazer parte do cotidiano partidário. Uma dessas iniciativas chegou a bloquear temporariamente as contas da legenda, gerando insegurança institucional e paralisia administrativa.

Para um partido que nasceu defendendo a democracia interna, a participação e o diálogo, esse caminho representa uma contradição profunda.

Poder, prestígio e palácios

O que se observa hoje é uma Marina Silva distante daquela figura que criticava os palácios, o poder concentrado e a lógica personalista. O foco passou a ser prestígio, influência e sobrevivência política, mesmo que isso signifique romper com o partido que ajudou a fundar.

A movimentação para sair da Rede, mirar uma vaga no Senado por São Paulo e possivelmente retornar ao PT revela uma escolha clara: o projeto pessoal se sobrepôs ao projeto coletivo.

Este artigo não nega a importância histórica de Marina Silva nem sua contribuição à pauta ambiental. No entanto, é impossível ignorar as contradições entre o discurso construído ao longo de décadas e as práticas adotadas nos últimos anos.

Marina Silva não é mais — se é que ainda é — aquilo que pregava ser. A esperança deu lugar ao pragmatismo. A renovação cedeu espaço à velha política que ela tanto criticou. E o sonho coletivo foi substituído por um projeto de poder individual.

Essa constatação não nasce do ódio, mas da frustração de quem acreditou, militou e ajudou a construir um caminho que hoje parece definitivamente abandonado.

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